BREVE CRÔNICA DA OCUPAÇÃO NEO-MODERNISTA NA IGREJA CATÓLICA – PARTE 3

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TERCEIRA PARTE

A CONDENAÇÃO OFICIAL DA NOVA TEOLOGlA  

O Papa Pio XII condena a nova teologia 

O cardeal Eugenio Pacelli, eleito Soberano Pontífice em 1939 com o nome de Pio XII, perfeitamente consciente das consequências letais de uma tomada de poder na Igreja pelos novos teólogos, interveio resolutamente para condenar em nome da Igreja a nova teologia e seus propagadores.

Num discurso pronunciado em 17 de setembro de 1946 no Capítulo Geral dos Jesuítas, o Papa já tinha alertado os Padres capitulares contra uma “nova teologia que evolui juntamente com a evolução de todas as coisas, semper itura, numquam perventura, “sempre a caminho (para a verdade) sem nunca atingi-la”, acrescentando estas palavras proféticas: “Se tal opinião for abraçada, o que será da imutabilidade dos dogmas, o que seria da unidade e da estabilidade da fé?[1]”.

É quase o mesmo discurso que Pio XII dirigirá depois aos padres dominicanos, reunidos também em Capítulo Geral, confirmando como antídoto contra o novo modernismo a obrigação de não se afastar da doutrina de Santo Tomás de Aquino, assim como foi prescrito pelo Canon 1366, parágrafo 2, do Código de Direito Canônico[2].

Mas os efeitos desta denúncia foram praticamente nulos por causa da profundidade da infecção neo-modernista no mundo da intelligentsia católica, a ponto de o Papa decidir intervir de modo oficial e definitivo pela publicação da encíclica Humani generis[3].

Nesta grande encíclica, que pode ser considerada como o terceiro Syllabus contra os erros da época moderna (depois do Syllabus, com a encíclica Quanta cura, do bem aventurado Pio IX, e depois do decreto Lamentabillii com a encíclica Pascendi de São Pio X). O Papa condenava severamente “certas opiniões falsas que ameaçavam arruinar os fundamentos da doutrina católica”, sem nomear explícita e individualmente seus partidários. Continuar lendo

NAVEGANTES E NAUFRAGANTES

Resultado de imagem para naufragosFonte: Capela Santa Maria das Vitórias

Na travessia do mar tempestuoso desta vida há católicos que infelizmente preferem ouvir o canto da Sereia ao canto da Stella Maris, o canto da Senhora Soberana do céu e da terra. Certissimamente vão naufragar porque se recusam a sofrer todas as humilhações que a Providência Divina envia aos eleitos para purificá-los na demanda do reino do céu.

A vida do católico aqui na terra sempre foi e será um esforço constante para não desertar do combate a ser travado sob os estandartes de Cristo Rei contra o reino de Satanás e do Anticristo. É a doutrina exposta e defendida pelos grandes teólogos e mestres da vida espiritual com base na Sagrada Escritura. É a doutrina de Santo Agostinho na monumental Cidade de Deus. Em um regime de cristandade, em um estado confessional católico, onde as autoridades políticas se empenham em organizar a sociedade conforme a lei de Deus, a luta contra os inimigos da salvação pode ser menos renhida, mas, mesmo assim, a vida do católico será sempre uma luta.

Desgraçadamente, a partir do Vaticano II semelhante concepção da vida católica como um combate foi sendo deixada de lado para ser finalmente substituída pelo mito do diálogo. Não o diálogo como sempre o entendeu toda a tradição desde a antiguidade, como, por exemplo, Platão. Não o diálogo como uma investigação de pessoas que, tendo os mesmos princípios e valores, se unem em um esforço comum para chegar à solução de um problema ou sanar uma dúvida que aflige a todos. Mas um diálogo de céticos desesperados e contraditórios que, não vendo sentido em nada, se unem apenas no afã de descobrir uma regra geral de como compartilhar melhor as alegrias e penas de uma vida efêmera. Sinceramente, acho que não há exagero nestas palavras.

Foi assim que deixando de lado o hino Stella Maris, muitos católicos passaram a ouvir e a cantar o canto da Sereia e abraçaram os ídolos dos tempos modernos: democracia, liberdade, igualdade de oportunidades, direitos humanos. E agora vêem-se até defrontados com a necessidade de dialogar sobre questões que a princípio pode causar-lhes alguma repugnância mas terão de engolir se não quiserem receber a pecha de fundamentalistas. Refiro-me aos tópicos constantes da agenda da nova ordem mundial: direitos reprodutivos e sexuais da mulher, aborto, “casamento homossexual”, ideologia do gênero etc. Continuar lendo

O QUARTO MANDAMENTO

Uma desordem total invadiu o nosso século. Em proporções gigantescas e com indomável força ela, dia a dia, conquista os núcleos básicos da comunidade humana.
A característica principal da forma moderna da desordem é a inversão dos valores do convívio humano, que começa cortando os laços que ligam os diversos escalões da hierarquia social e termina no desentendimento total dos homens.
 
Na família, os filhos estão surdos para o timbre da voz paterna. Os pais estupefatos temem os filhos. Temem principalmente perdê-los. Com cabisbaixa fraqueza cedem às suas imposições, para não perderem aqueles que de há muito perderam. Congrega-os o lar apenas por laços de um certo instinto gregário e os interesses monetários dos filhos. Mas o filho já é um estranho na casa.
 
Na escola, a professora condicionada por uma pedagogia que nega a tendência da criança para o mal (tendência que é um claro indício do pecado original) e o valor educativo das punições, docilmente cede a todos os caprichos infantis.
 
Nos ginásios, os adolescentes agrupados na promiscuidade da co-educação, iniciam-se nas “viagens do fumo” e dos tóxicos, preparam-se para o amor nas “inocentes” práticas sexuais, sob os olhares estimulantes e compreensivos dos orientadores educacionais.
 
Nas universidades, os representantes do mais tolo mito do século, o mito do JOVEM, elaboram os programas, impõem e depõem os mestres e dirigentes, sob o pastoral treinamento, nas universidades católicas, de sacerdotes mais imaturos que eles e que os orientam conforme a moral permissiva e a linha subversiva.

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NINGUÉM PODE SERVIR A DOIS SENHORES

Interessante artigo em que o Pe. Jean-Michel Gleize, professor no Seminário Internacional São Pio X (Ecône) da FSSPX, nos mostra porque não se pode chorar sobre o catastrófico texto da Amoris Laetitia se não se chora antes pelo Concílio Vaticano II.

É preocupante constatar que, entre todos aqueles que emitiram algumas reservas sobre a Exortação Apostólica Amoris Laetitia, e cuja oposição ao relativismo moral é suficientemente conhecida, muitos poucos se voltaram às verdadeiras fontes do mal. Quase ninguém nem mesmo colocou em dúvida publicamente os erros graves e contrários a toda Tradição da Igreja presentes, desde então, nos textos do Concílio Vaticano II, erros que hoje encontram seu resultado lógico na Amoris laetitia”.

Fonte: FSSPX México – Tradução: Dominus Est

Em 29 de junho de 2016, quarenta e cinco teólogos de todo o mundo enviaram ao decano do Sacro Colégio, cardeal Angelo Sodano, um estudo crítico da Exortação pós-sinodal Amoris laetitia onde 19 proposições do documento romano são censuradas. O documento conclui assim: “As proposições abaixo censuradas foram condenadas em muitos documentos do Magistério. É necessário e urgente que sua condenação seja repetida pelo Soberano Pontífice  de maneira definitiva e sem possibilidade de apelação, e que seja declarado com autoridade que a Amoris Laetitia não pede que seja criado, nem se considere como verdadeira nenhuma dessas proposições.

Esta confissão é de grande importância.Quarenta e cinco teólogos, na verdade, acabam de reconhecer publicamente os méritos de toda iniciativa empreendida por D. Marcel Lefebvre e a Fraternidade São Pio X, que hoje tem mais de 40 anos. Não podemos deixar de reconhecer a coragem e lucidez que os inspira. Mas também não podemos esquecer que esta iniciativa levou o antigo arcebispo de Dakar a refutar erros que são mais graves do que aqueles que a Amoris laetitia apresenta. A recente Exortação do Papa Francisco autoriza o relativismo moral na ação pastoral da Igreja. Mas essa relativização da moral, tão grave em si mesma, não é mais que uma remota consequência de outro relativismo muito mais profundo, que é de ordem doutrinal. E é precisamente esse relativismo, o centro de todos os ensinamentos do Concílio Vaticano II:

  • o relativismo da nova eclesiologia modernista, conduzindo ao colegialismo e latitudinarianismo ecumênico, com a Constituição Lumen Gentium e o Novo Código de Direito Canônico, publicado em 1983; 
  • relativismo da liberdade religiosa, conduzindo ao indiferentismo dos poderes públicos e da negação do reinado social de Cristo, com a declaração Dignitatis Humanae sobre a liberdade religiosa e a constituição pastoral Gaudium et Spes. 

Os pontos essenciais desse relativismo foram denunciados publicamente por D. Lefebvre e D. Castro Mayer, em uma Carta Aberta dirigida ao Papa João Paulo II no dia 21 de novembro de 1983. Continuar lendo

OS PAPAS E A CONSAGRAÇÃO DA RÚSSIA

Nossa Senhora, na terceira aparição em Fátima, em 13 de julho de 1917, falou pela primeira vez sobre a consagração da Rússia e a comunhão reparadora. Nestes termos ela oferecia o único remédio decisivo e eficaz contra os males do mundo atual:

Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração. Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz. A guerra vai acabar, mas se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior […]. Para a impedir, virei pedir a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja; os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas; por fim, o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-Me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz.

Nossa Senhora retornou anos mais tarde, conforme havia prometido, a fim de pedir a consagração da Rússia. Aconteceu o retorno em 13 de junho de 1929, em Tui, na Espanha, no convento das Irmãs Doroteias, onde Lúcia ingressara:

É chegado o momento em que Deus pede ao Santo Padre fazer, em união com todos os bispos do mundo, a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração, prometendo salvá-la por este meio. São tantas as almas que a Justiça de Deus condena por pecados contra Mim cometidos, que venho pedir reparação; sacrifica-te por esta intenção e ora.

A Santíssima Virgem é clara na indicação de que se não deve consagrar nem o mundo nem outro país qualquer ao Seu Imaculado Coração, mas tão-somente a Rússia.

Não existe outro pedido explícito de consagração nas mensagens de Fátima, Pontevedra e Tui, recebidas entre 1917 e 1929 por Irmã Lúcia, a qual tem absoluta certeza de haver transmitido com fidelidade as palavras de Nossa Senhora. Atesta-o Pe. Alonso, o grande especialista oficial de Fátima:

De fato, Lúcia, em 1917, desconhecia a realidade político-geográfica da Rússia, desconhecia até mesmo o nome do país. Interrogada por seu diretor, o Pe. Gonçalves, para que esclarecesse como chegou ao conhecimento da Rússia ou porque se recordara do nome da Rússia, e para que transmitisse o que Nossa Senhora lhe pedira na aparição de julho, respondeu Lúcia: “Até então, só tinha ouvido falar dos galegos e dos espanhóis, não sabia o nome de nenhum país. Mas o que percebíamos durante as aparições de Nossa Senhora ficava de tal modo gravado em nós que nunca esqueceríamos. Por isso é que eu sei bem, e com certeza, que Nossa Senhora falou expressamente da Rússia em julho de 1917” (Por eso es que yo sé bien, y con certeza, que Nuestra Señora hablo expresamente de Rusia, en julio de 1917)[1]. Continuar lendo

BREVE CRÔNICA DA OCUPAÇÃO NEO-MODERNISTA NA IGREJA CATÓLICA – PARTE 2

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Segunda parte

Os novos modernistas da Nova teologia[1]

Henri de Lubac e os “novos teólogos”

Nos anos 30 e 40, uma nova geração de modernistas entrou em cena. Seus nomes serão muito conhecidos mais tarde, como os dominicanos Marie-Dominique Chenu e Yves Congar, os jesuítas Henri de Lubac, Hans Urs von Balthasar e, em seguida, Karl Rahner, formuladores de uma “nova teologia”, cujas raízes estão fincadas no velho modernismo.

Assim como os “velhos” modernistas, os novos teólogos estavam, eles também, fortemente impregnados de imanentismo, subjetivismo e relativismo, com todas as consequências imagináveis no domínio da dogmática e da moral.

O Padre Henri de Lubac, por exemplo, líder da Nova Teologia e, por isso mesmo, tido como “pai” do Concílio Vaticano II e da nova Igreja conciliar, tinha ele também, assim como seus mestres modernistas, uma noção muito elástica da verdade.

Certamente, nos seus escritos oficiais, Lubac era bastante prudente e cauteloso para não deixar transparecer seu relativismo de fundo, mas nos seus escritos privados manifestava evidentemente com mais liberdade seu pensamento real, sem dissimulá-lo por detrás das habituais elocubrações intelectuais.

Numa carta ao filósofo Maurice Blondel, seu amigo, escrevia ele:

“[…] O número de Recherches de science religieuse recentemente publicado, traz um artigo do Pe. Bouillard [representante da Nova Teologia – Ndr]  que contesta fortemente as idéias do Pe. Garrigou-Lagrange [adversário de Lubac – Ndr] sobre as noções conciliares e suas visões simplistas acerca do absoluto da verdade. Este artigo, eu posso te confidenciar, não foi apenas aprovado, mas desejado por gente de cima[2]”.

Estamos persuadidos de que Lubac não hesitaria em acusar Nosso Senhor mesmo, notoriamente intransigente neste quesito, de “visões simplistas sobre o absoluto da verdade” Continuar lendo

QUANDO O BEM E O MAL SÃO COLOCADOS EM PLANO DE IGUALDADE PERANTE A LEI

Quando o bem e o mal são colocados em plano de igualdade perante a lei, o mal prevalecerá na sociedade civil. Foi isto que o Papa Leão XIII apontou em 1888 na sua encíclica fundamental sobre a verdadeira natureza da liberdade humana

Fonte: Sensus Fidei

Segundo o regime americano da Primeira Emenda constitucional pró-liberdade, o Estado não deve agir em defesa da verdade contra o erro em assuntos de religião ou de Moralidade. A noção moderna (e idiota) de liberdade é que todos têm “o direito ao erro”, até mesmo o direito a defender o assassínio de crianças no útero materno ou o “casamento” de pessoas do mesmo sexo.

-Ah! Mas não quando se trata de dinheiro! O absurdo do nosso regime de liberdade de expressão demonstra-se com um simples exemplo: Alguém que espalhe mentiras sobre o valor de um produto comercial, induzindo as pessoas a gastar alguns dólares a mais, pode ficar sujeito a penas civis e até criminais, inclusive a uma pena de prisão, por defraudar o consumidor. Mas alguém que propague mentiras sobre Deus e a Sua Lei, induzindo as pessoas a abandonar a Fé e a Moral, com consequências eternas infinitamente piores do que a simples perda de algum dinheiro, tem o “direito constitutional” absoluto de o fazer.

Pior ainda: quem interferir com a promulgação de erros mortais para a alma é que se sujeita às penalidades da lei, incluindo a prisão.

Este regime escandaloso é ainda mais ofensivo na Quadra Natalícia. Por exemplo, em Boca Raton, na Flórida, uma estação local de TV relatou que, entre uma árvore de Natal e um presépio, que fazem parte de uma “exposição festiva” em propriedade pública, um adorador de Satanás ergueu um “grande pentagrama em que se lê: ‘Confiamos em Satanás’, ‘Celebremos o Solstício de Inverno’ e ‘Viva Satanás, e não os deuses’.” Continuar lendo

SÓ A RELIGIÃO VERDADEIRA TEM DIREITOS

liberdade de cultos, hoje tão apregoada, foi rotundamente condenada pelo Magistério da Igreja. Numerosos Papas nos advertiram de seus graves perigos, entre eles Leão XIII na encíclica Libertas praestantissimum sobre a liberdade e o liberalismo

Javier Navascués – Adelante la Fe | Traduzido por Frei Zaqueu

Fonte: Sensus Fidei

O liberalismo é uma das ideologias mais deletérias para a religião católica, a única verdadeira, posto que concede os mesmos direitos ao erro que à verdade. Esta perniciosa doutrina está tristemente presente na Igreja carcomendo o reto ensino, sacudindo seus mesmos cimentos e causando um grande dano às almas. Como consequência dela, hoje em dia se nos propõe um herético ecumenismo onde a religião verdadeira e as falsas crenças estão ao mesmo nível.

Se nos convida a não fazer proselitismo da verdade católica em prol de um mortífero ecumenismo casado com a heresia e em conivência com as falsas religiões de Satanás. A liberdade de cultos, hoje tão apregoada, foi rotundamente condenada pelo Magistério da Igreja. Numerosos Papas nos advertiram de seus graves perigos, entre eles Leão XIII na encíclica Libertas praestantissimum sobre a liberdade e o liberalismo.

Borja Ruiz, historiador, tem estudado em profundidade a mencionada encíclica. Seguindo a solidíssima doutrina deste Pontífice, de feliz memória, expõe o daninho que é conceder direitos ao mal e ao erro. Tendo como base um profundo pensamento filosófico e teológico, denuncia o gravíssimo câncer do liberalismo e uma de suas funestas consequências: a liberdade de cultos. Continuar lendo

BREVE CRÔNICA DA OCUPAÇÃO NEO-MODERNISTA NA IGREJA CATÓLICA

Primeira parte

Preâmbulo

Eis que a quatro décadas o mundo católico assiste a uma série aparentemente sem fim de mudanças na Igreja.

Como se estivessem em um estranho espetáculo pirotécnico eclesiástico, os católicos viram numerosas verdades de Fé se desfazerem, umas após as outras, de modo mais ou menos direto, nos fogos de artifício inventados por uma Hierarquia e um clero cada vez mais inspirado pelo aggiornamento conciliar, aberto a todas as correntes de pensamento, e pronto para trocar a verdade revelada pela miragem de um falso ecumenismo e de uma falsa paz mundial.

O mundo católico assistiu, por exemplo, a subversão do Rito Romano da Missa, substituído por um outro – o atual – a tal ponto ambíguo e ecumênico que foi aprovado pelos próprios protestantes, alguns dos quais, aliás, participaram com sugestões na elaboração do novo rito[1]. Em seguida, ocorreram progressivamente as missas-bazar com música de fundo, a introdução da comunhão na mão e o seu cortejo de inevitáveis sacrilégios, o acesso dos membros do sexo frágil no altar na qualidade de “ministras” de eucaristia (ao menos até agora).

Viu pela primeira vez na história um papa – Paulo VI – enviar num gesto eloquente o seu anel, símbolo de sua autoridade pontifical suprema, ao herético, cismático e impenitente arcebispo de Canterbury[2], e convidá-lo a abençoar a multidão e os numerosos cardeais e bispos presentes na Basílica romana de São Paulo Extramuros. 

Há pior. Viu um João Paulo II convidar os representantes das principais religiões falsas do mundo a Assis (primeiro encontro de 1986) para uma reunião de oração com grande auxílio de cachimbos da paz, oferendas de animistas a espíritos ancestrais e budistas incensando uma estátua de Buda colocada sobre o altar principal de uma igreja católica daquela cidade.

Escutou, boquiaberto, o mesmo João Paulo II declarar abertamente aos protestantes e aos “ortodoxos” sua plena disposição para modificar o modo de exercício do Primado papal segundo os seus desejos, o que equivale na prática a esvaziar o sentido do dogma do Primado de Jurisdição, ao renunciar a exercê-lo de fato (cf. Encíclica Ut unum sint).

Viu o cardeal Ratzinger, Prefeito do Santo Ofício, aprovar e assinar um documento da Comissão Teológica Internacional (“O Cristianismo e as religiões”) que nega abertamente o dogma da fé segundo o qual “fora da Igreja não há salvação” (Cf. Concílio Ecumênico do Latrão, IV, Denz. 800), reduzindo-o a uma simples “frase” de “caráter parenético”, ou seja, a uma simples exortação dirigida tão-somente aos católicos… Continuar lendo

NECESSIDADE DA AUTORIDADE

Resultado de imagem para Christian BouchacourtFonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

De acordo com a filosofia política, uma das causas essenciais de qualquer sociedade é a “unidade social”, ou seja, o fato de se ter uma ação comum. Ora, o princípio desta unidade social é a autoridade. Com efeito, um membro de uma sociedade qualquer pode espontaneamente perseguir seus objetivos pessoais. Contudo, se todos fossem deixados à sua própria vontade, não haveria nenhuma ação conjunta.  É próprio da autoridade, ao contrário, determinar a ação comum a qual todos participarão, permitindo aos membros “formar a sociedade”.

A recordação destes princípios nos faz entender que a desintegração da autoridade constitui um problema para uma sociedade. E que isso se torna um drama ainda maior quando o eclipse da autoridade alcança as sociedades que edificam o ser humano, principalmente a família, a Cidade e a Igreja.

Ora, é isto o que infelizmente vivemos hoje. Sofremos a ruína da autoridade, os lideres deixam de mandar, os indivíduos se recusam a obedecer. Na família, os pais renunciam enquanto seus filhos contestam. Nas associações civis, nas empresas, ninguém quer obedecer se não for analisada previamente a ordem dada, enquanto os chefes evitam comandar e “delegam”.”Na cidade, os eleitos estão a mercê dos eleitores, enquanto esses últimos se rebelam a qualquer momento. Continuar lendo

ASSIS, FRUTO DO IMPÉRIO MAÇOM

Conferências de Dom Lefebvre em Barcelona e Madri – Outubro de 1986 

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Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

Ao longo de duas conferências, feitas em Barcelona e Madri na época em que ocorria a primeira reunião de Assis, Dom Lefebvre refez o caminho aberto e seguido pelo liberalismo até a subordinação da Igreja às exigências da Maçonaria.

O liberalismo é um pecado

Não somente o liberalismo é um pecado grave que atinge a honra de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas também uma religião. Morremos do liberalismo e de suas consequências. Já faz dois séculos que ele tem se difundido por toda parte, em nossas escolas, em nossas sociedades. É um veneno que destrói os mandamentos de Deus, tudo o que gera a beleza e a grandeza da civilização cristã.

É bom delimitá-lo, como o fez Leão XIII sobre a Maçonaria, em sua encíclica Humanum genus:

“É preciso arrancar-lhes sua máscara e mostrá-los tais como são, para que os evitemos e evitemos seus erros”.

Acredito que o liberalismo é um fruto da Maçonaria e que ele deve ser desmascarado de modo que compreendam todos os seus perigos.

O liberalismo tem sua deusa: é a liberdade. Na época da Revolução francesa, adorou-se a deusa Razão na catedral Notre-Dame de Paris, ou seja, a liberdade, a liberdade do Homem, esta liberdade que tem sua estátua na entrada de Nova Iorque, que se festejou de um modo inacreditável há pouco tempo. O Homem é livre, enfim ele está liberto de toda lei e, em particular, da lei de Deus. A liberdade é a deusa da religião do liberalismo. Continuar lendo

O DESAPARECIMENTO DOS ADULTOS

Fonte: Modéstia Masculina

Uma sociedade de eternos adolescentes?

Giovanni Cucci S.I.[i]

Continua-se a estar sempre mais atingido pelo nivelamento das gerações que se vê em rapazes e moças, jovens e adultos unidos por uma mesma dinâmica: no modo de vestir, falar, se comportar, mas, sobretudo, nas relações e na afetividade revelam-se muitas vezes as mesmas dificuldades, até o ponto em que se torna difícil entender quem desses é realmente o adulto. Ao mesmo tempo, preocupa a sempre maior difundida fuga da responsabilidade, que leva a procrastinar indefinidamente as escolhas de vida, iludindo-se de ter sempre intactos, diante de si, todas as possibilidades.
Uma pesquisa da Istat[ii], realizada em 2008 (e, por conseguinte, anterior à grave crise que infelizmente levou ao desemprego milhares de jovens e de adultos), revelava que mais de 70% das pessoas com idade entre 19 e 39 anos vivem ainda com os pais. O motivo é também, mas não somente, econômico, já que nessa faixa há pessoas com trabalho estável e uma renda que permitiria viver de maneira independente.
As mesmas pesquisas mostram, além disso, que na Itália, mas também em outros países da Europa, há um aumento preocupante de jovens/adultos que pararam numa espécie de “limbo”, sem escolhas e sem perspectivas. Essa situação abarca uma faixa etária sempre maior, ao ponto de ser agora classificada como categoria sociológica, “a geração nem-nem[iii]. Mas, principalmente, tal condição, não é vista como problemática pela maioria das pessoas: “Há 270 mil jovens entre 15 e 19 anos que não estudam e não trabalham (9%): a maior parte porque não encontra trabalho; 50 mil porque fizeram de sua inatividade uma escolha; há ainda 11 mil que não querem saber de trabalhar ou estudar (“não me interessa”, “não preciso”, dizem). A mesma tendência ocorre nos dados relativos aos jovens entre 25 e 35 anos: um milhão e noventa mil não estudam e não trabalham; ou seja, quase um quarto deles (25%). Um milhão e duzentos mil desses gravitam no desemprego (mas entre estes últimos há quem diga que não procura bem porque está “desanimado” ou porque “de qualquer modo, o emprego não existe mesmo”). Setecentos mil são, ao contrário, os “inativos convictos”: não procuram trabalho e não estão dispostos a procurá-lo […]. Uma pesquisa espanhola recente, assinada pela sociedade Metroscopia, revela que 54% dos jovens da idade dos 18 aos 35 anos declara “não haver nenhum projeto sobre o qual desenvolver o próprio interesse ou os próprios sonhos”[iv].

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OS PAPAS CONCILIARES E A MODERNIDADE

Jornal Si Si No No, Ano XLII, nº10

1º) João XXIII, no discurso de abertura do Concílio, em 11/10/1962, disse: “ferem agora os ouvidos sugestões de pessoas (…) que, nos tempos modernos, só veem prevaricação e ruína; vão repetindo que nossa época, comparada com as passadas, foi piorando (…) A Nós parece ter que dissentir desses profetas de desgraças[1], que anunciam sempre eventos infaustos (…). Sempre a Igreja se opôs aos erros, várias vezes os condenou com máxima severidade. Agora, porém, a Esposa de Cristo prefere usar a medicina da misericórdia em vez da severidade. (…) Não que faltem doutrinas falazes (…), mas hoje em dia parece que os homens estão propensos a condená-las por si mesmos” (Enchiridion Vaticanum, Documenti. Concilio Vaticano II, EDB, Bologna, IX ed., 1971, p.39 e p.47).

Respondemos:

a) Os tempos modernos começam com Descartes para a filosofia, Lutero para a religião e Rousseau para a política, e os seus sistemas estão em ruptura com a Tradição Apostólica, a Patrística, a Escolástica e o dogma católico. De fato, a modernidade é caracterizada pelo subjetivismo. Seja na filosofia: “Penso, logo existo”, que é a via aberta por Descartes ao idealismo para o qual é o sujeito que cria a realidade. Seja em religião, com o livre exame da Bíblia sem a interpretação dos Padres e o Magistério e com a relação direta homem-Deus sem mediadores (Lutero: “sola Scriptura” “solus Christus”). Seja em política, pois o homem não é animal social por natureza, antes é solitário, portanto é ele quem cria a sociedade temporal mediante o “contrato social”.

O subjetivismo da modernidade, unindo-se à doutrina católica, transforma-a, esvazia desde dentro, torna-a um produto do intelecto humano ou do subconsciente e não mais uma Revelação divina real e objetiva a que se tem de assentir.

A afirmação de João XXIII coincide com a essência do modernismo, tal como a descreve São Pio X na Encíclica Pascendi (08/09/1907): o conúbio entre o idealismo filosófico da modernidade e a doutrina católica, que se tornaria, assim, um produto do pensamento ou do sentimento humano.

b) Se “Sempre a Igreja se opôs aos erros, várias vezes os condenou com máxima severidade. Agora, porém, a Esposa de Cristo prefere usar a medicina da misericórdia em vez da severidade”, isso significa que se prefere ir contra a doutrina e a prática constante da Igreja (ver Pio IX em Tuas libenter, 1863). Continuar lendo

A EDUCAÇÃO MODERNA CRIOU ADULTOS QUE SE COMPORTAM COMO BEBÊS

Fonte: Modéstia Masculina

A educação moderna exagerou no culto à autoestima – e produziu adultos que se comportam como crianças. Como enfrentar esse problema é o tema da reportagem a seguir, publicada na revista Época.

Os alunos do 3º ano de uma das melhores escolas de ensino médio dos Estados Unidos, a Wellesley High School, em Massachusetts, estavam reunidos numa tarde ensolarada para o momento mais especial de sua vida escolar: a formatura. Com seus chapéus e becas coloridos e pais orgulhosos na plateia, todos se preparavam para ouvir o discurso do professor de inglês David McCullough Jr. Esperavam, como sempre nessas ocasiões, uma ode a seus feitos acadêmicos, esportivos e sociais. O que ouviram do professor, porém, pode ser resumido em quatro palavras: vocês não são especiais. Elas foram repetidas nove vezes em 13 minutos. “Ao contrário do que seus troféus de futebol e seus boletins sugerem, vocês não são especiais”, disse McCullough logo no começo. “Adultos ocupados mimam vocês, os beijam, os confortam, os ensinam, os treinam, os ouvem, os aconselham, os encorajam, os consolam e os encorajam de novo. (…) Assistimos a todos os seus jogos, seus recitais, suas feiras de ciências. Sorrimos quando vocês entram na sala e nos deliciamos a cada tweet seus. Mas não tenham a ideia errada de que vocês são especiais. Porque vocês não são”.

O que aconteceu nos dias seguintes deixou McCullough atônito. Ao chegar para trabalhar na segunda-feira, notou que havia o dobro da quantidade de e-mails que costumava receber em sua caixa de entrada. Paravam na rua para cumprimentá-lo. Seu telefone não parava de tocar. Dezenas de repórteres de jornais, revistas, TV e rádio queriam entrevistá-lo. Todos queriam saber mais sobre o professor que teve a coragem de esclarecer que seus alunos não eram o centro do universo. Sem querer, ele tocara num tema que a sociedade estava louca para discutir – mas não tinha coragem. Menos de uma semana depois, McCullough fez a primeira aparição na TV. Teve de explicar que não menosprezava seus jovens alunos, mas julgava necessário alertá-los. “Em 26 anos ensinando adolescentes, pude ver como eles crescem cercados por adultos que os tratam como preciosidades”, disse ele à revista Época. “Mas, para se dar bem daqui para a frente, eles precisam saber que agora estão todos na mesma linha, que nenhum é mais importante que o outro”. Continuar lendo

ESCLARECIMENTO SOBRE A “EXTENSÃO” DE FRANCISCO SOBRE A VALIDADE DA CONFISSÃO NA FSSPX

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

Neste dia 21 de novembro, a Santa Sé publicou a Carta Apostólica do Papa Francisco, Misericordia et misera, de 20 de Novembro. No nº 12 deste documento, o Santo Padre estende para além do Ano da Misericórdia a faculdade de confessar concedida aos padres da Fraternidade São Pio X, em 1º de Setembro de 2015:

Ao longo do Ano Jubilar, aos fiéis que por diversas razões frequentam as igrejas atendidas pelos sacerdotes da Fraternidade de São Pio X, concedera a faculdade de receber válida e licitamente a absolvição sacramental de seus pecados. Para o bem pastoral destes fiéis e confiando na boa vontade de seus sacerdotes, afim que a plena comunhão na Igreja Católica possa ser reencontrada com a ajuda de Deus, estabeleço por decisão própria que se estenda esta faculdade para além do período jubilar, até que sejam tomadas novas disposições sobre o assunto, para que a ninguém jamais falte o sinal sacramental da reconciliação através do perdão da Igreja.”

Neste dia 21 de novembro, aniversário da declaração que Dom Marcel Lefebvre fez em 1974, não se pode recordar senão a profissão de fé do fundador da Fraternidade São Pio X: “Com a graça de Deus, o socorro da Virgem Maria, de São José e de São Pio X, estamos convictos de permanecermos fiéis à Igreja Católica e Romana e a todos os sucessores de Pedro, e de sermos os ‘fideles dispensatores mysteriorum Domini Nostri Jesu Christi in Spiritu Sancto” (cf. I Cor. 4, 1 e ss.), fiéis dispensadores dos mistérios de Nosso Senhor Jesus Cristo, no Espírito Santo.”

Em 1º de Setembro de 2015, a Casa Geral publicara a seguinte declaração, que continua relevante:

“A Fraternidade São Pio X tomou conhecimento, através da imprensa, das disposições que o Papa Francisco tomou por ocasião do próximo Ano Santo. No último parágrafo de sua carta de 1º de setembro de 2015 a Mons. Rino Fisichella, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, o Santo Padre escreve: “Instituí por minha própria disposição que aqueles que, ao longo do Ano Santo da Misericórdia, se aproximarem para receber o sacramento da Reconciliação dos padres da Fraternidade São Pio X receberão a absolvição válida e lícita dos seus pecados.”

 A Fraternidade São Pio X expressa seu agradecimento ao Sumo Pontífice por este gesto paternal. No ministério do sacramento da penitência, ela sempre se apoiou, com absoluta certeza, na jurisdição extraordinária conferida pelas Normae generales do Código de Direito Canônico. Por ocasião deste Ano Santo, o Papa Francisco quer que todos os fiéis que desejam se confessar com os sacerdotes da Fraternidade São Pio X possam fazê-lo sem serem importunados.

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Nota da Edição – Dominus Est: na Declaração publicada em 2015 a FSSPX reiterou de forma clara a validade e a licitude de todos seus sacramentos, visto o atual estado de necessidade na Igreja e a consequente jurisdição extraordinária, apoiada pelo próprio Código de Direito Canônico. 

O que muda com essa “concessão” de Francisco é que as confissões deixam seu caráter extraordinário de suplência (necessidade) e passam a ser Ordinárias. Porém, na prática, isso não muda nada em relação ao período anterior à tal gesto. Se não houvesse essa “extensão”, as confissões continuariam sendo válidas e lícitas, porém voltando à jurisdição anterior de suplência. 

Para saber mais sobre a FSSPX, a “jurisdição” e o “estado de necessidade”, clique aqui.

A FIGURA DO PAI

A luta da esquerda para destruir a família é sobretudo a luta para destruir e/ou diminuir a figura masculina, infantilizando-a. O socialismo é uma forma eminentemente feminina de organizar a sociedade.

Fonte: Modéstia Masculina

Fui ver o filme O Regresso, do diretor mexicano Alejandro Iñarritu, um belo filme que é narrado desde a perspectiva masculina. Não à toa está indicado para uma dúzia de estatuetas do Oscar. Merecido de tão bom. É uma história de superação, de coragem e de resistência diante de intempéries, feras selvagens e inimigos. O filme se passa na segunda metade do século XIX, portanto não faz muito tempo, e se reporta a fatos ocorridos na vida real.

O que me chamou à atenção é a quase total ausência de mulheres, isso porque o filme é ambientado em uma situação de extrema dureza e em ambiente bastante inóspito. A única mulher que aparece é uma índia, filha de chefe, que foi raptada e abusada e salva pelo herói da película. A outra mulher, a esposa, é ausente e vem como lembrança do herói nos momentos mais difíceis. Há sempre uma presença feminina a velar na alma do homem. O filme é o retrato do que foi em todos os tempos: a figura heroica do homem é que garante a segurança, a sobrevivência e a inviolabilidade dos seus. Não ao acaso a virtude mais valorizada nos homens é a coragem, sem a qual o sujeito não teria condições de ser o defensor dos seus.

Certo, no século XX tivemos o esplendor do uso do ar comprimido e da energia elétrica e as armas são cada vez mais brinquedos de videogame, que uma mulher pode perfeitamente portar/usar. A força física do homem ficou secundária, mas essa é uma verdade sempre parcial. Vimos o que houve na Alemanha recentemente, com milhares de mulheres estupradas e abusadas por imigrantes islâmicos em face da ausência de qualquer elemento masculino que as pudesse defender. Sem seus homens, o feminino sempre fica vulnerável ao homem desconhecido, parece uma verdade evidente.

Quem acompanha o noticiário policial também pode ver que a maior parte das mulheres assassinadas por namorados ou companheiros se dá quando não há a presença de um homem forte na família. Este seria a garantia da inviolabilidade. No passado sempre foi assim, não se matava à toa a filha de um homem dominante, ou irmã. A vingança era imediata. Continuar lendo

AUTODEMOLIÇÃO CIVILIZACIONAL

Relatório do Senado francês aponta que 2.800 igrejas em todo o país, muitas delas construídas a séculos, serão demolidas ao longo dos próximos anos sob alegação de que os custos de restauração excedem o das demolições. Em contrapartida, mesquitas islâmicas florescem por toda a França

Sensus fidei: De acordo com um relatório do Senado francês, 2.800 igrejas em todo o país, muitas delas construídas a séculos, serão demolidas ao longo dos próximos anos sob alegação de que os custos de restauração excedem o das demolições. Em contrapartida, mesquitas islâmicas florescem por toda a França.

Esta igreja, Église Saint-Jacques d’Abbeville [vídeo abaixo], uma obra neo-gótica em Abbeville, Nord-Pas-de-Calais-Picardie que remonta a 1868, foi demolida em 2013 por um custo total de 350.000 €. O raciocínio: o custo da demolição foi muito menor do que custaria a restauração.

Neo expansão islâmica

A neo expansão islâmica rapidamente progride na nova Europa maçônica anticristã e anticlerical. Um exemplo disso, a Grande Mesquita de Paris, construída em 1926, obteve recentemente um telhado moderno, totalmente retrátil, como é normalmente encontrado apenas nos estádios de futebol e centenas de novas mesquitas são construídas a cada ano para as centenas de milhares de novos muçulmanos nascidos ou que imigram na sociedade francesa, muitas vezes com dinheiro do contribuinte. Nos dois vídeos a seguir, imagens do projeto de alta tecnologia na construção do novo telhado e detalhes do suntuoso interior da mesquita.

Autodemolição civilizacional

Enquanto o número de franceses na França continua a diminuir devido às taxas de natalidade recorde de baixa, alta emigração e imigração muçulmana, por outro lado, os membros da fé católica, estão agora na maior baixa de todos os tempos. Para muitas cidades na França, especialmente nas cidades em que os cristãos são a minoria, a falta de interesse e o alto valor de propriedade dos edifícios simplesmente não justificam o custo de uma possível restauração dessas igrejas. Muitos prefeitos escolhem as demolições mais baratas. Milhares de igrejas estão sendo demolidas e sendo substituídas por shoppings, lojas, apartamentos ou estacionamentos.

A seguir, um vídeo perturbador, com imagens e informações da tv iraquiana revelando claramente o verdadeiro e mal dissimulado caráter que anima o espírito religioso muçulmano e que se esconde sob o alarmante incentivo das novas políticas migratórias impostas pela União Europeia. Infelizmente, o nível de compreensão do afetado cidadão-zumbi da nova ordem mundial está muito longe de perceber que ele próprio é protagonista no suicídio de nossa civilização.

Fontes de consulta:

The European Union Times – France is Demolishing Thousands of Churches, Building Mosques

Tradition in Action – Europe Chastised & a Deeper Look at Islam

SEPULTURA CATÓLICA: QUANDO CONCEDÊ-LA OU NEGÁ-LA?

Fonte: FSSPX México – Tradução: Dominus Est

Alguns católicos não sabem que a Igreja Católica pode e deve negar a sepultura eclesiástica a determinadas pessoas, ainda que sejam batizadas. Isto significa que o cadáver não pode entrar no templo para celebrar as exéquias. Não só a Igreja pode proibir a entrada do corpo do templo, mas também pode negar a bênção. Assim, o corpo vai direto para o cemitério e será sepultado sem qualquer cerimônia religiosa.

Ao contrário, a Igreja recebe e honra o corpo daqueles que merecem receber os últimos sacramentos para os mortos. A Igreja oferece a Santa Missa pelo eterno descanso do falecido e dá-lhe a absolvição sobre seu caixão. O padre acompanha o morto ao cemitério para abençoar a sepultura e pronunciar as últimas orações.

Agora, usando o Código de Direito Canônico (1917), vamos mostrar, a quem se deve conceder ou negar o sepultamento católico para, em seguida, compará-lo com o Novo CDC (João Paulo II, 1983). Continuar lendo

O SUICÍDIO DE LUTERO

Étienne Couvert

Em 20 de maio de 1505, Lutero iniciara seus estudos de Direito na Universidade de Erfurt. Pouco tempo depois, porém, uma desgraça ocorreu. Tendo encontrado seu amigo Jerônimo Buntz, desentenderam-se, travaram um duelo e Lutero acabou por matar seu companheiro. Em junho daquele mesmo ano, preocupado com as consequências da morte, Martinho buscou seu protetor e amigo, João Braun, vigário colegial em Eisenach, para lhe pedir conselho. Este o estimulou a tornar-se religioso, a fim de evitar as consequências judiciais do caso. Lutero acatou a sugestão e em 17 de julho de 1505 entrou para o convento dos Eremitas de Santo Agostinho, em Erfurt. Beneficiou-se assim do direito de asilo, então reconhecido pela justiça civil. Seu primeiro tratado, redigido por ele mesmo, intitula-se: “Sobre aqueles que se refugiam nas igrejas, muito útil para os juízes seculares e para os reitores de uma igreja e os prelados de mosteiros”. (“De his qui ad ecclesiam confugiunt tam judicibus secularibus quam Ecclesiae Rectoribus et Monasterioum Praelatis perutilis”). A obra foi publicada anonimamente em 1517, e depois em 1520 com o nome de Lutero. Nela, é lembrado que quem mata sem ter sido inimigo, por erro ou sem premeditação, não é culpado segundo a lei de Moisés.

Em seu mosteiro, porém, Lutero não encontrou paz de espírito. Sua vocação, bastante questionável, foi resultado mais de medo que de um chamado divino ou amor à oração e à solidão.

Devido a seu temperamento hereditário, em acréscimo à sua educação familiar, Martinho era dotado de um caráter violento e explosivo, de tipo primário, que no primeiro impulso age sem refletir, além de uma alma escrupulosa que depois de ter agido, rumina bastante sobre o erro ou a falta cometida desnecessariamente e que podia ter sido evitada com um pouco de reflexão. É um tipo de humanidade bastante comum neste mundo e que não deveria, de modo algum, provocar uma angústia suicida.

Uma morte cometida durante uma rixa, certamente mais acidental que premeditada, não deveria jamais provocar essa crise, que não fez senão acentuar-se ao longo de sua existência, até o suicídio final. A isso é preciso acrescentar outro fator. Continuar lendo

COMUNICADO DO SUPERIOR DO DISTRITO DA FSSPX NA FRANÇA SOBRE A DECLARAÇÃO CONJUNTA ENTRE O PAPA E A IGREJA LUTERANA

bouchacourt_161024Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

Ao ler a declaração conjunta que o Papa fez com os representantes da igreja luterana na Suécia, em 31 de outubro, por ocasião do quinto centenário da revolta de Lutero contra a Igreja Católica, nossa dor atinge seu ponto máximo.

Diante do verdadeiro escândalo que tal declaração representa, onde se sucedem os erros históricos, graves violações à pregação da fé católica e um falso humanismo, fonte de tantos males, não podemos permanecer calados.

Sob o falso pretexto do amor ao próximo e do desejo de uma unidade artificial e ilusória, a fé católica é sacrificada no altar do ecumenismo que põe em perigo a salvação das almas. Os erros mais gritantes e a verdade de nosso Senhor Jesus Cristo são colocadas em pé de igualdade.

Como “podemos ser gratos pelos dons espirituais e teológicos recebidos através da Reforma“, enquanto Lutero manifestou um ódio diabólico pelo Sumo Pontífice, um desprezo blasfemo pelo Santo Sacrifício da Missa, assim como uma recusa da graça salvífica de Nosso Senhor Jesus Cristo? Ele também destruiu a doutrina eucarística, negando a transubstanciação, desviou as almas da Santíssima Virgem Maria e negou a existência do Purgatório.

Não, o protestantismo não trouxe nada ao catolicismo! Ele arruinou a unidade da cristandade, separou nações inteiras da Igreja Católica, mergulhou as almas no erro colocando em perigo sua salvação eterna. Nós, católicos, queremos que os protestantes retornem para o único rebanho de Cristo, que é a Igreja Católica, e rezamos por esta intenção.

Nestes dias em que celebramos todos os santos, apelamos a São Pio V, São Carlos Borromeu, Santo Inácio e São Pedro Canísio, que combateram heroicamente a heresia protestante e salvaram a Igreja Católica.

Nós convidamos os fiéis do Distrito da França a rezarem e fazerem penitência pelo Papa, afim que Nosso Senhor, do qual ele é o Vigário, o preserve do erro e o mantenha na verdade, da qual ele é o guardião.

Convido os sacerdotes do distrito a celebrar uma missa de reparação e organizar uma Hora Santa diante do Santíssimo Sacramento para pedir perdão pelos escândalos e suplicar a Nosso Senhor que acalme a tempestade que sacode a Igreja por mais de meio século.

Nossa Senhora, Auxílio dos Cristãos, salve a Igreja Católica e rogue por nós!

Pe. Christian Bouchacourt, Superior do Distrito da França da Fraternidade Sacerdotal São Pio X

Suresnes, 02 de novembro de 2016, comemoração de todos os fiéis defuntos

 

A DESCOBERTA DA OUTRA

gcorcao_back_brancoUm leitor que se diz assíduo, numa longa conversa telefônica, estranhou o pós-conciliar. O leitor entende o termo como se significasse a mesma Igreja Católica, na era pós-conciliar. Bem sei que nesse período conturbado continua a existir, na terra, a Igreja Católica dita militante. Ora, minha sofrida e firme convicção, tantas vezes sustentada aqui, ali e acolá é que existe, entre a Religião Católica professada em todo o mundo católico até poucos anos atrás e a religião ostensivamente  apresentada como “nova”, “progressista”, “evoluída”, uma diferença de espécie ou diferença por alteridade. São portanto duas as Igrejas atualmente governadas e servidas pela mesma hierarquia: a Igreja Católica de sempre, e a Outra. E note bem, leitor: quando acaso der a essa outra o nome de Igreja pós-conciliar não quero de modo algum insinuar a infeliz idéia de que, após o Concílio, a Igreja de Cristo se teria transformado a ponto de tornar-se irreconhecível, devendo os fiéis de bem forma­da doutrina católica acreditar nessa nova forma visível da Igreja, por pura disciplina, ainda que a maioria das pregações e dos novos ensinamentos sejam ostensivamente diversos e as vezes opostos à doutrina católica. Não! A Igreja Católica e Apostólica continua a existir na era pós-conciliar, submetida a duras provações, mas sempre permanente e fiel guardiã do depósito sagrado.

Se o leitor me perguntasse agora quais são as essenciais diferenças que separam as duas religiões, eu responde­ria: diferença de espírito, diferença de doutrina, diferença de culto e diferença moral. Como terei chegado a tão assustadora convicção? Com muito sofrimento e muito trabalho, são milhares os católicos que chegaram à mesma convicção.

Começamos por confrontar os novos textos, as novas alocuções, as novas publicações pastorais com a doutrina ensinada até anteontem. A começar pelos textos emanados dos mais altos escalões, citemos alguns daqueles que mais dolorosamente e mais irresistivelmente nos levaram à conclusão de que se inspiram em outro espírito e se firmam em outra doutrina. Entre os textos conciliares, citamos os seguintes: Constituição Pastoral sobre a Igreja e o Mundo Atual (Gaudium et Spes); Decreto sobre o Ecumenismo (Unitatis Redintegratio); Declaração sobre a Liberdade Religiosa (Dignitatis Humanae); Discurso de Encerramento do Concílio, 7 de Dezembro de 1965; Institutio Generalis do Novus Ordo Missae: Ponto 7 (na primeira redação, de 1967, e principalmente a segunda redação de 1970). Além desses documentos dos mais altos escalões, poderíamos encher as páginas deste jornal com obras e pronunciamentos de cardeais, arcebispos, bispos e padres que eram bisonhos, retraídos e discretos quando tinham vaga consciência de suas deficiências filosóficas e teológicas e que subitamente descobrem que na “nova Igreja” podem dizer tudo o que lhes vem à boca que fala ou à mão que escreve. O que menos se conhece é a Teologia, mas o que mais abunda na Nova Igreja são os “teólogos da libertação”.  Continuar lendo

ESTOU SÓ

“Disse-lhes, então: Minha alma está triste até a morte. Ficai aqui e vigiai comigo”. (Mt 26,38)

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Padre Juan Manuel Rodríguez de la Rosa – Adelante la Fe | Tradução Sensus fidei:

Queridos irmãos, possivelmente conhecemos pessoas que se lamentam de sua solidão, ainda mesmo quando estão acompanhadas. O que acontece, muito provavelmente, é que essas pessoas querem ser ouvidas, querem consolo, mas realmente não estão com o Senhor. N’Ele está toda a resposta para a nossa vida. Se entendêssemos que Ele está conosco, não se chegaria a esta situação de solidão.

Muitas pessoas que se sentem sozinhas, sem uma explicação óbvia, pois nada lhes falta, estão de boa saúde, tudo o que elas realmente esperam é que alguém lhes telefone ou as visite. Verdadeiramente elas não têm o pensamento no Senhor. O que o Senhor deseja é que pensemos n’Ele; e se o fizéssemos realmente as horas do dia não nos seriam suficientes.

Saem, vão daqui para lá, e quando as atividades cessam sobrevém a solidão, e apenas esperam que as atividades voltem para continuar distraindo-as. Não pensam que nesses momentos de solidão o Senhor pode presenteá-las, se compartilhassem o tempo com Ele, acompanhando-O, Ele que espera ansiosamente nossa atenção e carinho. Esses momentos de oração que já estão tão esquecidos!

Quanto tempo para o Senhor? Quem está impossibilitado de visitá-lo no Sacrário, pode fazê-lo espiritualmente. Pode dedicar-lhe momentos de íntima oração em casa. Conversar com Ele. O próprio Senhor está verdadeiramente sozinho. Se pensarmos bem, os que se queixam de sua solidão não expressam nada mais do que puro egoísmo, puro desejo de ser consolados. Cada um vive a sua vida, e quando cessam as suas atividades sobrevêm-lhes a solidão. Continuar lendo

O OLHAR, O PENSAMENTO E O PECADO

EysNão terás pensamentos ou desejos impuros.
(Nono Mandamento)

“Cada um é tentado pela sua própria concupiscência, que o atrai e alicia”. (Tg 1,14)

Tudo começa com o olhar

Pe. Juan Manuel Rodriguez de la Rosa – Adelante la Fe | Tradução Sensus fidei

Queridos irmãos, muitos não são conscientes da importância do olhar para se evitar a pecar, pois peca-se com o olhar. Olha-se de cima para baixo, de baixo para cima. Não se vigia o olhar. Não se olha para a alma das pessoas com os olhos, olha-se com desejo para o corpo. Atraído pela aparência, há quem se enfraqueça até cair em pecado. Olha-se com desejo, com o pensamento dissoluto, deleita-se e a alma peca. É necessário aprender a vigiar o olhar.

Tudo começa com o olhar. Quando alguém vê algo desagradável, rapidamente afasta o olhar, esforça-se para não olhar. Mas se, depois, vê algo ou alguém agradável, delicia-se com o prazer dos sentidos. O espírito está pronto, mas a carne é fraca (Mt. 26, 41). Abre-se a brecha para o pecado. Entra o desejo daquele que é olhado, o desejo da pessoa para a qual se olha. Muitos não entendem que por trás de algo, dizem, que é superficial, justificável e normal, na verdade, está a tentação do demônio. Lembremos as palavras do Apóstolo: “Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal (espalhadas) nos ares”. (Ef 6,12). Nas lutas interiores da alma acrescentam-se as acometidas e tentações exteriores, que algumas vezes combatem abertamente, e outras por caminhos ocultos que introduzem a alma em tal estado de paixão cega que não pode ver-se livre por si mesma.

Quando na alma entra o espírito maligno, a malícia espiritual, ouve-se: Eu quero teu corpo. É o desejo pela pessoa para a qual o olhar se deleitou com atenção e prazer. Aquele corpo que se olhou com aparente normalidade, porque era belo, agora deseja-se cegamente, apaixonadamente. Continuar lendo

A “BONDADE” DE JOÃO XXIII

Pe. Michel Simoulin, FSSPX

“João XXIII entrou para a história como o ‘Papa buono’ (Papa bom). A esse respeito, é licito se perguntar se ‘Papa buono’ equivale a bom papa” – cardeal Silvio Oddi[1].

A lista dos livros, estudos e artigos escritos que celebram a “bondade” desse papa é longa demais para ser relacionada aqui. O ponto culminante — e, parece, definitivo — dessa celebração é representado pela promulgação, em 20/12/1999, do decreto sobre as “virtudes” heroicas do servo de Deus, João XXIII. Isso pareceu colocar termo à discussão. Todavia, não podemos esquecer outros estudos e artigos publicados para destacar falhas e fraquezas desse mesmo papa[2]. Até o discurso dirigido ao papa atual[3] pelo prefeito da Congregação da Causa dos Santos, em 20/12/1999, suscita algum espanto. Com efeito, se as virtudes louvadas em Pio IX são belas virtudes cristãs (zelo pastoral infatigável, intensa vida de oração, profunda vida interior), as de João XXIII são estranhamente novas, até mesmo desconhecidas da Teologia Ascética e Mística:

“Esse pontífice promoveu o ecumenismo, preocupou-se em desenvolver relações de fraternidade com os ortodoxos do Oriente que conhecera na Bulgária e em Istambul, desenvolveu relações mais intensas com os anglicanos e com o mundo multicolorido das Igrejas protestantes. Agiu de modo a lançar as bases de uma nova atitude da Igreja Católica para com o mundo judaico, fazendo uma decisiva abertura ao diálogo e à colaboração. Em 4 de junho de 1960, criou o Secretariado para a Unidade dos Cristãos. Promulgou duas encíclicas relevantes, Mater et Magistra (20 de maio de 1961) sobre a evolução social à luz da doutrina cristã e Pacem in Terris (11 de abril de 1963) sobre a paz entre todas as nações. Visitou hospitais e prisões e mostrou-se sempre próximo, pela caridade, dos sofredores e dos pobres da Igreja e do mundo”[4].

Se excetuarmos o devotamento às obras de misericórdia corporal, todas as virtudes de João XXIII são virtudes… ECUMÊNICAS!

Por conseguinte, parece-nos lícito ainda hoje estudar e examinar a “bondade” que deveria ser a santidade de João XXIII. Não se trata de negar a possibilidade de que hoje esteja na glória de Deus, mas, uma vez que ser beatificado significa ser proposto à veneração e à imitação dos católicos, trata-se de saber se, verdadeiramente, é permitido imitar a “bondade” do Papa João. Continuar lendo

VERDADEIRO SACERDÓCIO – PALAVRAS DE MONS. LEFEBVRE

Resultado de imagem para marcel lefebvreFonte: FSSPX México – Tradução: Dominus Est

Fomos escolhidos de um modo totalmente particular para sermos seu  discípulos e apóstolos. Por que admirar que nos peçam que levemos a cruz que Ele mesmo levou e bebamos o cálice que ele bebeu? É evidente que, aos olhos da fé, os sofrimentos que suportam e suportarão nossos sacerdotes, os coloquem em uma mesma linha reta de conformidade e semelhança com Nosso Senhor.

Acusam nossos colegas de levantar a população contra seus líderes ou governantes. Nosso Senhor também foi acusado do mesmo: “Encontramos este homem pervertendo o nosso povo” (Lc 23, 2). Acusam nossos sacerdotes de serem agentes estrangeiros. Nosso Senhor também foi acusado de pertencer a outro reino e ao serviço de uma causa estrangeira: “Encontramos este homem … dizendo que é o Cristo, o rei.” “Não temos mais nenhum rei senão César” (Jo 19, 15). Assim acontece com todo cristão: seu batismo o faz cidadão do reino de Deus e da Igreja Romana, e por causa dessa adesão milhões de cristãos foram martirizados. Muitos teriam salvado a vida se tivessem renunciado tal filiação e pertença, mas a preferiram mais do que a pertença à cidade terrena, ainda que estivessem entre os melhores filhos da terra. Podemos duvidar do amor de Nosso Senhor por Sua pátria terrena, personificada na Jerusalém que tanto amou? E, no entanto, foi condenado como revolucionário e estrangeiro.

Seriam tolerados os católicos e missionários se aceitassem não pertencer a outro reino. Se os católicos formaram igrejas cismáticas (isto é, sujeitas apenas aos governos locais, que seriam toleradas e até mesmo subsidiadas), estariam ajudando os Estados em seus fins políticos.

Nossa condição de sacerdotes e cristãos católicos e romanos é tal que, em todos os países não-católicos e às vezes mesmo em países com a maioria deles, nos colorariam em uma situação de estrangeiros; se é verdade que queremos parecer como Nosso Senhor, nosso reino não deve ser deste mundo.

Mons. Marcel Lefebvre – Cartas Pastorais e Escritos

“JAMAIS ME TORNAREI CATÓLICA. DIZEIS E REPETIS SEMPRE AS MESMAS PALAVRAS NO ROSÁRIO, E QUEM REPETE AS MESMAS PALAVRAS NÃO É SINCERO”

Já se tem objetado que há muitas repetições no rosário, e que o «Pai-Nosso» e a «Ave-Maria», à força de repetidos, tornam-no monótono. Isto faz-me lembrar o caso duma mulher que veio procurar-me uma tarde, depois da preleção

São Domingos, que morreu em 1221, recebeu de Nossa Senhora a ordem de pregar e popularizar a devoção em sufrágio das almas do purgatório, pela vitória sobre o mal e pela prosperidade da Santa Madre Igreja, e assim nos deu o rosário na sua forma atual. Já se tem objetado que há muitas repetições no rosário, e que o «Pai-Nosso» e a «Ave-Maria», à força de repetidos, tornam-no monótono. Isto faz-me lembrar o caso duma mulher que veio procurar-me uma tarde, depois da preleção.

Disse-me: «Eu jamais me tornarei católica. Vós dizeis e repetis sempre as mesmas palavras no rosário, e quem repete as mesmas palavras não é sincero. Eu nunca acreditarei em tal pessoa. Tampouco Deus acreditará nela».

Perguntei-lhe quem era o homem que a acompanhava.

Respondeu-me que era o seu noivo.

Perguntei-lhe ainda: «Ele gosta de si?» Continuar lendo

BERGOGLIO E LUTERO

Resultado de imagem para bergoglio e luteroDentro de poucos dias o papa Bergoglio irá à Suécia participar das comemorações do quinto centenário da revolução luterana.

O gesto do pontífice, embora não nos surpreenda, não deixa de desconcertar-nos. Não nos surpreende porque seu predecessor João Paulo II agia nessa direção, tendo mandado depositar flores na campa do heresiarca, e os teólogos da Nouvelle Theologie, condenados por Pio XII e reabilitados após o Vaticano II, não escondiam sua admiração pelo falso reformador, monge crapuloso, comilão e beberrão, inventor da máquina de genocídio do mundo moderno. Não nos surpreende porque na nova religião há quem chegue a manifestar, senão simpatia, ao menos compreensão por Judas Iscariotes, dizendo que ninguém pode julgá-lo, num esforço vão de inocentar o filho da perdição.

Entretanto, o gesto de Bergoglio nos desconcerta porque de um papa, principalmente em se tratando de um filho de Santo Inácio de Loyola, queríamos poder esperar que seguisse o exemplo de seus irmãos maiores São Roberto Belarmino, São Pedro Canísio e tantos outros gloriosos santos jesuítas.

Com efeito, no quinto centenário da falsa reforma luterana, os católicos tínhamos o direito de esperar que o papa renovasse as condenações de Leão X e do Concílio de Trento contra os erros dos pseudo-reformadores e exortasse os hereges de hoje, herdeiros dos erros do século XVI, a abjurar suas doutrinas heréticas e a voltar para o seio da única Igreja de Cristo. Continuar lendo

MULHER FORTE E A ESMOLA

Resultado de imagem para caridadeManus suam aperuitinopi et palmas suasextendit ad pauperem.

Ela abriu a sua mão ao indigente, e estendeu os braços e as mãos ao pobre.

(Prov., XXXI)

Senhoras.

Explicando os dois antecedentes versículos do livro dos provérbios, sobre a mulher forte, vimos que ela podia gozar do bem que se opera em derredor dela, do bom resultado das suas obras, e deixar expandir o coração no espetáculo da felicidade e da prosperidade de sua família, uma vez que a sua alegria não fosse de orgulho e estivesse contida nos limites da sabedoria: pois o abuso das melhores coisas pode conduzir a alma aos sentimentos do pueril amor-próprio e da triste vaidade, que, de tal forma são comuns entre os homens, que até, muitas vezes, senão sabe que conselhos se lhes hão de dar.

Se alguém os empenha a rejubilarem-se em Deus, e rejubilarem-se com tudo quanto pode ser bom na vida, porque a vista do bem dilata e anima, deixam-se cair no ridículo e na desorientação de uma miserável vaidade; se, no contrário, alguém comprime ao mesmo tempo, a mola do louvor e da justa apreciação das coisas, e se detém assim a legítima satisfação que pertence necessariamente à virtude, segundo a doutrina de São Tomás, a alma estiola-se, e expõe-se a perder toda a energia, e toda a atividade para o bem.

Recomendamos em seguida, uma grandíssima reserva na manifestação do bem e da alegria. Pondo mesmo de parte os princípios da humildade, o orgulho, a inveja, a vaidade magoada e os pequenos amores-próprios, que nos rodeiam sempre, como pequenas serpentes, deveriam empenhar-nos a viver na obscuridade, a ocultar a nossa ventura, o nosso engrandecimento, e a passar neste mundo, tanto quanto possível, como o regalo sob a folhagem. Continuar lendo

TEILHARD DE CHARDIN, O PROFETA DO CRISTO CÓSMICO

[Capítulo XV do livro Cent ans de modernisme. Généalogie du Concile Vatican II (Editions Clovis, 2003) do padre Dominique Bourmaud, FSSPX.]

Falando estritamente, uma síntese de Teilhard parece fora de propósito numa recensão genealógica dos princípios modernistas, porque nosso protagonista não é filósofo, nem exegeta, nem propriamente teólogo. Porém, fazer o álbum da família neomodernista sem incluir Teilhard de Chardin seria expor-se a subestimar a popularidade do movimento nos círculos profanos. Se, no período das primeiras publicações teilhardianas, em 1927, o modernismo não passava de uma sombra, trinta anos depois, quando da morte de Teilhard, o vírus conquistara todos os níveis hierárquicos e infectara aos pensadores mais sutis, antes de ganhar Roma. O fenômeno teilhardiano age como um termômetro. É o ponto de referência, o critério definitivo que permite distinguir entre modernistas e católicos fiéis. Depois de um esboço do profeta e da sua visão, será preciso abordar as razões profundas de sua celebridade, de ordem científica e mística, para concluir com sua influência póstuma.

1. O profeta e sua visão

Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955) nasceu em Auvérnia (França), e descende de Voltaire por parte de mãe. Seu professor de literatura e futuro amigo, Bremond, o descreve à idade de quatorze como muito inteligente, mas desesperadamente tranquilo. Não se podia encontrar a menor exaltação em seus olhos, de tão imerso que vivia em outro mundo, de tão absorto que estava por uma paixão todo-poderosa. Este é o primeiro testemunho da dupla personalidade de Teilhard: por um lado, o estudante modelo que se tornará sacerdote jesuíta; por outro lado, o visionário obcecado por uma idéia fixa, seu sonho da evolução criadora. Esta dualidade psíquica se revela em suas atitudes paradoxais. Teilhard exulta de uma alegria lírica e romântica perante as bombas atômicas, que evocam, para ele, nem tanto o dia do Juízo, mas as fecundas entranhas da evolução. Ele chora de emoção diante do ferro oxidado. Extasia-se na presença da matéria, na presença de toda matéria. Esse delírio pela evolução provavelmente explica seu interesse pelos audaciosos avanços da bioética e pela revolução chinesa de Mao Tse Tung.

A atração irresistível pela biologia e a paleontologia orienta seus estudos pessoais, e daí em diante tudo será compreendido sob o ponto de vista da evolução da matéria. Os anos 1916-1918 marcam a virada decisiva de seu pensamento, o que ele chama de seu segundo nascimento. Ora, nessa época, buscava-se um pioneiro, um herói dentro do clero, e se fosse jesuíta, tanto melhor. Um herói e um pioneiro entre os jesuítas deveria dar mostras de certas qualidades: um profundo intelectualismo, um contato fácil com os grande deste mundo, um toque de poesia e de misticismo, um espírito de independência frente a Roma e, enfim, relações mundiais que lhe dessem distinção, e mesmo um certo nível de celebridade, de internacionalismo[1]. Ora, Teilhard não só possui todas estas qualidades, mas também muitas outras. Ele tem uma imensa fé em suas crenças que, mesclada a uma pitada de auto-suficiência e de originalidade, lhe trará uma incrível popularidade. Sua linguagem esotérica e mistificadora apresenta a grande vantagem de permitir que cada um o entenda como melhor lhe pareça[2]. Se, além disso, com sangue frio e convicção, ele diviniza o progresso indefinido do mundo, o advento do Super Homem e a evolução inelutável, logo será consagrado como o profeta dos novos tempos. Este é o segredo deste homem fascinante. Teilhard nada tem de pensador profundo; é um visionário atormentado por um desejo messiânico que nele se torna uma idéia fixa. Não é um teórico, é um vulgarizador. Não é um sábio especulativo, é um profeta. Um profeta que, ao mesmo tempo, é consciente de sua missão:

“ele tem a sensação de possuir, por seus estudos, relações e mesmo dons, uma espécie de missão científico-religiosa in partibus infidelium”[3].

Se sua visão do mundo e da religião apresenta um atrativo irresistível para o pensamento moderno, é porque oferece uma explicação que não deixa de ter um toque de gênio. Propõe uma síntese notável por sua coerência, tão grandiosa quanto atrevida. Para Teilhard, tudo, tanto o mundo sobrenatural como o natural, emergiu da matéria em perpétua evolução, e tudo converge para um ponto comum. Este sistema está perfeitamente elaborado em suas duas obras, O fenômeno humano e O ambiente divino, que resumiremos rapidamente.

Na obra O fenômeno humano, que trata da gênese da espécie humana a partir do cosmos, Teilhard quer fazer uma obra de ciência pura, baseada apenas na aparência sensível, o fenômeno[4]. Como biólogo que é, seu ponto de partida é o evolucionismo biológico, uma hipótese científica que explica que tudo o que se move sobre a terra descende de um tronco comum. Em particular, o homem evoluiu a partir da ameba monocelular mais simples, que, por sua vez, saiu da matéria inerte. Deste ponto de partida, ele deduz, por generalização, a «lei de complexidade e de consciência». Esta lei estabelece que, na escala dos seres vivos, o grau de consciência vital corresponde ao grau de complexidade do organismo nervoso, nos vegetais, ou do cérebro, nos animais. O homem, único ser dotado de reflexão, apresenta o máximo de consciência. Mas, longe de ser exclusiva dos seres vivos, a lei de complexidade e de consciência se aplica também aos minerais, que acreditamos desprovidos de vida, e que têm, não obstante, uma parte de consciência que Teilhard chama de energia psíquica.

Com semelhantes princípios condutores, ele está em condições de descrever a formação do universo criado, a “cosmogênese”. O universo formou-se por uma progressão contínua de complexidade orgânica, que seguia lado a lado com a intensidade de energia. O mundo se fez em três etapas separadas por dois saltos, vale dizer, por transformações de energia mais profundas. O primeiro salto é a passagem dos seres inanimados para os seres vivos. O segundo salto designa a passagem dos seres vivos mais desenvolvidos aos homens. A evolução termina no homem? Os cérebros humanos acabarão por se reunir fisicamente para produzir um cérebro mais complexo? Teilhard não acredita nisso, porque o homem já tem em si mesmo toda a perfeição de reflexão e de pensamento. Porém, a evolução biológica continuará no sentido da convergência de todos os espíritos humanos para reunir a humanidade inteira. O pensamento deve tender biologicamente a se socializar, isto é, a se unir em uma comunidade perfeita de pensamento e de amor. Ela terminará em um ponto de união, um Superespírito, ser pessoal e preexistente a todos, sem, no entanto, absorvê-los. Este ponto final, que Teilhard chama de «Ponto Ômega», será dotado das propriedades do próprio Deus. E, finalmente, chegará o dia em que essa convergência exigirá uma evasão coletiva de toda a humanidade para fora da matéria, a fim de reunir-se no Ponto Ômega: este será o fim do mundo.

O fenômeno humano pretendia ser uma obra puramente natural e científica. Já O ambiente divino escreveu-o Teilhard como cristão e pressupõe as verdades de fé. Este segundo livro tem uma dinâmica paralela ao primeiro e visa principalmente a identificar o Ponto Ômega com a encarnação de Cristo. É a obra mística de Teilhard, e a ela não faltam atrativos. Posto que tudo, até mesmo o material, foi feito para nossa alma, e que nossa alma está consagrada a Deus, segue-se que todo o real é sagrado.

“Cristo é o término da evolução inclusive natural dos seres: a evolução é santa”[5].

Tudo está submetido à atração de Cristo por via de consumação. Teilhard afirma que a encarnação fez do mundo inteiro um sacramento. Ele compara o mundo com as espécies sacramentais:

“Deus meu …, para que eu não sucumba à tentação de maldizer o Universo, fazei que eu o adore, vendo-vos oculto nele. A grande palavra libertadora, Senhor, a palavra que revela e opera, ao mesmo tempo, repita-a para mim, Senhor: “Hoc est corpus meum.” De fato, o monstro, a sombra, o fantasma, a tempestade – se quisermos, sois Vós … No fundo, não são mais que as espécies ou as aparências de um mesmo Sacramento”[6].

É igualmente pela Encarnação que o Verbo se constituiu o centro físico e biológico da evolução natural do mundo. Reinterpretando a doutrina de São Paulo sobre a formação do Corpo místico de Cristo, Teilhard transpõe essa união mística dos eleitos com a Cabeça da Igreja em termos de evolução para um todo natural e físico. Assim como a «santa matéria» engendrou os homens por evolução vital, os homens engendrarão o Cristo por evolução progressiva: a cosmogênese se converte em cristogênese, a formação do Cristo total entendida, em Teilhard, como um todo biológico e físico. Claro está que ele não se refere à pessoa histórica de Jesus de Nazaré. Ele fala de uma

“terceira natureza de Cristo, em um sentido verdadeiro, que não seria humana nem divina, mas cósmica”[7]. “Para converter-se no Alfa e no Ômega, Cristo deve, sem perder sua dimensão humana, fazer-se coextensivo às dimensões físicas do tempo e do espaço”[8].

Inútil dizer que este Cristo está ainda em vias de formação e só existirá definitivamente quando se tornar o Ponto Ômega. O Cristo de quem Teilhard fala é

“o motor essencial de um humanização que conduz a uma ultra-humanização. O desvio cósmico move-se em direção a um incrível estado quase “monomolecular”… onde cada ego está destinado a alcançar seu paroxismo em algum misterioso superego … Somente esta integração poderá fazer que apareça a forma do homem futuro, em que o homem alcançará plenamente o fim e o ápice do seu ser”[9].

Teilhard explica que esta integração desemboca na religião sincretista, isto é, na convergência geral das religiões em direção a um Cristo universal que, no fundo, satisfaça a todas. Esta lhe parece ser a única conversão possível para o Mundo e a única forma imaginável para uma Religião do futuro[10].

Desde as primeiras publicações, essas teses audaciosas foram submetidas a duras críticas, e seus superiores romanos o proibiram de escrever. Mas Teilhard recebia a proteção dos superiores locais, e nos ambientes da vanguarda seus textos circulavam com ainda mais gosto pelo sabor que tinham de fruto proibido.Exilado em Pequim, ali ficou sob bloqueio durante toda a guerra, só regressando à Europa em 1945. Cinco anos depois, na encíclica Humani generis, Pio XII condenou seus erros teológicos. O superior de Teilhard, Janssens, cogitava expulsá-lo, mas temendo seriamente uma revolta na Companhia de Jesus, acabou por lhe dar total liberdade de movimento, exilando-o nos Estados Unidos, em 1951. Lá, graças ao fascínio por suas ideias e, ressalte-se, graças também a sua agilidade mental, Teilhard pode seguir com  suas investigações até à morte, em 1955.

Assim, por quinze anos, até o Concílio, se tornou possível o lançamento metódico de seus livros, que contradiziam quase sistematicamente todas as posturas ortodoxas. Na verdade, nem sua pessoa e nem mesmo suas ideias foram importunadas seriamente, uma vez que poderosos protetores o cobriram com um pudico véu[11]. Suas obras, imbuídas de modernismo, nunca foram condenadas durante sua vida, e, em 1962, um simples Monitum, que estava longe de ter a força de uma inclusão no Index, declarou suas obras póstumas como “cheias de ambiguidades, ou melhor, de graves erros, que ofendem a doutrina católica”. Esta ausência de condenação é um sinal da enfermidade que atravessava a Igreja, mas também da astúcia que os seus amigos utilizaram para proteger o novo precursor da Igreja do futuro.

 

2. A convergência da fé modernista e da ciência

Qual é a explicação para o fenômeno teilhardiano? Diga-se o que quiser, a razão primordial para a imprensa internacional colocá-lo nas nuvens, era ser um cientista, além de padre e jesuíta, que enfrentava o dogma da Criação e do pecado original, colocando a fé de joelhos diante da ciência. Eis o motivo da auréola de sábio atribuída ao jesuíta. Teilhard pretendia revisar o velho problema da relação entre a fé e a ciência. Desde Siger e Lutero, a partir de Descartes e da filosofia moderna, a fé e a ciência tinham sido consideradas autônomas, cada uma reinando em sua esfera. Mas como a ciência é rigorosa e seus progressos trazem imensos serviços à humanidade, o homem moderno, que deixou de lado a metafísica, já não tem o que fazer com um Deus inoportuno que pouco a pouco se tornou quimérico. O modernismo nasceu da briga mortal entre a fé católica e a «ciência» que pretende contradizer o dogma. O neomodernismo de Teilhard tropeça no mesmo escolho. Ora, naquela época, falava-se muito da teoria da evolução científica das espécies. Spencer, Lamarck, e por último Darwin, desenvolveram várias idéias para propagar essa hipótese científica.

É nesta conjuntura que Teilhard intervém. Vendo a antiga Igreja desafiada pela ciência moderna, procura oferecer uma solução. Pretende ser não tanto o apóstolo da Igreja antiga, mas o fundador de uma nova religião. Quer estabelecer essa religião que floresce no coração do homem moderno a partir da ideia de evolução. Na verdade, o verdadeiro fundador do novo culto não é Yahvé e nem Cristo, mas Charles Darwin. Para reabilitar seu leitmotiv da evolução divina, Teilhard vai cruzar os mares e realizar as descobertas do homem de Piltdown e do homem de Pequim[12]. Mas essas descobertas científicas, que o levaram à glória, provocaram também seu ocaso quando comprovado que se tratavam falsificações. Porém, o problema capital desta teoria não reside na adoção de uma hipótese científica, por mais discutível que seja. Deriva, principalmente, do fato de que Teilhard pretende implantar a evolução darwiniana em um campo que não era o seu: a teologia. É neste ponto que reside o pecado original do teilhardismo: querer passar do chinês ao árabe, de um registro a outro; querer traduzir os dados das ciências experimentais (biológicos, geológicos, etc.) para a linguagem filosófica e teológica. Como se o botão de rosa e a evolução do grão em espiga pudessem definir uma verdade atemporal ou um dogma de fé!

Santo Tomás tinha suas razões para dizer que uma falsa ideia sobre a natureza da criação implica sempre em uma falsa ideia de Deus: a criação é a única via racional que conduz a Deus. Ora, a “criação” teilhardiana está nas antípodas do Gênesis bíblico.

É a partir de um novo conceito da gênese do mundo, uma evolução extrema da matéria “espiritual”, que Teilhard constrói toda sua teologia. O cosmos se desenvolveu a partir da “santa matéria”, por graus sucessivos ordenados em milhares de anos. A matéria é o estofo do mundo,

“onde o mais pressupõe o menos, onde pela Evolução algo de substancial se depura e passa realmente do polo material ao polo espiritual do Mundo”[13].

Os dogmas da criação e da existência de um Deus criador, e, por tabela, o dogma do pecado original, são sacrificados no altar da Evolução, a única categoria do pensamento teilhardiano, segundo as palavras de seu amigo e admirador Urs Von Balthasar.

Se Teilhard acolhe a invenção darwiniana de evolução no que se refere ao início do mundo, o fim dessa evolução é fruto de seu próprio credo. Em um determinado momento, surgiram homens — homo sapiens — em diferentes pontos do globo[14]. Com o aparecimento dos homens, começa a História humana e a ascensão de todos os indivíduos à unidade perfeita, o Ponto Ômega da História. Nós nos encontramos agora no coração desse processo de gestação grandiosa da Humanidade. A evolução contínua acabará em apoteose quando a Humanidade inteira se transformar em um Super-homem tão certo quanto misterioso. É a mesma doutrina que encontramos exposta em Hegel e Strauss, repetida depois por Loisy e Tyrrell. Mas por que essa necessidade de pôr em maiúsculas o homem, abstraindo-o de sua condição individual, para não ver senão sua essência pura e ideal? Porque o indivíduo concreto, Pedro ou Paulo, tomado separadamente, é limitado, e não é necessário acreditar no pecado original para ver que é um ser caído. Por outro lado, o Super-homem, o Homem ideal, é isento do pecado original e se torna mais verossímil qualificá-lo de salvador e de todo-poderoso. Esta salvação pelo Super-homem, esta redenção com a qual sonha Teilhard, é a hominização, a reunião dos homens em uma fraternidade universal, a salvação futura e coletiva.

É evidente que semelhante enfoque exige o abandono completo da fé. Além da criação, todo o catecismo é desfigurado na sinfonia teilhardiana da evolução: o espírito, o mal, o pecado original, a parusia e o céu. As noções mais sagradas são conservadas, mas, ao mesmo tempo, são esvaziadas de seu sentido original e transformadas ao modo da “gênese. Se o sistema teilhardiano é notável por sua consistência, também é célebre pela série de erros graves. Em Teilhard, tudo flui por necessidade física. Toda a evolução biológica, histórica e crística é organicamente coerente. Há um fluxo evolutivo necessário entre a criação, o pecado, a Redenção e a Ressurreição. Entre a cosmogênese e o Ponto Ômega quase não sobra lugar para o sobrenatural, que, segundo Teilhard, teria sido inventado por Santo Agostinho:

“Não me falem desse homem nefasto: pôs tudo a perder ao inventar o sobrenatural!”[15].

Tampouco há lugar para Deus e sua liberdade:

“A fim de ser Deus, deveria criar o mundo”[16].

Mas essa é a essência mesma do panteísmo, pois afirma que o mundo procede por emanação necessária, e por conseguinte, que é tão necessário e divino como o próprio Deus.

 

3. A convergência do modernismo e do panteísmo

Sublinhamos, há pouco, os traços inequívocos de panteísmo nos escritos de Teilhard de Chardin. Se ele é discreto em seus primeiros textos, é certo que suas obras, senão seu pensamento, amadureceram com os anos, de maneira que seus últimos trabalhos são muito reveladores. Eis aqui alguns trechos:

“Não me dei conta que, inevitavelmente, à medida que, das profundezas da Matéria até os cumes do Espírito, Deus “metamorfoseava” o mundo – o mundo, por sua vez, devia ‘endomorfizar’ a Deus. Sob o efeito mesmo da operação unitiva que o revela a nós, Deus de algum modo ‘se transforma’ encorporando-nos a si.”[17]. “Não aceito a postura ‘antipanteísta’ que o senhor atribui a mim. Ao contrário, sou essencialmente panteísta de pensamento e de temperamento; e passei toda a minha vida declarando que existe um verdadeiro ‘panteísmo de união’, Deus omnia in omnibus (um pancristismo, diria Blondel) frente ao pseudopanteísmo de dissolução, Deus omnia. E por isto mesmo não sinto nenhuma simpatia pelo Criacionismo bíblico (salvo na medida em que funda a possibilidade de união). De outro modo, a idéia da criação bíblica me parece infantil e antropomórfica”[18]. “Se, em consequência de alguma perturbação interior, eu chegasse a perder sucessivamente minha fé em Cristo, minha fé em um Deus pessoal, minha fé no Espírito, parece-me que continuaria acreditando no mundo. O mundo (o valor, a infalibilidade e a bondade do mundo) é, em última instância, a primeira e a única coisa em que acredito… Abandono-me à fé confusa em um Mundo uno e infalível, onde quer que ela me conduza”[19].

Vejamos agora rapidamente as relações e implicações que existem entre o modernismo e o panteísmo, que decididamente parecem obcecar os pensadores cativados pelas ideias modernas. Trata-se de harmonias inexplicáveis sem vínculo necessário, ou há entre elas relação de causa e efeito? Esta é a questão que precisamos responder neste parágrafo.

Historicamente só houve duas formas de pensamento e de vida[20]: o “sobrenatural” carnal e o sobrenatural espiritual. O que a História revela dos sistemas religiosos, a razão prova com facilidade. A religião, vínculo entre o homem e Deus, tem duas expressões possíveis: ou o homem reconhece um Deus exterior que a ele se revela, ou o rejeita. Se o aceita, essa religião não é outra que a religião católica, a única que recebeu a Revelação do Deus feito homem. Ela tem uma visão otimista do mundo saído das mãos de Deus, “Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra”, e se há o mal, a culpa recai nas criaturas que pecaram e caíram. Posto que é um ser caído, o homem tem necessidade de um Salvador para elevar-se até Deus. Mas se o homem não reconhece seu Criador, tem de introduzir “Deus” em seu foro interior, fazendo, assim, “Deus” à sua imagem e semelhança. Neste caso, “Deus” é uma criação do homem, é o homem que toma consciência de si mesmo. Tudo está contido no homem que, mediante evolução progressiva, torna-se “Deus” por suas próprias forças. A religião em que o homem se autodiviniza e adora a si mesmo é a negação do pecado original e a rejeição do Salvador. Estamos no coração da heresia modernista.

Essa divisão das crenças e da cultura em duas posturas antagônicas constitui o enredo da História considerada em seu conjunto. O primeiro homem sucumbiu à mesma tentação de Lúcifer, a de querer ser como Deus. E, depois do pecado original, a história das religiões, quer dizer, a História simplesmente, é um perpétuo recomeço. Os persas seguem Zoroastro e a religião maniquéia dos dois deuses do bem e do mal; os budistas seguem os hinduístas com sua filosofia panteísta (o mundo é Deus), e rumam em direção à “perfeição” do nada, que chamam de nirvana — extinção — por meio da autoconsciência e do espírito[21]. No século III, a gnose maniquéia retoma as mesmas ideias panteístas ensinando precisamente o contrário da doutrina cristã. Três princípios conjugados lhes dão coesão: a desvalorização do cosmo; o vôo místico para o mais além; e o meio para realizar este voo místico, a gnose ou o conhecimento esotérico. Os gnósticos negam absolutamente o pecado original universal e a necessidade de um Redentor[22]. Longe de sermos seres caídos, somos seres divinos que, sem culpa da nossa parte, fomos atirados em um universo cruel, inexplicável e caótico. Da Criação maligna, os gnósticos deduzem que o homem tem de libertar-se deste mundo para se divinizar, mediante um “êxodo” ou viagem mística. Como o único caminho racional que conduz a Deus, a Criação boa, lhe está fechado, o homem tem de inventar um caminho gnóstico, a descoberta do “sagrado”, que o eleva por suas próprias forças até a divindade.

A crença panteísta tem sete vidas. Nesse ponto, a História corrobora o que já a teologia ensinava anteriormente sobre a origem única de todas as heresias. O panteísmo repete no homem o pecado de Lúcifer e dos anjos rebeldes, e não é nada surpreendente que todas as heresias deitem nele as suas raízes. A mesma tentação de um Deus imanente, do homem que faz Deus a sua imagem, existe há mais de vinte séculos. Passou sucessivamente por Confúcio e Buda, no século VI antes de Cristo, à cabala farisaica, ao maniqueísmo dos séculos II e III, e ao bramanismo. Voltamos a encontrá-la no milenarismo, depois no catarismo do século XIII, e finalmente em Jakob Böhme e Baruch Spinoza, no século XVII[23]. Curiosamente, observa-se um recrudescimento das mesmas tendências imanentistas e panteístas no século XVIII, o século da maçonaria, o século dos filósofos “deístas”, que seriam melhor chamados de ateus. Os novos magos são legião: Rousseau, Voltaire, os enciclopedistas, Kant e Hegel, Nietzsche e Marx. Sua linguagem é direta quando descrevem o “assassinato de Deus”, a “Sexta-feira Santa especulativa” de Hegel e o “Deus está morto” de Nietzsche. Vimos como os protestantes modernistas do século XIX estavam imbuídos das mesmas tendências, com Schleiermacher e Strauss. Os modernistas católicos do início do século XX foram contaminados por essas idéias deletérias. Bergson e Le Roy, Hébert e Loisy, Blondel e Tyrrell, professaram todos de maneira mais ou menos matizada sua fé num Deus que existe dentro da mente humana.

Assim, quando Teilhard chega ao campo das idéias depois do período modernista, só precisa consultar seus predecessores para continuar os seus temas habituais. Possivelmente foi buscar também em Madame Blavatsky e seu movimento teosófico, nascido pouco depois de Darwin[24]. Teilhard não esconde que suas idéias exalam o odor do maniqueísmo[25]. De fato, a síntese de Teilhard faz progredir a causa panteísta ao lhe dar coesão. Até então, os mestres haviam sentido dificuldade em unir as duas pontas da cadeia: a queda da criação material e a salvação terrestre. A Teilhard coube o mérito de tê-las unido. Ele é o arauto da Igreja sincretista, onde o homem salva-se por si mesmo ao alcançar o Ponto Ômega. Mas para que esta “Boa Nova da salvação por si” seja aceita, é preciso, que seja apresentada sob os auspícios da “criação por si” darwiniana. Melhor que os maniqueus e os alemães, Teilhard descreve perfeitamente a relação íntima entre a “criação por si” e a “salvação por si”, graças ao incessante processo da evolução. Se os átomos se uniram em moléculas, e as moléculas em seres vivos de todas as classes, por que a humanidade não poderia se unir por si mesma na Nova Jerusalém? A Jerusalém apocalíptica é o Corpo místico de Cristo, o “Super-homem” que começa a se formar diante de nossos próprios olhos, pelo esforço único do homem, através das façanhas da tecnologia e do aparecimento dos Superestados. E esta “superevolução” pretende continuar a evolução darwiniana das formas orgânicas.

Se a religião panteísta sempre existiu como fenômeno oculto transmitido pela maçonaria e pelas seitas, agora dispõe de uma generosa difusão no recente movimento, embora já muito poderoso, da New Age. É suficiente citar a profissão de fé feita por um jornalista partidário desta Nova Era de Aquário para compreender a influência panteísta, hegeliana, teilhardiana, e por que não confessá-lo, luciferiana, desse movimento:

“O universo em sua totalidade é um ser espiritual, vivo e consciente, do qual nós todos fazemos parte. Esta Consciência, chamem-na  de ‘Deus’ ou do nome que lhes convier, está habitada por aspectos de si mesma, quer dizer, por seres conscientes. O universo não é mais que uma única e mesma vibração, o Amor! A partir do Amor, as consciências desejam ser geradas, como aspectos vibratórios, como sombras, como fontes luminosas. Os seres humanos criaram-se a si mesmos para experimentar o amor, a inteligência, a matéria e a ação. Atravessamos uma série de vidas encarnadas e desencarnadas que nos conduzirá à fusão final com a Consciência Única, que é a identidade subjacente de tudo o que existe no universo, e é a origem e o destino de todos os seres separados. É preciso preparar o futuro da humanidade, o Homem Novo, um ser de quem nós ainda não podemos ter idéia de como será, como tampouco podemos suspeitar em que consistirá a originalidade da Consciência coletiva humana. A missão que cabe a nós, homens da Nova Era, é conduzir todos os seres humanos capazes de ser receptivos ao estado de consciência anterior à queda. Pouco a pouco, esta nova consciência se introduzirá nas atividades cotidianas dos homens e, cada vez mais, as células humanas individuais tomarão consciência do que acontece. A mudança acontecerá a uma velocidade exponencial”[26].

 

4. Discípulos e continuadores de Teilhard

Teilhard está morto e enterrado há algum tempo. Assim também a maior parte de suas obras. O teilhardismo, por outro lado, tem se portado bem. Com a revolução vaticana, Teilhard obteve não só o direito de cidadania, mas o trono de monarca absoluto nos meios eclesiásticos influentes. Se seus primeiros livros destilavam veneno em doses mais ou menos homeopáticas, nos últimos, o veneno corria aos borbotões. As primeiras publicações passavam de mão em mão entre bons amigos. Assim que foi atacado, seus amigos fizeram coro para defender aquele mártir da boa causa. Aproveitaram a ocasião para injuriar seus oponentes e injetar mais evolucionismo teilhardiano nas veias de leitores ingênuos. De Lubac, embora negasse ser teilhardiano, foi seu maior protetor e promotor antes e depois da censura romana. Já falamos também de Von Balthasar, que se inclinou seriamente às doutrinas do seu amigo. Mesmo se, em 1919, Blondel se escandalizava com as afirmações exageradas de uma ação demasiado naturalista e física de Cristo no mundo, manteve, ainda assim, uma grande admiração por este amigo de seus amigos.

“Compartilho também em tudo (como sempre o fiz) as idéias e sentimentos do padre Teilhard sobre o problema cristológico”[27].

Por fim, resta apenas acrescentar algumas palavras sobre a geração seguinte.

Ratzinger cita-o elogiosamente por ter repensado as relações do homem com Cristo a partir da imagem atual do mundo. Não hesita em mesclar o sonho de Teilhard com a cristologia de São Paulo.

“A partir daí, a fé verá em Cristo o começo de um movimento que introduz cada vez mais a humanidade dividida no ser de um único Adão, de um único ‘corpo’, no ser do homem futuro. Verá em Cristo o movimento para este porvir do homem, em que este se compreenderá totalmente ‘socializado’ e incorporado ao Único. Cristo, o último homem: mais que homem, o homem verdadeiro, o mais ilimitado, que não só entra em contato com o Infinito, mas que é um com ele: Jesus Cristo. Nele, o processo de hominização chega realmente a seu termo”[28].

O Papa Paulo VI manifesta também sua amizade por esse arauto dos novos tempos. Em uma entrevista com o padre Boyer, um dos adversários mais encarniçados de Teilhard, o Papa o exorta vivamente a reabilitar simultaneamente Teilhard e De Lubac. Boyer, sob o efeito da pressão pontifícia, é obrigado a escrever a De Lubac, assinalando

“a grande estima que [o Papa] sente por sua pessoa e seus escritos. Ao mesmo tempo, expressou, apesar de algumas reservas, uma apreciação sobre o padre Teilhard que não desagradaria ao senhor. Minhas reflexões me levaram a pensar, pois, que nesse congresso nós deveríamos ouvir uma exposição favorável ao pensamento do padre Teilhard de Chardin”[29].

O futuro João Paulo II estava familiarizado com Teilhard há muito tempo, pois, de acordo com os estudiosos, ele é o autor que cita mais frequentemente, junto com De Lubac. Imitando-o, pensa que a evolução serve de explicação em matéria religiosa, o que chama de historicismo do dogma. O Papa compartilha sua visão escatológica e a aplicou particularmente para o ano 2000. Acredita também na salvação coletiva da humanidade[30]. Sua admiração por Teilhard iguala-se a de Paulo VI. Em 1981, por razão do centenário do nascimento de Teilhard, João Paulo II enviou uma carta ao Instituto Católico de Paris que

“manifestava uma atitude da Santa Sé que lhe era [a Teilhard] bastante favorável, dissipando assim os temores difundidos por teólogos de rara falta de inteligência e grande agressividade; e exaltava a maravilhosa repercussão das suas investigações, ao mesmo tempo que o brilho da sua personalidade e a riqueza do seu pensamento”[31].

Teilhard foi definido ali como

“um homem cativado por Cristo no mais profundo do seu ser, solícito por honrar ao mesmo tempo a fé e a razão, respondendo deste modo, quase com antecipação, a invocação de João Paulo II”.

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*    *

A teologia de Teilhard[32] situa-se na linha do modernismo panteísta dos Schleiermacher, dos Loisy e dos Tyrrell. Apresenta, inclusive, o mesmo desprezo pela razão[33]. Sacrifica os dogmas mais fundamentais da fé católica: o pecado original, Deus e o Salvador. Oferece incenso aos mitos da Evolução e do Homem, e à salvação universal pelo homem e para o homem. É evidente que Teilhard afirmou coisas contrárias à fé, para quem o compara aos inimigos da Igreja, que souberam usar as teses do paleontólogo jesuíta. Alguns dos seus amigos não duvidam em definir cruamente sua obra:

“Teilhard de Chardin cometeu o pecado de Lúcifer que Roma reprovara nos maçons: no fenômeno da ‘humanização’, o homem é que se encontra no primeiro plano. Quando a consciência alcança seu apogeu, o Ponto Ômega, como diz Teilhard, o homem será tal como nós o desejamos, livre em sua carne e em seu espírito. Assim, Teilhard pôs o homem no altar e, ao adorá-lo, não pôde adorar a Deus”[34].

Seria Teilhard um maçom que vendeu sua alma ao diabo, animado a destruir para construir o novo? Não. Carecia totalmente de espírito prático. Terá servido conscientemente à anti-Igreja para destruir o Reino de Cristo a partir do seu interior? Não se pode ter certeza. Mas fato é que, atuando sozinho no terreno minado da evolução, fez mais pela causa dos inimigos da Igreja do que se o ataque tivesse vindo de fora. Ninguém jamais injetara o veneno modernista da ciência “pura” e do revolucionismo religioso como Teilhard. É preciso reconhecer que seu sistema chega na hora certa para servir aos projetos tanto maçônicos quanto modernistas, pois a nova formulação teilhardiana dos dogmas cristãos é o meio para transformar a Igreja e integrá-la — ou melhor dizendo, desintegrá-la — em uma Superigreja universal. 

Tradução: Ricardo Bellei

 Fonte: Permanencia


[1] Malachi Martin, The Jesuits, p. 286.

[2] Harmorização, hominização, cristogênese, cristificação, plerominização, excentração, etc.; a cadeia de palavras híbridas e indefinidas é longa.

[3] Em De Lubac, La pensée religieuse, p. 328.

[4] Em dom Frénaud, Estudio crítico sobre Teilhard, pp. 6-9.

[5] Em Frénaud, p. 18.

[6] Em Frénaud, p. 11.

[7] Opúsculo Le Christique, em Frénaud, p. 19.

[8] Em Frénaud, Ibid.

[9] Em Courrier II, p. 101, texto de Teilhard explicado no mesmo sentido panteísta por Ratzinger, em La foi chrétienne, hier et aujourd’hui, p. 162.

[10] Citado por Garrigou-Lagrange, capítulo 19.

[11] Muito tempo depois o grande público soube que Teilhard, durante 25 anos, havia sido amante da escultora Lucile Swan, protestante divorciada, segundo relata Mantovani em Avvenire, 14 de fevereiro de 1995, p. 17.

[12] Sinanthropus (Pithecanthropus pekinensis). (Nota do Tradutor).

[13] Em Philippe de la Trinité, Rome et Teilhard de Chardin, pp. 72-74.

[14] Isto supõe afirmar o poligenismo, que despreza o dogma do pecado original universal, o qual exige, ao contrário, a existência de um só casal nas orígens da humanidade.

[15] Dietrich von Hildebrand, The Trojan Horse, apêndice, p. 227. Contra a vontade do autor, o apêndice foi suprimido na tradução francesa do livro (Savoir I, p. 74).

[16] Teilhard, Le Cœur de la matière, em Frénaud, pp. 14-15.

[17] Em Philippe de la Trinité, p. 163.

[18] Carta de 14 de janeiro de 1954, em Philippe de la Trinité, p. 168.

[19] Comment je crois, texto datado de 1934, citado pelo Osservatore Romano de 1 de julho de 1962, apresentando o Monitum do Santo Ofício, em Philippe de la Trinité, p. 190.

[20] Meinvielle, De la cábala al progresismo, conclusão.

[21] Esta é, ao menos, a visão da escola Mahayana, que será retomada substancialmente pelo budismo Zen. Pretende, como Heráclito, que o movimento existe, e que não coisas e nem mesmo pessoas, entendidas como substâncias. O mundo é essencialmente vazio (sunyata) e aquilo que consideramos como coisas depende tanto do Grande Todo monista como do pensamento humano. O homem compreende a harmonia de todas as coisas quando entende que o mundo vazio, o eu não-ser e o nirvana-extinção são iguais. Isto se consegue, em última instância, pelo Zen — meditação — religioso e filosófico que considera o «eu» como o que é na realidade, quer dizer, vazio, apagado e, definitivamente, um «não-eu» (em Cooper, World of Philosophies, pp. 40-44, 214-222).

[22] Na doutrina católica, tudo se sustenta reciprocamente ou tudo desmorona. A redenção é correlativa ao dogma do pecado original. Santo Agostinho, paradoxalmente, demostrou a existência do pecado original, entre outras razões, pela fé no Salvador do gênero humano.

[23] Meinvielle, De la Cábala al progresismo, passim; Molnar, Le Dieu inmanent. Todas as religiões orientais (budista, brahmanista, hinduista) são amplamente sincretistas e são enriquecidas com as recentes contribuições que têm modificado notavelmente seus credos.

[24] O teosofismo nega a existência de um Deus pessoal e criador de todas as coisas. Segundo esta teoria, Deus é idêntico e consubstancial ao mundo, a matéria com o espírito. Por outro lado, distingue o Cristo singular (o Deus antropomórfico que, de acordo com eles, é somente um sábio como Buda) do Cristo universal. Veja Hugon, Les 24 thèses thomistes, pp. 80-86; Action familiale et scolaire, «Connaissance élémentaire du Nouvel Âge», suplemento do número 94, pp. 52-53.

[25] Escreve em L’union créatrice: «[Minha concepção] sugere que a criação não foi absolutamente gratuita, mas que representa uma obra de interesse quase absoluto. Tudo isto redolet manicheismum… É verdade, mas, sinceramente, podem-se evitar estes obstáculos — ou melhor dizendo, estes paradoxos — sem cair em explicações puramente verbais?» (em Frénaud, p. 15).

[26] Eric Pigani, Channel, les médiums du Nouvel Âge. Os itálicos são nossos.

[27] Blondel, 5 de dezembro de 1919, em Courrier II, p. 175.

[28] Ratzinger, La foi chrétienne, hier et aujourd’hui, pp. 159-163, em Courrier II, pp. 100-101.

[29] Courrier II, p. 92.

[30] Ver capítulo 24.

[31] La sapienza della Croce, abril-junho de 1996, p. 137, em Courrier II, p. 120.

[32] A título de curiosidade, o escritor Morris West, em sua obra “As Sandálias do Pescador” (The shoes of the Fisherman – publicado em 1963) e, depois, no filme homônimo (1968), retratou Teilhard de Chardin como o controverso Padre Jean Tellemond (interpretado por Oscar Werner), amigo pessoal do “papa russo” Kiril Lakota (interpretado por Anthony Quinn) e inimigo confesso do então Santo Ofício. A semelhança com a realidade é realmente impressionante. (Nota do Tradutor)

[33] F. Brunelli, Principi e metodi di massoneria operativa, pp. 66-84: «A iniciação instrui e ensina: Morte à razão! Somente quando a razão morrer poderá nascer o homem novo da Era futura, o verdadeiro iniciado. Somente assim poderão cair as muralhas dos templos, porque a aurora de uma nova humanidade surgirá no Oriente… Todas as disputas (religiosas) desaparecerão com o rechaço da lógica e do princípio de contradição» (em Courrier I, p. 409).

[34] J. Mitterrand em René Valvève, Teilhard l’apostat, p. 52, em Courrier I, p. 417.