NÃO IREI DORMIR EM PECADO

Resultado de imagem para confissão criançaQuando fez a sua primeira comunhão, tomou um menino a resolução de nunca ir dormir em pecado mortal na consciência.

O seu propósito era: “Se tivesse a desgraça de cair em falta grave, irei confessar-me no mesmo dia e não irei para a cama antes de me haver conciliado com Deus”.

Alguns meses mais tarde teve a fraqueza de cometer um tal pecado. Era sábado, fazia mau tempo e a igreja era distante. Ele dizia:
– Amanhã, quando for à missa, procurarei o confessor e me confessarei.

Lembra-se, porém, de sua promessa e uma voz interior lhe diz:
– Fazei o que prometeste, vai te confessar…

Contudo, não se resolvia ir e, nessa luta, ajoelhou-se e implorou o auxílio de Nossa Senhora, rezando uma Ave-Maria para que lhe fizesse conhecer a vontade de Deus. Apenas terminara a sua oração, sentiu-se mais vivamente impelido a ir confessar-se imediatamente. Levanta-se, corre à igreja e confessa-se.

De volta encontra-se com sua madrinha, que lhe pergunta de onde vem.

– Acabo de confessar-me, diz com rosto alegre e feliz: cometi um pecado e não quis ir dormir sem alcançar o perdão; agora, sim, tendo recuperado a graça de Deus, posso dormir tranquilo…

Sua mãe tinha o costume de deixá-lo dormir um pouco mais aos domingos; por isso não foi despertá-lo cedo. Às sete horas bate à porta, chama-o pelo nome… Não responde. Passa um quarto de hora e o menino não aparece. Chama-o de novo, mas sem resultado algum.

Inquieta, abre a porta, abeira-se da cama onde o filho jaz imóvel; pega-lhe, está fria; fixa-o um instante, dá um grito e desmaia… O menino estava morto!

E se não tivesse ido confessar-se?

 

Tesouro de Exemplos – Pe. Francisco Alves

JESUS NO SANTÍSSIMO SACRAMENTO, MODELO DE VIRTUDE

santQui appropinquant pedibus eius, accipient de doctrina illius — “Os que chegam a seus pés, receberão da sua doutrina” (Deut. 33, 3).

Sumário. Para a nossa salvação, é mister que no dia do juízo a nossa vida se ache conforme à de Jesus Cristo. Esforcemo-nos, pois, por imitar os exemplos luminosos de virtude que Ele nos dá continuamente no Santíssimo Sacramento da Eucaristia: a sua humildade profunda, a sua mansidão inalterável, aceitando de boa vontade o que Deus manda. Para suprirmos ao que nos falta, ofereçamos a Deus muitas vezes, e particularmente na missa, os merecimentos do divino Redentor.

************************

I. Consideremos os belos exemplos de virtude que nos dá Jesus Cristo na Santíssima Eucaristia. Inefável é a suapaciência. Ele vê que a maior parte dos homens não O adora neste sacramento, nem O quer reconhecer pelo que é. Já antes da instituição sabia que muitas vezes os homens chegariam a calcar aos pés as hóstias consagradas e a atirá-las sobre a terra, à água e ao fogo.

Mas o que mais Lhe amargura o coração tão sensível, é o ver que também a maior parte dos que n’Ele crêem, em vez de repararem tantos ultrajes pelos seus obséquios, ou vão à Igreja para o ofenderem pela sua irreverência, ou o deixam abandonado sobre os altares, desprovidos às vezes de lâmpada e dos ornamentos necessários. Tudo isso Jesus, escondido sob as espécies eucarísticas, o vê e sabe, e todavia sofre-o com paciência e fica calado. Oh, que exprobração de nossa loquacidade nos momentos de ira!

É igual à humildade de Jesus, pois que em nenhuma obra de seu divino amor se ocultou tanto como no mistério do Santíssimo Sacramento. Para nos inspirar confiança, e ao mesmo tempo, para nos dar um remédio de nosso orgulho, chegou a ocultar a sua Majestade, a esconder as suas grandezas, a consumir e aniquilar a sua vida divina. Pode, portanto, com razão dizer-nos de dentro do tabernáculo: Discite a me, quia mitis sum et humilis corde (1) — “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração”.

Mas sobretudo o Senhor nos dá na Eucaristia exemplos de obediência. Enquanto vivia na terra, diz São Lucas que Ele obedecia a Maria Santíssima e a São José (2). São Paulo acrescenta que Jesus se fez obediente a seu Pai Eterno até a morte na cruz (3). Mas neste sacramento Jesus vai mais longe ainda, pois aí quer obedecer não somente ao Eterno Pai, não somente a seus pais, mas a tantas criaturas quantos sacerdotes há, e não somente até à morte, mas enquanto durar o mundo. — Coisa assombrosa! O Rei do céu desce à terra por obediência ao homem; e sobre os altares parece que não faz outra coisa senão obedecer aos homens, deixando-se tratar por todos conforme entenderem, sem replicar uma palavra, sem se subtrair à obediência. Ego autem non contradico, retrorsum non abii (4) — “Eu não contradigo; não me retirei para trás”. Continuar lendo

MEIOS DE PREPARAR-SE PARA A MORTE – PONTO II

Resultado de imagem para moribundoJá que é certo, meu irmão, que tens de morrer, prostra-te aos pés do Crucifixo; agradece-lhe o tempo que sua misericórdia te concede para regular tua consciência, e passa em revista a seguir todas as desordens de tua vida passada, especialmente as de tua mocidade. Considera os mandamentos divinos: recorda os cargos e ocupações que tiveste, as amizades que cultivastes; anota tuas faltas e faze — se ainda a não fizeste — uma confissão geral de toda a tua vida… Oh! quanto contribui a confissão geral para pôr em boa ordem a vida de um cristão.

Cuida que essa conta sirva para a eternidade, e trata de resolvê-la como se a apresentasses no tribunal de Jesus Cristo. Afasta de teu coração todo afeto mau e todo rancor ou ódio. Satisfaze qualquer motivo
de escrúpulo acerca dos bens alheios, da reputação lesada, de escândalos dados, e propõe firmemente
fugir de todas as ocasiões em que possas perder a Deus. Pensa que aquilo que agora parece difícil, impossível te parecerá no momento da morte.

O que mais importa é que resolvas pôr em execução os meios de conservar a graça de Deus. Esses meios são: ouvir Missa diariamente; meditar nas verdades eternas; fazer, ao menos uma vez por semana, a confissão e receber a comunhão; visitar todos os dias o Santíssimo Sacramento e a Virgem Maria; assistir aos exercícios das congregações ou irmandades a que pertenças; praticar a leitura espiritual; fazer todas as noites exame de consciência; escolher alguma devoção especial à Virgem, como jejuar todos os sábados, e, por fim, propor recomendar- se a Deus e à sua Mãe Santíssima, invocando a miúdo, sobretudo no tempo da tentação, os santíssimos nomes de Jesus e Maria. Continuar lendo

A PSICOLOGIA DA APOSTASIA

Resultado de imagem para homem cabisbaixoFoi incansável na tentativa de levar às almas a verdade, tanto natural quanto sobrenatural, o Pe. Leonel Franca, que ilustra o pensamento brasileiro com livros dignos de um mestre. Entre seus escritos, encontra-se um pequeno livro, A Psicologia da Fé, onde o grande jesuíta analisa os detalhes do ato de fé, aquilo que leva o homem a agir pela Fé, o que  falta na atitude daqueles que não têm Fé.

Inspirado neste trabalho, e assistindo já há alguns anos a tantas almas, perguntei-me o que levava os homens ao abandono da fé. Qual a mola interior que conduz a alma humana a passar de uma atitude de  docilidade diante da verdade revelada à oposição total e perda dos atos relativos à fé: oração, confissão freqüente, comunhão, e vida cristã.

Não analiso aqui a atitude dos que não têm Fé, mas sim a atitude e a dinâmica da perda da Fé.

A alma que vive da fé  

Consideremos, então, uma alma posta no sossego da fé: ela crê em Deus e em sua Igreja, ela obedece aos mandamentos, ela reza todos os dias e no domingo prepara a si e aos seus para assistir a Santa Missa. No dia a dia, esbarrando em tantas ocasiões de pecado, em tantas tentações, ela usa os critérios que a Igreja nos propõe para não se deixar levar, para não cair no pecado: fuga das ocasiões, atos de fé, aconselhamento com o sacerdote, e oração freqüente. Assim combate a alma cristã, assim busca a perfeição quem vive da graça. É claro que em diversas ocasiões virão lhe propor atitudes que são contrárias à sua fé. Ela, porém, saberá esquivar-se com prudência de todos os ataques. Aqui com gentilezas, ali com a força do combate, mas sempre protegendo o maior tesouro que recebeu. Saberá ter compaixão para com tantas amizades, tantos parentes que não vivem da Fé e se deixam levar pelas facilidades da vida. Saberá calar e rezar no silêncio do seu quarto, sem no entanto dar a entender que apóia os erros dos seus mais próximos amigos e parentes. As coisas relativas à vida da Igreja serão sempre, para tal alma, motivo de alegria, de estudos, de oração. E se acontecer que uma atitude lhe seja pesada, rapidamente se inclinará à confiança em Deus, no auxílio divino para resistir ao erro. Viverá na Esperança teologal. E como uma vida assim não existe sem que a alma esteja unida à Deus, sem que a alma ame a Deus e ao próximo, a Caridade será a coroa de sua existência.

Vivendo, então, da Fé, da Esperança e da Caridade, a alma verdadeiramente católica busca a perfeição na prática de todas as virtudes. Continuar lendo

A VIDA PRESENTE É UMA VIAGEM PARA A ETERNIDADE

abcNon enim habemus hic manentem civitatem, sed futuram inquirimus — “Não temos aqui cidade permanente, mas procuramos a futura” (Hebr. 13, 14)

Sumário. Vendo tantos ímpios em prosperidade e tantos justos em tribulação, os próprios pagãos, guiados pela luz da razão, reconheceram que a terra não é nossa pátria, mas somente um lugar de passagem e de merecimento. Quão insensatos, pois, somos, se, sendo cristãos e crendo as verdades da fé, nos afeiçoamos aos bens deste mundo, do qual teremos de sair um dia e, entretanto, nos descuidamos de construir com as boas obras uma morada no outro mundo, onde ficaremos por toda a eternidade!

********************************

I. Vendo que nesta terra tantos ímpios vivem em prosperidade, e tantos justos, ao contrário, em tribulação, os próprios pagão, iluminados unicamente pela luz natural, reconheceram esta verdade que, dada a existência de Deus e sendo Deus justo, deve haver outra vida, onde os maus sejam castigados e os justos recebam o prêmio. Ora, o que os pagãos admitiram, seguindo unicamente a luz da razão, nós, os cristão, reconhecemo-lo pela fé: “Não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a futura.” A terra não é nossa pátria, é apenas um lugar de passagem, por onde, em pouco tempo, nos devemos dirigir à morada da eternidade:Ibit homo in domum aeternitatis suae(1) — “O homem irá à casa de sua eternidade”.

Assim, meu irmão, a casa que habitas não é tua morada; é uma hospedaria, de onde bem cedo e quando menos o imaginares, terá de sair. Sabe que, chegada a hora de tua morte, teus amigos mais caros serão os primeiros a expulsar-te. E qual então será a tua morada? Uma cova será a casa de teu corpo até o dia do juízo; e tua alma irá à casa da eternidade, quer no céu, quer no inferno.

Daí o conselho de Santo Agostinho: Hospes es, transis et vides — “És hóspede; vais passando e vês”. Bem louco seria o viajante que, achando-se de passagem num país, nele gastasse todo o seu patrimônio na compra de uma quinta ou casa, que dentro de breves dias teria de abandonar. Lembra-te, portanto, diz o Santo, que não és neste mundo senão um passageiro; não te afeiçoes ao que vês. Vê e passa; procura uma boa casa na qual terá de morar para sempre. — Se te salvares, feliz de ti! Que bela habitação não é o paraíso! Os mais belos palácios dos monarcas não passam de currais em comparação da cidade celeste, única que se possa chamar toda bela:Urbs perfecti decoris (2) — “Cidade de beleza perfeita”. Pelo contrário, ai de ti se te condenares! Estarias abismado num mar de fogo e de tormentos, desesperado, abandonado de todos e sem Deus. E por quanto tempo? Por toda a eternidade! Continuar lendo

MEIOS DE PREPARAR-SE PARA A MORTE – PONTO I

Resultado de imagem para moribundoMemorare novissima tua, et in aeternum non peccabis. – “Lembra-te de teus novíssimos, e não pecarás jamais” (Ecl 7, 40)

Todos cremos que temos de morrer, que só uma vez havemos de morrer e que não há coisa mais importante que esta, porque do instante da morte depende a eterna bem-aventurança ou a eterna desgraça.

Todos sabemos também que da boa ou má vida depende o ter boa ou má sorte. Como se explica, pois, que a maior parte dos cristãos vivem como se nunca devessem morrer, ou como se importasse pouco morrer bem ou mal? Vive-se mal porque não se pensa na morte:

“Lembra-te de teus novíssimos, e não pecarás jamais.”

É preciso persuadirmo-nos de que a hora da morte não é o momento próprio para regular contas e assegurar com elas o grande negócio da salvação. As pessoas prudentes deste mundo tomam, nos negócios temporais, todas as precauções necessárias para obter tal benefício, tal cargo, tal casamento conveniente, e, com o fim de conservar ou restabelecer a saúde do corpo, não deixam de empregar os remédios adequados. Que se diria de um homem que, tendo de apresentar-se ao concurso de uma cadeira, esperasse, para adquirir a indispensável habilitação, até ao momento de acudir aos exercícios? Não seria um louco o comandante de uma praça que esperasse vê-la sitiada para fazer provisões de víveres e armamentos? Não seria insensato o navegante que aguardasse a tempestade para munir-se de âncoras e cabos?… Tal é, todavia, o procedimento do cristão que difere até à hora da morte o regular o estado de sua consciência.

“Quando cair sobre eles a destruição como uma tempestade… Então invocar-me-ão e não os escutarei… Comerão os frutos do seu mau proceder” (Pr 1,27.28.31).

A hora da morte é tempo de confusão é de tormenta. Então os pecadores implorarão o socorro do Senhor, mas sem conversão verdadeira, unicamente com o receio do inferno, em que se veem próximos a cair. É por este motivo justamente que não poderão provar outros frutos que os de sua má vida. Continuar lendo

DO AMOR À SOLIDÃO

solidDucam eam in solitudinem, et loquar ad cor eius — “Eu a levarei à solidão e lhe falarei ao coração” (Os. 2, 14).

Sumário. Deus não costuma geralmente falar-nos no meio dos tumultos e negócios mundanos, pelo receio de não ser entendido. Quando quer elevar uma alma a um grau eminente de perfeição, excita-a a que se retire para algum lugar solitário, longe da conversação com as criaturas. Ali é que lhes fala ao coração, as ilumina e abrasa em seu amor divino. Se quisermos, pois, ouvir a voz de Deus, amemos a solidão e procuremos, o mais possível, ter vida retirada afim de tratarmos a sós com Deus.

*************************

I. Deus não se deixa achar nos tumultos do mundo, pelo que os santos procuravam os desertos mais horrendos, as espeluncas mais ocultas, afim de se subtraírem à sociedade dos homens e conversarem a sós com Deus. São Hilarion mudou repetidas vezes de um deserto para outro, sempre em busca do mais solitário, onde não encontrasse pessoa alguma com quem conversar e finalmente morreu num deserto de Chipre, depois de ter vivido ali cinco anos. Quando São Bruno foi chamado pelo Senhor a deixar o mundo, foi, com seus companheiros, ter com São Hugo, bispo de Grenoble, afim de que lhes assinasse em sua diocese um lugar deserto; e São Hugo indicou-lhes a Cartucha, que pela sua atrocidade antes era própria para antro de feras do que para morada de homens.

Certo dia, disse o Senhor à Santa Teresa: “Eu quisera falar a muitas almas; mas o mundo faz tanto tumulto em seu coração, que minha voz não pode ser ouvida.” Deus não fala no meio dos rumores e negócios do mundo, cuidando que, se falasse, não seria ouvido. A voz de Deus são as inspirações santas, as luzes e os convites, com que ilumina os santos e os inflama no amor divino; mas quem não ama a solidão, fica privado desta voz divina.

Deus diz: “Eu a levarei à solidão e lhe falarei ao coração.” Quando Deus quer elevar uma alma a um grau eminente de perfeição, inspira-lhe a idéia de se retirar para algum lugar solitário, e ali, longe das conversações com as criaturas, fala-lhe aos ouvidos, não do corpo, mas do coração, e assim a ilumina e a abrasa em seu divino amor. Pelo que São Bernardo dizia que tinha aprendido a amar a Deus muito mais nos bosques, entre os carvalhos e as faias, do que nos livros e no trato com os servos de Deus. — E São Jerônimo, que deixou as delícias de Roma para se encerrar na Gruta de Belém, exclamava: “Ó solidão bem aventurada, na qual o Senhor trata familiarmente com as almas suas diletas e lhes faz ouvir essas palavras que liquefazem os corações no santo amor!” Continuar lendo

XIX DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES: A PARÁBOLA DO BANQUETE NUPCIAL E A IGREJA CATÓLICA

Simile factum est regnum caelorum homini regi, qui fecit nuptias filio suo — “O reino dos céus é semelhante a um rei que fez núpcias para seu filho” (Matth. 22, 2).

Sumário. Pelo banquete do qual fala o Evangelho de hoje, entende-se a doutrina católica, os sacramentos e a abundância das graças celestiais. Como filhos da Igreja católica, somos do número dos convidados, e portanto, agradeçamos sempre a Jesus Cristo tão grande favor que nos foi concedido com preferência a tantos outros. Cuidemos, porém, que estejamos vestidos da veste nupcial, isto é, da graça santificante, afim de não sermos, cedo ou tarde, lançados às trevas exteriores, no inferno. Quantos cristãos não se perdem, porque as obras não respondem à fé que professam!

******************************

I. “O reino dos céus, diz Jesus Cristo, “é semelhante a um rei que fez núpcias para o seu filho, e mandou seus servos chamarem os convidados para as bodas. Mas eles desprezaram o convite, e lá se foram, um para sua casa de campo, outro para o seu negócio. Os outros prenderam os servos que enviara, e, depois de os cobrirem de ultrajes, mataram-nos. Mas o rei, tendo ouvido isto, ficou indignado, e enviando os seus exércitos, exterminou aqueles homicidas, e pôs fogo à sua cidade. Disse então aos seus servos: As bodas estão preparadas; mas os que haviam sido convidados não foram dignos. Ide, pois, às embocaduras das estradas, e a quantos encontrardes, convidai-os para as bodas. E, tendo sabido os seus servos pelas ruas, reuniram todos os que encontraram, bons e maus, e a mesa do banquete ficou cheia de convidados: “Et impletae sunt nuptiae discumbentium.

Segundo a interpretação dos doutores, o rei da presente parábola é o Pai Eterno; o esposo é seu Filho Jesus Cristo; a e a esposa, a Igreja Católica. Pelo banquete nupcial entendem-se a doutrina evangélica, os santos sacramentos e a abundância de todas as graças celestiais. Para este banquete místico fez o Senhor convidar primeiramente os Hebreus, por meio dos profetas e dos apóstolos. Mas, eles, desprezando o convite, maltrataram e mataram os ministros de Deus, e por isso foram expulsos e pereceram na destruição de Jerusalém. E em lugar dos Hebreus foram chamados os gentios, que andavam no caminho largo que leva ao inferno.

Meu irmão, também tu, descendente de antepassados pagãos e sem algum merecimento próprio, pertences ao número destes felizes convidados. Considera, portanto, atentamente o amor especial que Deus te mostrou, agradece-lhe e repara como até agora lhe tens correspondido. Oh! Quantos se tornariam santos, e grandes santos, se lhes tivesse sido dada a mesma abundância de recursos espirituais como a ti! Ao passo que tu há muitos anos talvez estais dormindo na tibieza, e sabe lá Deus se talvez no pecado! Continuar lendo

ESPECIAIS DO BLOG: CÉU, PURGATÓRIO E INFERNO SEGUNDO SÃO JOÃO BOSCO

Resultado de imagem para são joão boscoEm uma “Operação Memória” de nosso blog, trazemos novamente os três capítulos do Livro: Céu, Purgatório e Inferno, de São João Bosco.

São relatos das visitas que o Santo fez a esses locais, através de “sonhos” que tinham caráter sobrenatural. São 3, de muitos que teve durante toda sua vida, na qual o próprio Santo julgava serem frutos de sua imaginação.

Vale a leitura:

MARIA SANTÍSSIMA, MODELO DA VIDA SOLITÁRIA E RECOLHIDA

mariaQuae est ista, quae ascendit de deserto… innixa super dilectum suum? — “Quem é esta que sobe do deserto… firmada sobre o seu amado?” (Cant. 8, 5).

Sumário. A Santíssima Virgem amava tanto a solidão, que, sendo ainda criança de três anos apenas, deixou seus pais e foi encerrar-se no templo. Imagina, pois, a que grau de recolhimento e de união com Deus deve ela ter chegado quando, feita Mãe de Deus, teve a sorte feliz de viver tantos anos com Jesus Cristo. Se aspiras a honra de ser filho de Maria, aplica-te com todo o cuidado a sua imitação, levando uma vida solitária e retirada. Por isso, ama o silêncio, conserva-te sempre na presença de Deus, e volve-te muitas vezes a Ele por meio de fervorosas orações jaculatórias.

*********************

I. No tempo do dilúvio, o corvo mandado por Noé fora da arca ficou a comer os cadáveres; mas a pomba, sem pousar em parte alguma, voltou prestes ao ponto de onde partira. Assim, muitos, mandados por Deus a este mundo se detém infelizmente a gozar dos bens terrestres. Não assim a nossa pomba celeste, Maria. Conheceu que o nosso bem, a nossa única esperança deve ser Deus; conheceu que o mundo é cheio de perigos e que aquele que mais cedo o deixa é mais livre dos seus laços. Por esta razão, como afirmam São Germano e Santo Epifânio, a Santíssima Virgem, apenas chegada à idade de três anos, idade em que as crianças desejam mais vivamente a convivência com seus pais, foi encerrar-se no templo, onde melhor pudesse ouvir a voz de seu Deus e, melhor ainda, honrá-Lo e amá-Lo.

Diz Santo Anselmo que, enquanto a Bem-aventurada Virgem vivia no templo, “era dócil, falava pouco, estava sempre recolhida, sempre séria e sem se perturbar. Era, além disso, constante na oração, na leitura da Sagrada Escritura, nos jejuns e em todas as obras de virtude”. Era tão amante do silêncio, que, como ela mesma revelou à Santa Brígida, se abstinha de falar até com os próprios pais.

Não são menos belos os exemplos de recolhimento que a Virgem nos deu, depois de se desposar com o castíssimo São José. Conforme diz São Vicente Ferrer: “Maria não saía de casa senão para ir ao templo; e mesmo então, ia toda recolhida e com os olhos baixos.” Eis porque São Lucas observa que na visita a Santa Isabel: Abiit in montana cum festinatione (1) — “Ela foi com presteza às montanhas”, para ser menos vista em público e fugir o mais possível da sociedade dos homens.

Se Maria foi tão amante da solidão quando menina e tenra donzela, imagina a que grau de recolhimento e de união com Deus deve ela ter chegado quando, já Mãe de Deus, teve a grande ventura de viver trinta e três anos e de conversar familiarmente com Jesus Cristo. Tinham, pois, os anjos razão para, no dia da Assunção da Virgem ao céu, perguntarem: Quem é esta que sobe do deserto? Sim, porque Maria viveu sempre em solidão neste mundo, como num deserto. Continuar lendo

PRIMEIRA PALAVRA DE JESUS CRISTO NA CRUZ

Resultado de imagem para jesus crucificadoPater, dimitte illis: non enim sciunt quid faciunt — “Pai, perdoai-lhes; pois não sabem o que fazem” (Luc. 23, 34).

Sumário: Ó ternura do amor de Jesus! Os judeus, depois de O pregarem na cruz, injuriam-No e prorrompem em blasfêmias. Ao mesmo tempo, Jesus, movido pelo desejo de salvar a todos, volve-se ao Pai Eterno, roga-Lhe pelos que O crucificaram e procura desculpar o crime. Meu irmão, se pelos nossos pecados temos renovado a crucifixão do Senhor, não desanimemos; porque Jesus nos abrangeu também em sua oração. É, porém, necessário que Lhe imitemos o exemplo, perdoando a nossos inimigos e dando o bem pelo mal.

************************

I. Ó ternura do amor de Jesus Cristo para com os homens! Os judeus, depois de O pregarem na cruz, injuriam-No, insultam-No e prorrompem em blasfêmias; e Jesus, entretanto, que faz? Jesus, diz Santo Agostinho, não cuida tanto nos ultrajes que recebe da parte daquele povo, como no amor que O faz morrer para o salvar; e por isso, ao mesmo tempo que é injuriado pelos seus inimigos, volve-se ao Eterno Pai, pede perdão para eles e procura desculpar o crime nefando pela ignorância: Pai, perdoai-lhes; porque não sabem o quer fazem.

“Ó maravilha!” exclama São Bernardo; “Jesus Cristo pede perdão e os judeus gritam crucifigecrucifica-O.” E São Cipriano acrescenta: Vivificatur Christi sanguine qui effudit sanguinem Christi — “Recebem a vida pelo sangue de Cristo, aqueles mesmos que derramaram o sangue de Cristo”. Na sua morte, tinha o Senhor tamanho desejo de salvar a todos, que não deixa de fazer participar dos méritos de seu sangue àqueles mesmos que Lho extraem das veias à força de tormentos. Numa palavra, como diz Arnoldo de Chartres, ao passo que os judeus trabalham para se condenarem, Jesus Cristo se empenha em os salvar.

E não ficaram improfícuos os seus empenhos; pelo que, sendo mais poderosa para com Deus a caridade do Filho, do que a cegueira daquele povo ingrato, a oração de Nosso Senhor moribundo fez, como escreve São Jerônimo, que no mesmo momento muitos judeus abraçassem a fé; e, na opinião de São Leão, os milhares de judeus que se converteram pela pregação de São Pedro, foram o fruto da oração de Jesus Cristo.
Continuar lendo

DA COMUNHÃO ESPIRITUAL

comunOs meum aperui, et attraxi spiritum — “Abri a minha boca, e atraí o alento” (Ps. 118, 131).

Sumário. A comunhão espiritual consiste num desejo ardente de receber Jesus sacramentalmente e num amoroso amplexo, como se fosse recebido realmente. Esta devoção é um meio eficacíssimo para chegar à perfeição e ao mesmo tempo é uma devoção facílima, porque pode ser praticada todos os dias, por todos, e quantas vezes se quiser, sem ser vista ou observada por pessoa alguma. Pratica-a, pois, com frequência, em particular, na oração mental, na visita ao Santíssimo Sacramento e na assistência à Missa à hora da comunhão do sacerdote.

*******************************

I. Segundo Santo Tomás, a comunhão espiritual consiste num desejo ardente de receber Jesus Cristo sacramentalmente e num amplexo amoroso, como se já fora recebido. O santo Concílio de Trento louva muito a comunhão espiritual e convida todos os fiéis a que a ponham em prática. E Deus mesmo, repetidas vezes, tem dado a entender às almas devotas quanto Lhe agrada esta devoção.

Um dia apareceu Jesus a Soror Paula Maresca, fundadora do convento de Santa Catarina de Sena em Nápoles, e mostrou-lhe dois vasos preciosos, um de ouro e outro de prata, dizendo-lhe que o no primeiro guardava as suas comunhões sacramentais e no segundo as espirituais. Em outra ocasião disse o Senhor também à Venerável Joana da Cruz que, sempre que comungava espiritualmente, concedia-lhe uma graça semelhante à que lhe dava na comunhão sacramental. — Mais tocante é o que um autor fidedigno (1) refere de outro servo de Deus. Quando este fazia na missa a comunhão espiritual, sentira a partícula consagrada levar-se-lhe aos lábios e experimentava na alma uma doçura indizível, querendo o Senhor recompensar desta forma o desejo de seu bom Servo.

Por isso todas as almas devotas costumam praticar com frequência o santo exercício da comunhão espiritual. A Bem-aventurada Angela da Cruz, dominicana, chegou a dizer que, se o confessor não lhe tivesse ensinado este modo de comungar, não teria podido viver. Fazia cem comunhões espirituais durante o dia, e outras cem durante a noite. Nem é de admirar, pois que este modo de comungar, sobre ser uma devoção muito proveitosa, é também facílimo e pode ser praticado cada dia por todos, e quantas vezes se quiser. — A já mencionada Joana da Cruz exclamava: “Ó meu Senhor, que bela maneira de comungar é essa! Sem ser vista por ninguém, sem ter de dar conta a meu diretor espiritual, sem dependência de ninguém senão de Vós, que alimentais minha alma na solidão e lhe falais ao coração!” Continuar lendo

CONVERTIDO POR NOSSA SENHORA

Resultado de imagem para virgem santíssimaUm dia foi S.Francisco Régis chamado para atender um enfermo, que não queria de forma alguma preparar-se para a morte. Desprezava todos os auxílios da santa religião.

O Santo tirou do breviário uma imagem da Mãe de Deus e, mostrando-a ao doente, disse:

– Olha, Maria te ama!

– Como, replicou o pecador, então ela me conhece?

–  Mas eu sei que ela te ama, tornou o Santo.

– Então ela não sabe que reneguei a minha fé e desprezei a religião?

– Sabe.

– Que insultei a seu filho?

– Sabe.

– Que estas mãos estão manchadas de sangue inocente?

– Sabe.

– Padre, o senhor fala a verdade?

– Sim; passarão o Céu e a terra, mas a palavra de Deus não passará. Sabe o que Jesus disse outrora e te

Diz hoje ainda: Filho, eis aí tua Mãe!

– Uma mãe que me ama!… murmurou o pecador comovido; minha mãe, minha…e copiosas lágrimas lhe vinham dos olhos. Eram lágrimas de verdadeiro arrependimento e sincera dor.

Fez piedosa confissão e recebeu com visível fervor a sagrada comunhão e a extrema-unção.

Alguns dias depois, feliz e cheio de confiança, expirou.

                                       *          *          *

Como é agradável saber que no Céu temos uma Mãe que sempre pensa em nós, que vela solícitamente por nós, que nunca nos abandona, mesmo quando nós somos ingratos e pecadores arrependidos.

Como Maria Santíssima é boa! – Frei Cancio Berri C. F. M

A MORTE DO JUSTO É A ENTRADA NA VIDA

morte_del_giusto_gHaec porta Domini, iusti intrabunt in eam — “Esta é a porta do Senhor, os justos entrarão por ela” (Ps. 117, 20).

Sumário. A morte, considerada segundo os sentidos, causa pavor e temor, mas considerada segundo a fé, é consoladora e desejável; porque é a porta da vida, pela qual forçosamente deve passar quem quiser entrar no gozo de Deus. Tal é a graça que Jesus Cristo nos alcançou pela sua morte. Pelo que os santos, enquanto estavam na terra, não desejavam senão sair do cárcere do miserável corpo e entrar no reino celestial. Se nós temos tamanho horror à morte, é porque amamos pouco ao Senhor.

************************

I. A morte, considerada segundo os sentidos, causa pavor e temor; mas considerada segundo a fé, é consoladora e desejável; porque, como observa São Bernardo, não só é o fim dos trabalhos e o remate da vitória, como também a porta da vida, pela qual deve passar forçosamente quem quiser entrar no gozo e contemplação de Deus: “Esta é a porta do Senhor, os justos entrarão por ela.” — São Jerônimo chamava a morte e lhe dizia: Aperi mihi, soror mea — “Ó morte, minha irmã, se me não abres a porta, não poderei entrar no gozo de meu Senhor”. São Carlos Borromeu, vendo em sua casa um quadro que representava um esqueleto com uma foice na mão, mandou chamar um pintor e ordenou-lhe que apagasse a foice e a substituísse por uma chave de ouro. Queria por este meio inflamar-se mais e mais no desejo da morte, porque é a morte que nos deve abrir o paraíso.

Se um rei, diz São João Crisóstomo, tivesse preparado para alguém uma habitação na sua própria morada e no entretanto o deixasse viver num curral, quanto não deveria esse homem desejar sair do curral para passar ao palácio régio? A alma nesta vida vive no corpo como numa prisão, de onde deve sair um dia para entrar no palácio do céu. É por isso que Davi orava assim: Educ de custodia animam meam (1) — “Livrai a minha alma de sua prisão”. E o santo velho Simeão, quando tinha nos braços o menino Jesus, não lhe soube pedir outra coisa senão a morte, para se ver livre das cadeias da vida presente. Nunc dimittis servum tuum, Domine (2) – “Agora, deixas ir o teu servo”. “Pede que o deixem ir”, diz Santo Ambrósio, “como se fosse retido.”

Qual não foi a alegria do copeiro de Faraó, quando soube por José que dentro em pouco devia sair da prisão e voltar a ocupar o seu posto! E não se regozijará uma alma que ama a Deus, sabendo que dentro em breve vai ser livre da prisão deste mundo e entrar na posse de Deus? É, pois, com razão que a morte dos santos se chama o seu nascimento; visto que pela morte nascem para a vida bem aventurada que nunca terá fim. Continuar lendo

DO AGRADECIMENTO PELA GRAÇA DE DEUS

Imagem relacionadaPara que buscas repouso se nascestes para o trabalho? Dispõe-te mais à paciência que à consolação, mais para levar a cruz que para ter alegria. Quem dentre os mundanos não aceitaria de bom gosto a consolação e a alegria espiritual, se a pudesse ter sempre ao seu dispor? As consolações espirituais excedem todas as delícias do mundo e todos os deleites da carne. Pois todas as delícias do mundo ou são vãs ou torpes, e só as do espírito são suaves e honestas, nascidas que são das virtudes e infundidas por Deus nas almas puras. Mas ninguém pode lograr estas divinas consolações à medida de seu desejo, porque não cessa por muito tempo a guerra da tentação.

Grande obstáculo às visitas celestiais é a falsa liberdade do espírito e a demasiada confiança em si mesmo. Deus faz bem dando-nos a graça da consolação; mas o homem faz mal não retribuindo tudo a Deus, com ação de graças. E se não se nos infundem os dons da graça, é porque somos ingratos ao Autor, não atribuindo tudo à fonte original. Pois sempre Deus concede a graça a quem dignamente se mostra agradecido e tira ao soberbo o que costuma dar ao humilde.

Não quero consolação que me tire a compunção, nem desejo contemplação que me seduz ao desvanecimento; porque nem tudo que é sublime é santo, nem tudo que é agradável é bom, nem todo desejo é puro, nem tudo que nos deleita agrada a Deus. De boa mente aceito a graça, que me faz humilde e timorato e me dispõe melhor para renunciar a mim mesmo. O homem instruído pela graça e experimentado com sua subtração não ousará atribuir-se bem algum, antes reconhecerá sua pobreza e nudez. Dá a Deus o que é de Deus, e atribui a ti o que é teu; isto é, dá graças a Deus pela graça, e só a ti atribui a culpa e a pena que a culpa merece.

Põe-te sempre no ínfimo lugar, e dar-te-ão o supremo, porque o mais alto não existe sem o apoio do inferior. Os maiores santos diante de Deus são os que se julgam menores, e quanto mais glorioso, tanto mais humildes são no seu conceito. Como estão cheios de verdade e glória celestial, não cobiçam a glória vã. Em Deus fundados e firmados, nada os pode ensoberbecer. Atribuindo a Deus todo o bem que receberam, não pretendem a glória uns dos outros; só querem a glória que procede de Deus; seu único fim, seu desejo constante é que ele seja louvado neles e em todos os santos, acima de todas as coisas.

Agradece, pois, os menores benefícios e maiores merecerás. Considera como muito o pouco, e o menor dom por dádiva singular. Se considerarmos a grandeza do benfeitor, não há dom pequeno ou de pouco valor; porque não pode ser pequena a dádiva que nos vem do soberano Senhor. Ainda quando nos der penas e castigos, Lho devemos agradecer, porque sempre é para nossa salvação quanto permite que nos suceda. Se desejares a graça de Deus, sê agradecido quando a recebes e paciente quando a perdes. Roga que ela volte, anda cauteloso e humilde, para não vires a perdê-la.

Imitação de Cristo – Tomás de Kempis

DA VIDA RETIRADA

d9992f7095b6_casperdavidfriedrichVenite seorsum in desertum locum, et requiescite pusillum — “Vinde à parte a um lugar solitário e descansai um pouco” (Marc. 6, 31).

Sumário. Todas as almas que amam o Senhor acham o seu paraíso na vida retirada. Ademais, sabemos que Jesus Cristo quis que, depois dos trabalhos do apostolado, seus discípulos se retirassem para um lugar solitário afim de conversarem só com Deus. Devemos portanto concluir que o retiro para a solidão, feito de tempos a tempos, é necessário a todos, mas em particular aos operários sagrados, afim de conservarem o recolhimento e refazerem as forças para novos trabalhos na conquista das almas. Sem esse retiro, serão poucos os frutos de seus trabalhos apostólicos.

***************************

I. As almas que amam a Deus acham o seu paraíso na vida retirada longe do trato com os homens. A sua conversação (isto é, a conversação com Deus), longe das criaturas, nada tem de desagradável, mas alegria e gozo (1). — Os mundanos têm motivos para fugirem da solidão, porque na solidão, onde não os absorvem os divertimentos ou ocupações terrenas, mais vivamente se fazem sentir em seus corações os remorsos da consciência. Eis porque procuram alívio ou pelo menos distração na conversação com os homens; mas quanto mais procuram alívio entre os homens ou nos negócios mundanos, tanto mais acham espinhos e amarguras.

O mesmo não sucede às almas amantes de Deus, porque na solidão acham um doce companheiro, que as consola e regozija mais do que a companhia de todos os parentes ou amigos e mesmo dos primeiros personagens do mundo. Diz São Bernardo: Nunquam minus solus, quam cum solus — “Nunca me vejo menos só do que quando estou só e longe dos homens; porque então acho Deus que fala comigo e eu por minha vez estou mais atento em ouvi-Lo e mais disposto a unir-me a Ele.”

Quis o Senhor que os seus discípulos, muito embora destinados a pregarem a fé percorrendo o mundo inteiro, interrompessem de tempos a tempos os seus trabalhos e se retirassem à solidão, afim de tratarem somente com Deus. Sabemos que Jesus Cristo, já no tempo que passava sobre a terra, costumava enviá-los a diversas partes da Judéia, para converterem os pecadores; mas, findos os trabalhos, não deixava de convidá-los ao retiro a algum lugar solitário, dizendo-lhes: “Vinde à parte a um lugar solitário e descansai um pouco.” Ora, se o Senhor manda isto mesmo aos apóstolos, devemos nós concluir que para todos, mas particularmente para os operários evangélicos, é necessário que de tempos a tempos se retirem para um lugar solitário, afim de conservarem o espírito recolhido em Deus e restabelecerem suas forças para os trabalhos da conquista das almas. Continuar lendo

DO NEGÓCIO DA ETERNA SALVAÇÃO

cruzRogamos autem vos, fratres… ut vestrum negotium agatis — “Nós vos rogamos, irmãos… que trateis de vosso negócio” (I Thess. 4, 10 et 11).

Sumário. O negócio da nossa eterna salvação é para nós não só o negócio mais importante, mas o único que nos deva preocupar; porque, se o errarmos uma vez, está tudo perdido e perdido para sempre. Mas ó maravilha, todos os que possuem a fé reconhecem que é assim e, contudo, entre os cristãos são poucos os que tratam seriamente de um negócio tão importante. Ponhamos a mão na consciência e se por ventura sejamos do número desses descuidados, resolvamos emendar-nos depressa, custe o que custar.

****************************

I. O negócio da nossa salvação eterna não só é para nós o mais importante, mas o único que nos deve preocupar; porque, se o errarmos, está perdido tudo. O pensamento da eternidade bem meditado basta para fazer um santo. O servo de Deus P. Vicente Carafa dizia que, se todos os homens se lembrassem, com viva fé, da eternidade da vida futura, a terra se tornaria um deserto; pois que ninguém se ocuparia ainda com os negócios da vida presente.

Oh! Se todos tivessem sempre diante dos olhos a grande máxima ensinada por Jesus Cristo: “De que serve ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua alma?” (1). Foi esta a máxima que levou tantos homens a deixarem o mundo; tantas virgens nobres e até de sangue real, a se encerrarem num convento; tantos anacoretas a irem viver nos desertos; e tantos mártires a darem a vida pela fé. Lembravam-se de que, se perdessem a alma, todos os bens deste mundo de nada lhes poderiam servir na vida eterna. — Eis porque o Apóstolo escreveu a seus discípulos: “Nós vos rogamos, meus irmãos…, que trateis de vosso negócio.” (2) De que negócio é que falava o Apóstolo? Falava daquele negócio cuja perda acarreta a perda do reino eterno do paraíso e o ser lançado num abismo de tormentos que nunca jamais terão fim.

Tinha, pois, razão São Filipe Neri em chamar de loucos a todos aqueles que nesta vida só cuidam de riquezas e dignidades e pouco se importam com a salvação da alma. Todos eles, dizia o Bem aventurado João de Ávila, mereceriam ser encerrados num hospício de alienados: Como? (quis dizer o Bem-aventurado) Vós credes que há uma eternidade de penas para os que O ofendem; e apesar disso ainda o ofendeis? Continuar lendo

A MULHER SEM ALMA

Resultado de imagem para mulher medieval

Régine Pernoud

Em 1975, “ano internacional da mulher”, o ritmo de referências à Idade Média tornou-se estonteante; a imagem da Idade Média, dos tempos obscuros de onde se emerge, como a Verdade de um poço, impunha-se a todos os espíritos e fornecia um tema básico para os discursos, colóquios, simpósios e seminários de todos os tipos. Como eu mencionasse, um dia, em sociedade, o nome de Eleonora de Aquitânia, obtive logo aprovações entusiásticas: “Que personagem admirável! — exclamou um dos presentes. Numa época em que as mulheres só pensavam em ter filhos…”. Eu lhe fiz uma observação sobre o fato de que Eleonora parecia haver pensado assim pois teve dez e, considerando sua personalidade, isto não poderia ter ocorrido por simples advertência. O entusiasmo tornou-se um pouco menor.

A situação da mulher, na França medieval, é na atualidade assunto mais ou menos novo: poucos estudos sérios lhe foram consagrados, pode-se mesmo dizer que se os poderia contar pelos dedos. A sociedade Jean Bodin, cujos trabalhos são tão notáveis, editou em 1959-1962 dois grossos volumes (respectivamente 346 e 770 páginas) sobre a mulher. Todas as civilizações são sucessivamente examinadas. A mulher é estudada na sociedade do Sião, ou de acordo com os vários direitos cuneiformes, ou no Direito malikité-magrebino, mas, para o nosso Ocidente medieval, não se contam mais do que dez páginas relativas ao Direito canônico, outras dez ao período que vai do século XIII ao fim do século XVII, um estudo consagrado aos tempos clássicos até o Código Civil, um outro, a monarquia Franca, e trabalhos mais pormenorizados sobre a Itália, a Bélgica e a Inglaterra, na Idade Média. E eis tudo. O período feudal é completamente esquecido.

É igualmente inútil procurar nesta obra um estudo sobre a mulher nas sociedades célticas, onde, estamos certos, ela tinha um papel contrastante com o confinamento a que estava sujeita nas sociedades do tipo clássico greco-romano. No que se refere aos celtas, para os historiadores de nossa época, o homem e a mulher se encontravam num pé de igualdade completa, tanto que não se ressalta nunca nem um nem outro. Aos celtas, de uma vez por todas, foi recusado o direito de existir.

No entanto, impõe-se uma imagem, à qual já tive ocasião de me referir (1). Não é, em realidade, surpreendente pensar que nos tempos feudais a rainha é coroada como o rei, geralmente em Reims, às vezes em outra catedral do domínio real (em Sens, como Margarida de Provence), mas sempre pelas mãos do arcebispo de Reims? Dito de outra forma, atribuía-se à coroação da rainha tanto valor quanto à do rei. Ora, a última rainha a ser coroada foi Maria de Medicis; ela o foi, aliás, tardiamente, em 1610, na véspera do assassinato de seu marido, Henrique IV; a cerimônia ocorreu em Paris, segundo um costume consagrado nos séculos anteriores (atingir Reims representava então um feito militar por causa das guerras anglo-francesas). E, além disso, desde os tempos medievais (o termo é tomado aqui em oposição a tempos feudais), a coroação da rainha tinha-se tornado menos importante que a do rei; numa época em que a guerra se alastrava pela França de forma endêmica (a famosa Guerra dos Cem Anos), as necessidades militares começaram a ter primazia entre todas as preocupações, por ser o rei, antes de tudo, o “chefe da guerra”. Tanto assim é que, no século XVII, a rainha desaparece literalmente da cena em proveito da favorita. Basta lembrar qual foi o destino de Maria Teresa ou o de Maria Leszcynska para se convencer. E quando a última rainha quis retomar uma parte deste poder, lhe foi dada ocasião de se arrepender, pois ela se chamava Maria Antonieta (é justo lembrar que a última favorita, a Du Barry, reuniu-se à última rainha no cadafalso). Continuar lendo

XVIII OITAVO DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES: A CURA DO PARALÍTICO E A CAUSA DAS TRIBULAÇÕES

Curacin_del_paraltico_Murillo_1670Confide, fili: remittuntur tibi peccata tua — “Filho, tem confiança, perdoados te são os pecados” (Matth. 9, 2).

Sumário. De ordinário, a causa de todas as tribulações, e especialmente das enfermidades, são os pecados. Eis porque o Senhor, como refere o Evangelho, antes de restituir ao paralítico a saúde do corpo, lhe restituiu a da alma, concedendo-lhe o perdão dos pecados. Portanto, se quisermos que Deus nos livre das aflições que nos oprimem, arranquemos primeiro a raiz, isto é, o pecado. Aconselhemo-lo igualmente a nosso próximo em suas tribulações.

*************************

I. Quando alguém ofende a Deus, provoca todas as criaturas a castigarem-no, e especialmente aqueles de que abusa para ofender o Criador. Sucede então o mesmo, diz Santo Anselmo, que quando um escravo se revolta contra seu senhor: excita a indignação não só de seu senhor, como também de toda a família. – Deus, porém, sendo um Senhor de infinita misericórdia, contém as criaturas afim de que não castiguem o réu; mas quando vê que este não faz caso das ameaças, serve-se delas então para se desafrontar. De modo que, de ordinário, a causa de todas as tribulações e especialmente das enfermidades corporais, são os pecados: Qui delinquit, incidet in manus medici (1) — “Aquele que peca, virá a cair nas mãos do médico”.

Esta verdade nos é revelada com bastante clareza no fato do Evangelho de hoje. Um paralítico pediu a Jesus Cristo a saúde, e Jesus, antes de curar corporalmente, curou-lhe a alma dizendo: “Filho, tem confiança; perdoados te são os pecados.” Porque é que Jesus procedeu assim? Responde Santo Tomás: Porque o Senhor, como bom médico, quis primeiro arrancar a causa da enfermidade que eram os pecados, e depois tirar a própria enfermidade, que era efeito deles. É este também o motivo porque o Senhor, depois de curar aquele outro enfermo na piscina de Bethsaida, o qual estivera doente por trinta e oito anos, o exortou a não pecar mais, afim de que não lhe acontecesse coisa pior. Ne deterius tibi aliquid contingat. (2)

Escuta, pois, meu irmão, o belo conselho que te dá o Espírito Santo, para quando tu também estiveres oprimido pelas tribulações: “Filho, em tua enfermidade (e o mesmo se diga de qualquer tribulação) faze oração ao Senhor e Ele te curará. Aparta-te do pecado, endireita as tuas ações, purifica o teu coração de todo o delito,… e depois dá lugar ao médico.” (3) Continuar lendo

PAZ DO JUSTO NA HORA DA MORTE – PONTO III

Resultado de imagem para morte do justoPor que há de temer a morte quem espera depois da mesma ser coroado no céu? — disse São Cipriano. — Como pode temê-la quem sabe que, morrendo na graça, alcançará seu corpo a imortalidade? (1Cor 15,33).

Para aquele que ama a Deus e deseja vê-lo — nos diz Santo Agostinho, — pena é a vida e alegria é a morte. São Tomás de Vilanova disse também:

“Se a morte acha o homem dormindo, vem como ladrão, despoja- o, mata-o e o lança no abismo do inferno; mas, se o encontra vigilante, saúda-o como enviada de Deus, dizendo: O Senhor te espera para as bodas; vem, que te conduzirei ao reino bem-aventurado a que aspirais”.

Com quanta alegria espera a morte aquele que se acha na graça de Deus, a fim de poder ver a Jesus e ouvi-lo dizer:

“Muito bem, servo bom e fiel, porque foste fiel no pouco, te porei sobre muito” (Mt 25,21)

Que consolação não darão então as penitências, as orações, o desprendimento dos bens terrenos e tudo que se fez por Deus! Aquele que amou a Deus gozará então o fruto de suas boas obras (Is 3,10). Persuadido desta verdade, o Padre Hipólito Durazzo, da Companhia de Jesus, jamais se entristecia, mas se alegrava quando morria algum religioso dando sinais de salvação.

“Não seria absurdo — disse São Crisóstomo — crer na glória eterna, e lastimar aquele que para lá se dirige?”

Especial consolação darão nesse momento as homenagens prestadas à Mãe de Deus, os rosários e as visitas, os jejuns praticados aos sábados em honra da Virgem, o haver pertencido às Congregações Marianas… Virgo fidelis chamamos a Maria e, na verdade, fidelíssima se mostra para consolar a seus devotos em sua última hora! Um moribundo, que em vida fora servo devotíssimo da Virgem, contou ao Padre Binetti: Continuar lendo

MARIA SANTÍSSIMA SUAVIZA A MORTE DOS SEUS DEVOTOS

morteNon tanget illos tormentum mortis — “Não os tocará o tormento da morte” (Sap. 3, 1).

Sumário. Desde o grande dia em que a Santíssima Virgem teve a felicidade e ao mesmo tempo a dor de assistir no Calvário à morte de Jesus Cristo, tornou-se protetora especial dos pobres moribundos. Quando a divina Mãe vê um seu devoto nestes extremos, ordena a São Miguel que o defenda contra os assaltos do demônio e ela mesma também vai assisti-lo e socorrê-lo. Avivemos, pois, a nossa devoção para com Maria, e, ainda que pecadores, esperemos que também nós havemos de gozar da sua proteção na hora de nossa morte. Oh! Que doce consolação morrer entre os braços de Maria!

**************************

I. Os amigos do mundo não deixam o amigo enquanto está em prosperidade; mas se vem a cair em alguma desgraça, e especialmente à hora da morte, logo os amigos o deixam. Não faz assim Maria com os seus devotos. Nas suas angústias, e em particular nas da morte, que são as maiores que se pode ter na terra, nossa boa Mãe não sabe desamparar os seus fiéis servos. Assim como ela é nossa vida no tempo de nosso desterro, assim também quer ser doçura na hora suprema, alcançando para nós uma morte doce e preciosa, pelo que a Igreja lhe conferiu o belo título de Auxilio dos agonizantes.

Desde o grande dia em que Maria teve a felicidade, e ao mesmo tempo a dor de assistir à morte de Jesus seu Filho, que foi a cabeça dos predestinados, adquiriu a graça de assistir também a todos os predestinados na sua morte. E por isso, como diz São Boaventura, ela manda que o arcanjo São Miguel vá com outros espíritos celestiais defender seus filhos moribundos das tentações do demônio e receber suas almas afim de as levar ao tribunal divino.

E não contente com isso, nossa piedosa Rainha, como prometeu à Santa Brígida, virá ela mesma e muitas vezes visivelmente assistir a todos os devotos que a serviram fielmente e se-lhe recomendaram continuamente. Assim, efetivamente, lemos que ela apareceu à Santa Clara de Montefalco, à Santa Teresa de Jesus, a São Pedro de Alcântara e a centenas e milhares de outros. Ó Deus! Que consolação será para um filho de Maria, quando no supremo momento de sua vida, em que se há de decidir a causa de sua eterna salvação, vir ao pé de si a Rainha do céu, para o defender dos assaltos dos demônios e lhe prometer a sua proteção! Continuar lendo

O GRANDE LIVRO QUE É O CRUCIFIXO

CrucifixoNon iudicavi me scire aliquid inter vos, nisi Iesum Christum, et hunc crucifixum — “Não entendi saber entre vós coisa alguma, senão a Jesus Cristo, e este crucificado” (I Cor. 2, 2).

Sumário. O lenho da cruz serviu a Jesus Cristo, não só de patíbulo, para operar o nosso resgate; mas também de cátedra para nos ensinar as mais sublimes virtudes. À imitação dos santos, procuremos estudar a miúde o grande livro do Crucifixo e nós também nele aprenderemos como devemos praticar a obediência aos preceitos divinos, o amor para com o próximo, a paciência nas adversidades. Nele aprenderemos sobretudo como devemos odiar o pecado e amar a Deus, aceitando por seu amor trabalhos, tribulações e a própria morte.

********************

I. Dizia o Apóstolo São Paulo que ele não queria saber outra coisa senão Jesus, e Jesus crucificado, isto é, o amor que Ele nos testemunhou sobre a cruz. E na verdade, em que livros poderemos melhor estudar a ciência dos santos, que é a ciência de amar a Deus, senão em Jesus crucificado? O grande servo de Deus Frei Bernardo de Corlione, capuchinho, não sabendo ler, queriam os religiosos, seus irmãos, ensiná-lo. Foi primeiro tomar conselho com o Crucifixo; mas Jesus lhe respondeu da cruz: “Que, livros! Que, leituras! Eu é que sou o teu livro, no qual podes sempre ler o amor que tenho tido.” Oh, que grande assunto para meditação por toda a vida e por toda a eternidade: um Deus morto por nosso amor! Um Deus morto por nosso amor! Oh, que grande assunto!

Um dia Santo Tomás de Aquino visitando a São Boaventura perguntou-lhe de que livro tinha feito mais uso para consignar em suas obras tão belos conceitos. São Boaventura mostrou-lhe a imagem de Jesus crucificado, toda enegrecida pelos beijos que lhe dera, dizendo: “Eis aqui o livro que me fornece tudo que escrevo; É ele que me ensinou o pouco que sei.” Jesus crucificado foi também o livro predileto de São Filipe Benicio, que teve a fortuna de exalar a sua alma bendita enquanto beijava aquelas chagas sagradas. Numa palavra, foi no estudo do crucifixo que os santos aprenderam a arte de amar a Deus e de, por amor d’Ele, sofrer as tribulações, os tormentos, os martírios e a morte mais cruel.

Tinha, pois, Santo Agostinho razão para escrever que o lenho da cruz serviu a Jesus Cristo, não só de patíbulo, para nele operar a nossa redenção, mas também de cátedra para nos ensinar as mais sublimes virtudes. — Por isto, o Santo, arrebatado pelo amor à vista de Nosso Senhor coberto de chagas sobre a cruz, fazia esta terna oração: Gravai, ó meu amantíssimo Salvador, gravai as vossas chagas em meu coração, afim de que nelas leia eu sempre a vossa dor e o vosso amor. Sim, porque, tendo diante dos olhos a grande dor, que Vós, meu Deus, padecestes por mim, sofrerei em paz todas as penas que me possam acontecer; e à vista do amor que me tendes patenteado na cruz, não amarei nem poderei amar senão a Vós. Continuar lendo

CONVERTIDO APESAR DE NÃO QUERER

Resultado de imagem para virgem santíssimaFoi  no natal de 1847. Um sacerdote foi chamado para um moribundo. O homem era conhecido como e inimigo dos padres e da religião. O ministro de Deus entrou no quarto e dirigiu-se direitinho ao doente. Não teve tempo de perguntar-lhe como estava passando, pois o enfermo se pôs a praguejar e a vomitar blasfêmias horríveis. E não foi possível acalma-lo. O Padre saiu consternado. Foi à igreja pedir à Mãe de Deus coragem para tentar nova visita.

No dia seguinte voltou à casa do doente. Ouviu as mesmas palavras. E vendo que o homem parecia procurar alguma coisa ao redor da cama, perguntou-lhe:

–   Amigo, estas querendo alguma coisa?

–    Procuro, sim, foi a resposta, a minha bengala para quebrá-la em suas costas.

E furioso por não achá-la, acrescentou:

–   Não tenho outra coisa, tome isto.

E atirou-lhe um escarro no rosto.

O padre retirou-se, horrorizado.

Numa reunião, que houve à noite na matriz, pediu o sacerdote orações especiais em honra do Puríssimo Coração de Maria, pela conversão do pecador. Todos rezavam com fervor e piedade.

Ao sair da igreja, o Vigário foi de novo ver o doente, confiando no poder e na bondade da Virgem Santa.

E desta vez foi acolhido bem. O moribundo estava calmo e resignado.

–   Veio confessar-me, Sr Padre?

–   Sim, meu amigo: acabamos de invocar a Maria Santíssima. Estou vendo que nossa oração foi atendida.

De fato confessou-se; comungou no dia seguinte e, quatro dias depois de ter recebido a extrema-unção, entregou sua alma suavemente a Deus.

Não quis converter-se, mas Nossa Senhora venceu.

Como Maria Santíssima é boa! – Frei Cancio Berri C. F. M

TRIUNFA O AMOR

coroaCum dilexisset suos qui erant in mundo, in finem dilexit eos — “Como tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim” (Io. 13, 1).

Sumário. Posto que o Senhor é todo-poderoso, pode-se todavia dizer que foi vencido pelo amor. O amor levou-O a não só morrer por nós, pregado num patíbulo infame, como a instituir ainda o Santíssimo Sacramento, onde se dá a cada um sem reserva, sem interesse próprio e sempre. Mas se um Deus se dá a nós de tal modo, é de toda a justiça que nós também lhe façamos semelhante oferta; protestando que queremos servi-Lo em todas as coisas e sempre, sem aspirarmos à recompensa e unicamente para Lhe agradarmos e Lhe darmos gosto no tempo e na eternidade.

***************

I. Nosso Deus é todo-poderoso: quem O poderá jamais vencer e subjugar? Todavia, diz São Bernardo, foi vencido e subjugado pelo seu amor para com os homens: Triumphat de Deo amor. Com efeito, o amor levou-O, não só a morrer condenado a um patíbulo infame; mas ainda a instituir o Santíssimo Sacramento da Eucaristia, no qual se dá a nós sem reserva, sem interesse próprio e sempre.

Sem reserva: Totum tibi dedit, nihil sibi reliquit. Deu-se todo, não se reservou nada — diz São Crisóstomo. E São Francisco de Sales acrescenta: “Se um príncipe enviasse a um pobre algumas iguarias de sua mesa, não haveria nisto um sinal bem distinto de afeição? Que se diria, se lhe enviasse um banquete completo? Que seria enfim, se lhe desse para sustento alguma coisa de sua própria substância? Ora, Jesus, na santa comunhão, nos dá para sustento, não só uma parte de sua substância, mas o seu corpo inteiro: Accipite et comedite: hoc est corpus meum (1) — “Tomai e comei: isto é o meu corpo”. E com o corpo dá-nos também a sua alma e a sua divindade, de modo que, na palavra do Concilio de Trento, Jesus neste dom derramou todos os tesouros de seu amor para com os homens.

Nem foi Jesus levado à tamanha liberalidade por qualquer interesse próprio; porquanto, como observa São Paulo, instituiu este sacramento na mesma noite em que foi entregue: In qua nocte tradebatur (2), portanto, no mesmo tempo que os homens preparavam os açoites, os espinhos e a cruz para o fazerem morrer. Instituiu-o, além disso, sabendo a que insultos iria expô-lo este seu invento amoroso; pois que já previa que a maior parte dos homens não O quereriam reconhecer neste grande sacramento e que mesmo os que reconhecessem a sua divina presença pagar-lhe-iam o amor com irreverências e sacrilégios. Continuar lendo

PAZ DO JUSTO NA HORA DA MORTE – PONTO II

Resultado de imagem para morte do justo “As almas dos justos estão nas aos Deus e não os tocará o tormento da morte. Pareceu, aos olhos dos insensatos, que morriam, mas elas estão na paz” (Sb 3,1)

Parece aos olhos dos insensatos que os servos de Deus morrem na aflição e contra sua vontade, do mesmo modo como os mundanos. Mas não é assim, porque Deus bem sabe consolar os seus filhos no derradeiro transe, e comunicar-lhes, mesmo entre as dores da morte, maravilhosa doçura, como antecipado sabor da glória que brevemente lhes dá de outorgar. Assim como os que morrem em pecado começam já a sentir no leito mortuário algo das penas do inferno, pelo remorso, pelo terror e pelo desespero, os justos, ao contrário, com seus atos frequentíssimos de amor a Deus, seus desejos e esperanças de gozar a presença do Senhor, já antes de morrer começam a desfrutar aquela santa paz que depois gozarão plenamente no céu. A morte dos Santos não é castigo, mas sim recompensa.

Quando dá o sono a seus amados, eis aqui a herança do Senhor (Sl 126,2-3). A morte daquele que ama a Deus não é morte, mas sono; de sorte que bem poderá exclamar:

“Dormirei e repousarei na paz do Senhor” (Sl 4,8)

O Padre Soares morreu em tão doce paz, que disse ao expirar:

“Nunca pude imaginar que a morte me trouxesse tal suavidade”!

O Cardeal Barônio foi admoestado por seu médico que não pensasse tanto na morte; ao que ele respondeu:

“Por que não? Acaso hei de temê-la? Não a receio; ao contrário, amo-a”

Segundo refere Santero, o Cardeal Ruffens, preparando-se para morrer pela fé, mandou que lhe trouxessem o seu melhor traje, dizendo que ia às bodas. Quando avistou o patíbulo, atirou para longe o báculo em que se apoiava, e exclamou: Eia, meus pés, caminhai depressa, que o paraíso está perto. Antes de morrer, entoou o “Te Deum” para render graças a Deus de o fazer mártir da fé, e, cheio de alegria, ofereceu a cabeça ao verdugo. São Francisco de Assis cantava na hora da morte e convidou a que o acompanhassem os demais religiosos presentes. Continuar lendo

MORTE CONTINUA NO INFERNO

Picture-of-HellSicut oves in inferno positi sunt; mors depascet eos — “Como ovelhas são postos no inferno; e eles serão pasto na morte” (Ps. 48, 15).

Sumário. O que os pecadores mais receiam na terra é a morte, mas no inferno será a morte o que mais desejarão e nunca obterão. Ali a morte fará seu repasto nos condenados; mata-os a todos os instantes, mas deixa-lhes a vida para continuar eternamente a infligir-lhes o mesmo tormento. Se quisermos evitar tamanha desgraça, lembremo-nos freqüentes vezes da eternidade no tempo de vida que nos resta, e meditemos nestas duas palavras: Sempre! Nunca! Quantos grandes pecadores se converteram por meio desta meditação e são agora grandes Santos no céu!

***********************

I. Nesta vida a morte é para os pecadores a coisa mais temida; mas no inferno será a mais desejada. “Eles procurarão a morte”, diz São João, “e não a encontrarão; desejarão morrer, e a morte fugirá deles.” (1) Por isso escreve São Jerônimo: “Ó morte, quão doce serias para aqueles que outrora a acharam amaríssima!” Diz Davi que a morte fará o seu repasto nos condenados: Mors depascet eos. Destas palavras São Bernardo dá a seguinte explicação: A ovelha, quando anda pastando, come apenas a verdura da erva, deixando as raízes; é assim que a morte trata os condenados: mata-os a todos os instantes, mas deixa-lhes a vida para continuar eternamente a matá-los. De sorte que, conclui São Gregório, o condenado morre a todos os momentos sem nunca morrer: Flammis ultricibus traditus, semper morietur.

Quando alguém agoniza no meio de sofrimentos, todos têm compaixão dele. Se ao menos o condenado tivesse uma pessoa que se compadecesse! Mas não; o miserável morre de dor a todos os instantes e nunca haverá quem tenha pena dele. Encerrado numa sombria prisão, o imperador Zenon gritava: Abri por piedade! Como ninguém o atendesse, acharam-no morto de desespero, havendo devorado os próprios braços. Os condenados gritam do fundo do inferno, diz São Cirilo de Alexandria, mas ninguém os irá libertar, ninguém deles se compadecerá. Nemo eripit, nemo compatitur!

E quanto tempo durará este misérrimo estado? Sempre, sempre! Lê-se nos Exercícios espirituais do Padre Segneri que um dia, em Roma, se perguntou ao demônio, na pessoa de um possesso, quanto tempo devia ficar no inferno. Ao que o demônio respondeu com raiva, batendo com a mão numa cadeira: Sempre! Sempre! O espanto foi tão grande, que muitos moços do Seminário Romano que estavam presentes fizeram logo confissão geral e mudaram de vida, feridos por este terrível sermão em duas palavras: Sempre! Sempre! Continuar lendo

AI DAQUELE QUE COMEÇA

Resultado de imagem para confissão mal feitaDiscípulo — Padre, se é assim tão fácil encontrar quem se deixe enganar pelo demônio e se cala, renovando o sacrilégio na confissão por quê é que os sacerdotes e os confessores não indagam, não interrogam os penitentes para impedir as confissões mal feitas?
Mestre — Coitados dos sacerdotes e dos confessores! Infelizmente eles sabem e vêm que algumas almas deixam muito a desejar, mas em geral receiam ser indiscretos interrogando e esclarecendo certas coisas. Até pelo contrário, com certas pessoas, não ousamos, parece-nos imprudência interrogar. Um pai ou uma mãe gostam de fazer sempre bom juízo dos seus filhos, e ficam penalizados quando têm que duvidar da sua conduta, da sua sinceridade, da sua inocência. Do mesmo modo sente o pobre sacerdote no que diz respeito aos próprios filhos espirituais e penitentes.
D. — E então?
M. — E então, continua-se em tal vida até que Deus intervenha com a sua mão providencial. Eis porque por ocasião dos Exercícios Espirituais, das Missões, da Páscoa e de outras tantas festividades do mesmo gênero encontram-se muitas almas, as quais, tendo tido a desgraça enorme de calar uma vez certos pecados na confissão e continuaram depois com sacrilégios durante anos e anos até o dia em que, tocados por graça especial, podem finalmente abrir os olhos e tranqüilizar a consciência por tanto tempo torturada pelo remorso.
Pregavam-se os Exercícios em uma paróquia do Piemonte. Havia já alguns dias que tinham começado as confissões e desde o princípio eu notara uma pessoa de aspecto triste e indizivelmente constrangida que rondava o confessionário. Não fazia, porém, muito caso disso, quando eis que uma noite ela caiu aos meus pés e disse:
— Padre, ajudai-me; eu sou uma infeliz. Há quinze anos que eu me confesso mal; só fui capaz de cometer sacrilégios… e desatou em pranto.

— Pois bem, cria coragem, eu respondi, Deus será misericordioso; para a senhora também Jesus será infinitamente bom. Diga-me: quantos anos tem? Como é que enveredou por esse caminho?

— Tenho vinte e sete anos; quando tinha doze apenas, por causa de uma curiosidade ilícita eu cometi um pecado que não ousei confessar. Com tal sacrilégio, aproximei-me da mesa da Comunhão e, desde aquele dia até hoje os pecados e sacrilégios sucederam-se uns aos outros. Rezei muito, chorei muito, fiz romarias mas tudo em vão! Confessava-me todos os meses e até com mais freqüência por ocasião dos Exercícios Espirituais; repetia as confissões gerais mas esses pecados eu sempre os escondi, por pura vergonha.

— E a senhora estava satisfeita com as suas Confissões: Comungava tranquilamente?
— Oh, Padre! se soubésseis como os remorsos amargos atormentavam o meu coração, cravando-se nele como espinhos agudos!
— Mas então por quê continuava sempre do mesmo modo?
—Porque fui uma tola, eis tudo… Um medo indizível das reprimendas do confessor fechava-me a boca e um exagerado respeito humano das minhas companheiras arrastava-me para o Comunhão nesse estado.
— Há quanto tempo confessou-se pela ultima vez?
— Ah! Padre! confessei-me já três vezes durante esta Missão, com três confessores diferentes, sempre com o firme propósito de acabar com isto de uma vez por todas e dizer tudo. Mas, chegando ao ponto terrível, sentia um nó cruel que me apertava a garganta e assim calava-me.
— E agora, como conseguiu manifestar-se?
— Padre, o vosso sermão de hoje sobre a necessidade absoluta da confissão bem feita, aquelas palavras tantas vezes repetidas “experimentem e verão o quanto Jesus é bom”, comoveram-me e foi então que decidi falar, custasse o que custasse.

Continuar lendo

VANTAGENS DAS TENTAÇÕES

Resultado de imagem para bem e malFidelis Deus est, qui non patietur vos tentari supra id quod potestis; sed faciet etiam cum tentatione proventum — “Deus é fiel, e não permitirá sejais tentados mais do que podem as vossas forças; antes fará que tireis proveito da tentação” (I Cor. 10, 13).

Sumário. É, sobretudo, por três motivos que o Senhor permite que as suas mais queridas almas sejam mais freqüente e fortemente tentadas: para as conservar na humildade, para as desapegar da terra e para as enriquecer de merecimentos. Cada tentação vencida é uma pedra preciosa engastada em nossa coroa celestial. Nem por isso devemos desejar as tentações; mas quando o demônio nos assalta, sem que lhe tenhamos dado ocasião, entreguemo-nos a Deus e não temamos; pois, se Ele nos lança ao combate, dar-nos-á também com a tentação a força para resistir.

**********************

I. Para as almas que amam a Jesus Cristo não há trabalho maior que as tentações; porquanto todos os outros males as levam a unir-se mais a Deus, aceitando-os com resignação, ao passo que as tentações as levam a separar-se dele. — Saibamos, porém, que muito embora todas as tentações que induzem ao mal não venham nunca de Deus, mas do demônio ou de nossas más inclinações, todavia permite às vezes o Senhor, que as suas mais queridas almas sejam mais tentadas.

E permite-o por vários motivos. Primeiramente, afim de que pelas tentações conheçam mais claramente a sua fraqueza. Quando uma alma se acha favorecida de consolações divinas, julga-se apta para sustentar qualquer assalto e para executar qualquer empresa. Mas quando se sente fortemente tentada e se vê à borda do precipício, então é que conhece melhor a sua miséria e a sua impotência para resistir, se Deus a não socorresse.

Mais: as tentações desprendem a alma do mundo e fazem-na desejar a morte, para se ver livre de tantos perigos de ofender a Deus. Assim aconteceu a São Paulo, que, sendo assaltado por uma tentação sensual, afim de que se não vangloriasse de suas revelações, exclamou: Infelix ego homo! Quis me liberabit de corpore mortis huius? (1) — “Infeliz homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Continuar lendo

PAZ DO JUSTO NA HORA DA MORTE – PONTO I

Resultado de imagem para morte do justoJustorum animae in manu Dei sunt; non tanget illos tormentum mortis; visii sunt oculis insipientium mori, illi autem sunt in pace – “As almas dos justos estão na mão de Deus e não os tocará o tormento da morte. Pareceu aos olhos dos insensatos que morriam; mas eles estão em paz” (Sb 3, 1)

Justorum animae in manu Dei sunt. Se Deus tem em suas mãos as almas dos justos: quem é que poderá lhas arrebatar? Certo é que o inferno não deixa de tentar e perseguir os próprios Santos na hora da morte, mas Deus, — diz Santo Ambrósio, — não cessa de assisti-los, aumentando seu socorro à medida em que cresce o perigo de seus servos fiéis. O servo de Eliseu ficou consternado quando viu a cidade cercada de inimigos. Mas o Santo animou-o, dizendo: “Não temas, porque há mais gente conosco que da parte deles” (4Rs 6,16), e em seguida mostrou-lhe um exército de anjos enviados por Deus para a sua defesa. O demônio não deixará de tentar o moribundo, mas acudirá também o Anjo da Guarda para confortá-lo; virão os santos protetores; virá São Miguel, destinado por Deus para a defesa dos servos fiéis, no combate derradeiro; virá a Virgem Santíssima, e acolhendo sob o seu manto quem foi seu devoto, derrotará os inimigos; virá Jesus Cristo mesmo a livrar das tentações essa ovelha inocente ou penitente, cuja salvação lhe custou a vida. Dar-lhe-á a esperança e a força necessária para vencer nessa batalha, e a alma, cheia de valor, exclamará:

“O Senhor se fez meu auxiliador” (Sl 29,11).

“O senhor é a minha luz e a minha salvação: que tenho a recear?” (Sl 26,1)

Deus é mais solícito para salvar-nos do que o demônio para perder-nos; porque Deus nos tem mais amor que aborrecimento nos tem o demônio. Deus é fiel — disse o Apóstolo, e não permite que sejamos tentados além das nossas forças (1Cor 10,13). Dir-me-eis que muitos santos morreram com receio da sua salvação. Respondo que são pouquíssimos os exemplos de pessoas que, depois de uma vida boa, tenham morrido com esse temor. Vicente de Beauvais diz que o Senhor permite, às vezes, que isto ocorra a alguns justos, a fim de, na hora da morte, purificá-los de certas faltas leves. Por outra parte, lemos que quase todos os servos de Deus morreram com o sorriso nos lábios. Todos tememos na morte o juízo de Deus; mas, assim como os pecadores passam desse temor ao horrendo desespero, os justos passam do temor à esperança. Continuar lendo

DESPREZO DO MUNDO COM O PENSAMENTO DA MORTE

tristeza4Qui utuntur hoc mundo, tamquam non utantur; praeterit enim figura huius mundi – “Os que usam deste mundo, sejam como se não usassem; porque a figura deste mundo passa” (I Cor. 7, 31).

Sumário. A sombra sinistra da morte escurece o brilho de todos os cetros e coroas; faz-nos compreender que o que o mundo estima não é senão fumaça, lodo e miséria. Com efeito, para que servem as riquezas, as dignidades e as honras, já que depois da morte não nos restará nada senão um caixão, dentro do qual nosso corpo se corromperá? Para que serve a beleza e a saúde do corpo, já que afinal não restará nada senão um punhado de pó nojento e alguns ossos descarnados? Nossas obras somente acompanhar-nos-ão para a eternidade. Todavia quão poucos são os que procuram fazer provisão de boas obras?

***********************

I. O pensamento da vaidade do mundo e que tudo o que o mundo estima não é senão ilusão e engano fez muitas almas resolverem a dar-se inteiramente a Deus. Quid prodest homini, si mundum universum lucretur? (1) – De que servirá ganhar o mundo inteiro a quem tenha perdido a alma para sempre? Penetrados desta grande máxima do Evangelho, quantos jovens se resolveram a deixar parentes, pátria, riquezas, honras, mesmo coroas, para encerrar-se num convento, ou ocultar-se num deserto, afim de só pensarem em Deus! – O dia da morte é chamado dia de perdição: Iuxta est dies perditionis (2). Dia de perdição, sim, porque todos os bens que possamos adquirir nesta terra teremos de deixá-los todos no dia da morte. Pelo que Santo Ambrósio nota com muita sabedoria que erradamente chamamos nossos os bens terrestres, já que não os podemos levar conosco para o outro mundo onde teremos de ficar eternamente. Tão somente as boas obras nos acompanharão e nos consolarão na eternidade.

Todos os tesouros terrenos, as dignidades mais altas, a prata, o ouro, as pedras mais preciosas, perdem o seu brilho quando vistos lá do leito da morte. A sombra sinistra da morte escurece até os cetros e as coroas, e faz-nos compreender que tudo quanto o mundo estima não é senão fumaça, lodo, vaidade e miséria – Com efeito, de que servirão na morte todas as riquezas amontoadas, pois que então nada mais teremos do que um caixão no qual nosso corpo, quando dele nada restará senão um punhado de pó nojento e alguns ossos descarnados?

Que é, portanto, a vida do homem sobre esta terra? Eis como nô-la descreve São Thiago: Vapor est ad modicum parens, et deinceps exterminabitur (3) – “É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanecerá” – Hoje tal personagem é estimado, temido, elogiado; amanhã será desprezado, criticado e amaldiçoado: Vidi impium superexaltatumet transivi, et ecce non erat(4) – “Vi o ímpio exaltado… e passei, e eis que não mais existia”. Não mora mais na sua fazenda, no seu palácio luxuoso que tinha construído. Onde é que está? Na sepultura, reduzido a pó. Continuar lendo