A FELICIDADE DOS SANTOS

Resultado de imagem para rezandoTambém o homem justo, ao encerrar sua vida terrena no amor, já não poderá progredir na virtude. Para sempre continuará a amar no grau de caridade que atingiu até chegar até mim. Também será julgado na proporção do amor. Continuamente me deseja, continuamente me possui; suas aspirações não caem no vazio. Ao desejar, será saciado; ao saciar-se, sentirá ainda fome; distanciando-se, assim, do fastio da saciedade e do sofrimento da fome. Os bem-aventurados gozam da minha eterna visão. Cada um no seu grau, de acordo com a capacidade em que vieram participar de tudo o que possuo. Por terem vivido no meu amor e no amor dos homens; por terem praticado a caridade em geral e em particular, qual fruto de um único amor desfrutam – na alegria e gozo – dos bens pessoais e comuns que mereceram. Colocados entre os anjos e santos, com eles se rejubilam na proporção do bem praticado na terra. Entre si congraçados na caridade, os bem-aventurados de modo especial comunicam com aqueles que amaram no mundo. Realizam-no naquele mesmo amor que os fez crescer na graça e nas virtudes. Na terra, ajudavam-se uns aos outros; tal amor continua na eternidade. Conservam-no, partilham-no profundamente entre si; com maior intensidade até, associando-se à felicidade geral.

Não penses que a felicidade celeste seja apenas individual. Não! Ela é participada por todos os cidadãos da pátria, homens e anjos. Quando chega alguém à vida eterna, todos sentem a sua felicidade, da mesma forma como ele participa do prazer de todos. Não no sentido que os bem-aventurados progridam ou se enriqueçam, pois todos são perfeitos e não precisam de acréscimos. É uma felicidade, um prazer, um júbilo, uma alegria que se renova interiormente, ao tomarem eles conhecimento da riqueza espiritual do recém-chegado. Todos compreendem que ele foi elevado da terra à plenitude da graça por minha misericórdia; naquele que chegou todos se alegram, gratos pelos dons de mim recebidos. O novo eleito, igualmente, sente-se feliz em mim e nos bem-aventurados, neles contemplando a doçura do meu amor.

Em seus anseios, os eleitos clamam continuamente diante de mim em favor do mundo inteiro. Suas vidas haviam terminado no amor fraterno; continuam no mesmo amor. Aliás, foi exatamente por tal caridade que passaram pela porta, que é meu Filho, conforme explicarei em seguida. Os bem-aventurados continuam no céu, aquele mesmo amor com que encerraram a vida terrena. Conformam-se inteiramente à minha vontade, só desejam o que eu desejo. Chegando ao momento da morte me estado de graça, seu livre arbítrio fixa-se no amor e eles não pecam mais. Suas vontades identificam-se com a minha. Se um pai, uma mãe vêem ou, em sentido contrário, se um filho vê os pais no inferno, não se perturbam. Até se alegram por ver tal pessoa punida, como se fosse inimigo seu. Os bem-aventurados em nada se distanciam de mim. Seus desejos estão saciados. Anseiam em ver-me glorificado por vós, viandantes e peregrinos que sois em direção à morte. Aspirando por minha honra, querem vossa salvação e sempre rogam por vós. Da minha parte, escuto seus pedidos naquilo em que vós, por maldade, não opondes resistência à minha bondade.

Os bem-aventurados desejam recuperar seus corpos; todavia não sofrem por sua ausência. Até se alegram, na certeza de que tal aspiração será realizada. A ausência do corpo não lhes diminui o prazer, não é angustiante, não faz sofrer. Nem julgues que a satisfação de ter o corpo após a ressurreição lhes traga maior bem-aventurança. Se isso fosse verdade, seria sinal de que a felicidade anterior era imperfeita enquanto não o reouvessem, e isto não pode ser. De fato, nenhuma perfeição lhes falta. Não é o corpo que faz feliz a alma, mas o contrário. Quando esta recupera o corpo no dia do juízo, participará ele da plenitude e da perfeição da alma. Naquele dia, ela se fixará para sempre em mim, e o corpo – em tal união – ficará imortal, sutil, leve. Deves saber que o corpo ressuscitado pode atravessar uma parede, que o fogo e a água não o ofendem. Tal propriedade lhe advém, não de uma virtude própria, mas por uma força que gratuitamente concedo à alma, que foi criada à minha imagem e semelhança num inefável ato de amor.
Tua inteligência não dispõe da capacidade necessária para entender, nem os ouvidos para escutar, a língua para narrar e o coração para sentir qual é a felicidade dos santos. Que prazer sentem na minha visão, que satisfação ao recuperar o corpo glorificado! Até o juízo final não o possuem, mas sem sofrimento; suas almas já são perfeitas e o corpo apenas virá participar dessa plenitude.

Estava eu falando da perfeição que o corpo ressuscitado receberá da humanidade glorificada de Jesus, a qual vos dá a certeza da ressurreição! No seu corpo brilham as chagas, sempre vivas; conservam-se as cicatrizes a implorar continuamente perdão para vós a mim, Pai eterno. Os bem-aventurados assemelhar-se-ão a Cristo na alegria e no prazer: os olhos dos santos serão como os do Ressuscitado, as mãos como suas mãos, todo o corpo igual ao seu. Unidos a mim estarão unidos a ele, que é uma só coisa comigo.

Serão felizes os vossos olhos ao ver o corpo ressuscitado de meu Filho. Por quê? Porque a vida dos santos ao encerrar-se no amor, não muda mais; como não podem praticar um bem ulterior, gozam daquilo que trouxeram. Já não fazendo obras meritórias – somente nesta vida é possível merecer ou pecar, segundo o livre parecer da vontade – aguardam o juízo final sem temor. Mas também com alegria. Desse modo, a face de Cristo não lhe será um rosto severo e irado. Morreram no meu amor e no amor do próximo. Quando Cristo vier julgar com majestade divina, não o verão com severidade; tal acontecerá com os que serão condenados. Estes verão o Ressuscitado com rosto severo e justo. Para os santos sua face mostrar-se-á amorosa e cheia de misericórdia.

O Diálogo – Santa Catarina de Sena