OS FALSOS CRISTÃOS QUE ESTÃO NO INFERNO

DAS PENAS DO INFERNO – PONTO I | DOMINUS ESTUm dia São Macário encontrou uma caveira e, depois de rezar, perguntou-lhe de quem tinha sido a cabeça.

A caveira respondeu que fora pagão, e Macário indagou: “onde está sua alma?”

Ela respondeu: “no inferno!”

Ele perguntou então se o local em que estava era muito profundo, e ela respondeu que sua profundidade é igual a distância da Terra ao céu.

Macário: “há outros que estejam mais abaixo?”

Ela: “sim, os Judeus!”

Macário: “e abaixo dos judeus, há alguém?”

E ela: “os mais afundados de todos são os falsos cristãos, que desperdiçam o sangue de Cristo pelo qual foram redimidos!”

Trecho da Legenda Áurea, Vida dos Santos. n. 18, pág 165

NO INFERNO SOFRE-SE SEMPRE

Picture-of-HellCruciabuntur die ac nocte in saecula saeculorum — “Serão atormentados dia e noite pelos séculos dos séculos” (Apoc. 20, 10).

Sumário. Consideremos que o inferno é um cárcere tristíssimo, no qual se sofrem todas as penas e todas elas eternamente. De sorte que passarão cem anos, passarão mil, e o inferno apenas terá começado. Passarão cem mil séculos, passarão cem milhões, e o inferno estará ainda no seu princípio. Ora, esse inferno nos está também preparado, se não nos aplicarmos ao serviço de Deus, se O ofendermos pelo pecado. Quantos dentre os que, como nós, meditaram nesse horroroso cárcere, estão agora nele queimando para sempre!

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Considera que o inferno não tem fim; sofrem-se nele todas as penas, e todas elas eternamente. De sorte que passarão cem anos de sofrimentos, passarão mil, e o inferno terá apenas começado. Passarão cem mil, cem milhões, mil milhões de anos e de séculos, e o inferno estará ainda no seu princípio. — Se um anjo fosse nesta hora dizer a um réprobo que Deus o quer livrar do inferno, mas quando? Quando tiverem passado tantos milhões de séculos quantas são as gotas de água, as folhas das árvores, e os grãos de areia que existem no oceano e na terra, vós haveríeis de ficar pasmos; mas a verdade é que aquele réprobo sentiria mais alegria com tal notícia do que vós se vos dessem a notícia de haverdes sido eleito rei de um grande reino. Sim, porque o réprobo diria consigo: é verdade que devem passar tantos séculos, mas chegará o dia em que terminarão. Porém, os séculos hão de passar, e o inferno estará no seu princípio; suceder-se-á tantas vezes igual número de séculos, quantos são os grãos de areia, as gotas de água, as folhas das árvores, e ainda o inferno estará no seu princípio. — Cada réprobo de boa vontade proporia a Deus esta condição: Senhor, aumentai as minhas penas tanto quanto vos aprouver; prolongai-as tanto quanto for da vossa vontade, mas ponde-lhe um termo qualquer dia e ficarei contente. Mas não, esse fim nunca chegará.

Se o pobre réprobo pudesse ao menos iludir-se e consolar-se dizendo: quem sabe? Talvez um dia Deus se apiede de mim e me livre do inferno! Mas não, o desgraçado réprobo terá incessantemente diante da vista a sentença de sua condenação eterna, e dirá: todas as penas que agora estou sofrendo, o fogo, os lamentos, nunca mais terão fim? Nunca! E quanto tempo durarão? Sempre, sempre! Ó nunca! Ó sempre! Ó eternidade! Ó inferno! Como? Os homens o crêem, e pecam e continuam a viver no pecado? Continuar lendo

A PENA DA PERDA DE DEUS É O QUE FAZ O INFERNO

infernoIniquitates vestrae diviserunt inter vos et Deum vestrum — “As vossas iniqüidades fizeram uma separação entre Vós e vosso Deus” (Is. 59, 2)

Sumário. A malícia do pecado mortal consiste no desprezo da graça divina e na perda voluntária de Deus, o Bem supremo. Com toda a justiça, pois, a maior pena do pecador no inferno é tê-lo perdido, sem esperança de O tornar a achar. Se quisermos ter uma garantia de não incorrermos em tamanha desgraça, demo-nos inteiramente e sem reservas ao Senhor. O que não se dá inteiramente a Deus ou o serve com tibieza, corre grande risco de O perder para sempre.

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A gravidade da pena deve corresponder à gravidade do delito. Os teólogos definem o pecado mortal por estas duas palavras:aversio a Deo— “aversão de Deus”. Eis, pois, em que consiste a malícia do pecado mortal: consiste no desprezo da graça divina e na perda voluntária de Deus, o Bem supremo. Pelo que com toda a justiça a maior pena do pecador no inferno é o ter perdido a Deus.

São grandes as demais penas do inferno: o fogo que devora, as trevas que obcecam, os uivos dos condenados que ensurdecem, o mau cheiro que faria morrer aqueles desgraçados se pudessem morrer, a estreiteza que os oprime e lhes tolhe a respiração; mas todas estas penas nada são comparadas com a perda de Deus. No inferno os réprobos choram eternamente, mas o objeto mais amargoso do seu choro é o pensar que perderam a Deus pela sua culpa.

Ó Deus, que grande bem perderam eles! Durante esta vida os objetos que nos rodeiam, as paixões, as ocupações temporais, os prazeres dos sentidos, as contrariedades não nos deixam contemplar a beleza e bondade infinita de Deus. Mas uma vez que a alma sai do corpo, reconhece logo que Deus é um bem infinito, infinitamente formoso, e digno de amor infinito. E sendo que foi criada para ver e amar esse Deus, quisera logo elevar-se a Ele e com Ele unir-se. Como, porém, está em pecado, acha levantado um muro impenetrável, quer dizer, o pecado mesmo que lhe fecha para sempre o caminho para Deus: As vossas iniqüidades fizeram uma separação entre vós e o vosso Deus. — Meu Senhor, graças Vos dou, porque não me foi ainda fechado este caminho, como tinha merecido, e porque posso ainda ir para Vós. Peço-Vos, não me repilais! Meu Jesus, com Santo Inácio de Loyola Vos direi: Aceito toda a pena, mas não a de ser privado de Vós. Continuar lendo

DESESPERO DOS RÉPROBOS NO INFERNO

inferMortuo homine impio, nulla erit ultra spes — “Morto o homem ímpio, não restará mais esperança alguma” (Prov. 11, 7).

Sumário. Enquanto o pecador vive, há sempre esperança de conversão; mas quando a morte o arrebatou no estado de pecado, não lhe resta mais esperança alguma e verá sempre diante dos olhos a sentença de sua eterna condenação. Sim, porque o inferno tem uma porta de entrada, mas não de saída. O que o réprobo começa a sofrer no primeiro dia da sua entrada, terá de sofrê-lo sempre. Qual não seria, pois, o nosso desespero, se por desgraça nos viessemos a condenar!… Ó Pai Eterno, pelo amor de Jesus Cristo, castigai-me como quiserdes, mas poupai-me na eternidade.

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Quem entra uma vez no inferno, nunca mais dele sairá. Este pensamento fazia Davi exclamar tremendo: “Ó Senhor, não me afogue a tempestade, nem me absorva o mar profundo, nem cerre o poço a sua boca sobre mim.” (1) Mal cai um réprobo neste poço de tormentos, logo se fecha a entrada e não se abre mais. O inferno tem uma porta de entrada, mas não de saída, diz Eusébio Emisseno: Descensus erit, ascensus non erit. Eis como ele explica as palavras do salmista: Não cerre o poço a sua boca sobre mim: Enquanto vivo, pode o pecador ter esperança de conversão, mas se a morte o surpreender no estado de pecado, perdê-la-á para sempre: Morto o homem ímpio, não restará mais esperança alguma.

Se os condenados pudessem ao menos embalar-se em alguma falsa esperança e assim achar algum alívio na sua desesperação! O homem enfermo mortalmente e estendido no leito, apesar de desenganado pelos médicos, ainda busca iludir-se e consolar-se dizendo: “Quem sabe se ainda não se encontra um médico ou um remédio que me possa curar?” Um criminoso condenado às galés perpétuas acha também uma consolação neste pensamento: “Quem sabe se algum acontecimento não me tirará destas cadeias?” Se o réprobo pudesse ao menos dizer igualmente: “Quem sabe se um dia não sairei desta prisão?” E assim iludir-se com alguma falsa esperança. Mas não: no inferno não há esperança, nem verdadeira nem falsa; não há o quem sabe.

Statuam contra faciem (2) — “Eu t´o porei diante de tua face”. O desgraçado réprobo terá incessantemente diante da vista a sentença que o condena a gemer eternamente nesse abismo de sofrimentos. O condenado não sofre somente a pena de cada instante, mas sofre a cada instante a pena da eternidade, vendo-se obrigado a dizer: O que sofro atualmente, sofrê-lo-ei sempre. Pondus aeternitatis sustinent, diz Tertuliano: os réprobos gemem sob o peso da eternidade. Continuar lendo

DAS PENAS DO INFERNO

infOmnis dolor irruet super eum — “Toda a sorte de dores virá sobre ele” (Iob 20, 22).

Sumário. É artigo de fé que há um inferno, isto é, uma prisão miserabilíssima toda cheia de fogo, onde cada sentido e cada faculdade do réprobo sofrem uma pena particular. Enquanto fazemos esta meditação, tantos cristãos desgraçados, talvez da mesma idade que nós, talvez conhecidos nossos, estão ardendo nessa fornalha ardente, sem a mínima esperança de saírem de lá. Reflete agora, meu irmão: qual é o estado de tua consciência? Se o Senhor te deixasse morrer na primeira noite, para onde iria a tua alma?

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Considera que o inferno é uma prisão miserabilíssima, toda cheia de fogo. Nesse fogo estão submergidos os réprobos, tendo um abismo de fogo acima de si, um abismo ao redor de si e um abismo abaixo de si. Fogo há nos olhos, fogo na boca, fogo por todos os lados.

Cada um dos sentidos sofre a sua pena própria. Os olhos são cegados pela fumaça e pelas trevas, e aterrados pela vista dos outros condenados e réprobos. Os ouvidos ouvem dia e noite urros, gemidos e blasfêmias. O olfato é empestado pelo mau cheiro daqueles inumeráveis corpos infectos. — O gosto é atormentado por uma sede ardentíssima e uma fome devoradora sem jamais obter uma gota de água nem um pedaço de pão. Por isso os desgraçados prisioneiros, ardendo em sede, devorados pelo fogo, cruciados por toda a espécie de tormentos, choram, urram e se desesperam. Mas não há, nem haverá jamais, quem os alivie ou console. Oh inferno, oh inferno! Como é que alguns não querem crer em ti, senão quando se vêem precipitados dentro de ti!

Considera depois as penas que sofrerão as faculdades da alma. A memória será atormentada pelo remorso de consciência. O remorso é aquele verme que está roendo sempre no condenado ao pensar que se condenou por culpa própria, por uns poucos prazeres envenenados. Oh meu Deus! Como se lhe afigurarão aqueles prazeres momentâneos depois de cem, depois de mil milhões de anos? O verme do remorso lhe recordará o tempo que Deus lhe deu para salvação; a facilidade que teve de se salvar; os bons exemplos dos companheiros; as resoluções tomadas, mas não cumpridas. Verá então que não pode mais remediar a sua ruína eterna. Oh meu Deus, meu Deus! Que inferno no inferno será este! — A vontade será sempre contrariada; não terá nada do que deseja e terá sempre aquilo que não quer, isto é, toda a espécie de tormentos. O entendimento conhecerá o grande bem que perdeu, a saber: Deus e o paraíso. – Ó Senhor, perdoai-me, pelo amor de Jesus Cristo! Continuar lendo

“ESTOU PREPARANDO O FOGO QUE ME HÁ DE QUEIMAR”

Imagem relacionadaFonte: Capela Santo Agostinho

Por um instante de prazer, uma eternidade de suplícios

Meus, filhos, nós temos medo da morte, bem o creio. É o pecado que nos faz ter medo da morte. É o pecado que torna a morte horrorosa, tremenda. É o pecado que apavora o mau na hora do terrível trânsito para a eternidade.

Ai, meu Deus, há realmente de que ficar apavorado: pensar que se é amaldiçoado! Amaldiçoado por Deus, isto faz tremer. Maldito de Deus! E por quê? Por que os homens expõem-se a ser amaldiçoados por Deus? Por uma blasfêmia, por um mau pensamento, por uma garrafa de vinho, por dois minutos de prazer perder a Deus, a própria alma, perder o céu para sempre.

Ver-se-á subir ao céu em corpo e alma, esse pai, essa mãe, essa irmã, esse vizinho, que estavam lá junto de nós, com quem havíamos vivido, mas a quem não imitamos, ao passo que nós desceremos em corpo e alma ao inferno par aí ardermos. Os demônios rolarão sobre nós. Todos aqueles cujos conselhos houvermos seguido virão atormentar-nos.

Meus filhos, se vísseis um homem erguer uma grande fogueira, amontoar gravetos uns sobre os outros e, perguntando-lhe o que faz ele, vos respondesse: “Estou preparando o fogo que me há de queimar” que pensaríeis? E se vísseis esse mesmo homem aproximar-se à chama da fogueira e, quando estivesse acessa, precipitar-se dentro, que diríeis? Cometendo o pecado, é assim que fazemos. Não é Deus que nos lança no inferno, somos nós que nos lançamos nele pelos nossos pecados. O condenado dirá; “Perdi Deus, minha alma e o céu. Foi por minha culpa, por minha culpa, por minha máxima culpa.”

Não, verdadeiramente, se os pecadores pensassem na eternidade, nesse terrível SEMPRE, converter-se-iam in continenti. Faz perto de seis mil anos que Caim está no inferno, e parece que acabou de entrar nele.

 (Pensamentos do Cura d”Ars)

REMORSO DO CONDENADO POR CAUSA DO BEM QUE PERDEU

condePerditio tua, Israel; tantummodo in me auxilium tuum — “A tua perdição, ó Israel, toda vem de ti; só em mim está o teu auxílio” (Os. 13, 9).

Sumário. O que mais atormenta o réprobo no inferno é o ver que perdeu o céu e o Bem supremo, que é Deus; e perdeu-O não por qualquer acidente ou por malevolência d´outrem, mas por sua própria culpa.Meu irmão, se no passado nós também tivemos a insensatez de renunciar por malícia própria ao paraíso, remediemo-lo enquanto houver tempo, antes que tenhamos de chorar eternamente a nossa desgraça. Talvez seja este o último apelo que Deus nos dirige.

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O tormento mais feroz do réprobo será reconhecer o grande bem que perdeu. Segundo São João Crisóstomo, os réprobos sentirão mais aflição pela perda do paraíso que pelos tormentos do inferno: Plus coelo torquentur, quam gehenna. — Refere-se que a infeliz Isabel, rainha de Inglaterra, disse: “Conceda-me Deus quarenta anos de reinado e renuncio ao paraíso.” Teve a infeliz esses quarenta anos de reinado; mas que dirá agora, que a sua alma saiu deste mundo? Sem dúvida já não pensa da mesma forma. Como não deve estar aflita e desesperada, ao pensar que, por quarenta anos de reinado, passados em temores e angústias, perdeu para sempre o reino celestial?

Mas, o que por toda a eternidade afligirá mais o réprobo será reconhecer que perdeu o céu e o soberano bem que é Deus, e que o perdeu não por algum mau acidente, nem pela malevolência d´outrem, mas por sua própria culpa. Verá que foi criado para o paraíso, verá que Deus lhe pôs na mão a escolha entre a vida e a morte eterna: Ante hominem vita et mors… quod placuerit ei dabitur illi (1). Verá, pois, que esteve na sua mão, se quisera, o tornar-se eternamente feliz. Mas verá igualmente que de seu motuproprio se quis precipitar nesse abismo de suplícios, de onde nunca poderá sair e de onde ninguém o procurará livrar.

Verá então o miserável que muitas pessoas de seu conhecimento, que passaram pelos mesmos, quiçá por maiores perigos de pecar, chegaram à salvação, ou porque se souberam conter recomendando-se a Deus, ou, se caíram, souberam levantar-se a tempo e dar-se a Deus. Ele, porém, por não ter querido pôr um termo a suas desordens, veio a acabar tão deploravelmente no inferno, nesse mar de tormentos, sem esperança de poder remediar a sua desgraça. Oh, que cruel remorso! Oh, que desespero lancinante! Continuar lendo

MORTE CONTINUA NO INFERNO

Picture-of-HellSicut oves in inferno positi sunt; mors depascet eos — “Como ovelhas são postos no inferno; e eles serão pasto na morte” (Ps. 48, 15).

Sumário. O que os pecadores mais receiam na terra é a morte, mas no inferno será a morte o que mais desejarão e nunca obterão. Ali a morte fará seu repasto nos condenados; mata-os a todos os instantes, mas deixa-lhes a vida para continuar eternamente a infligir-lhes o mesmo tormento. Se quisermos evitar tamanha desgraça, lembremo-nos freqüentes vezes da eternidade no tempo de vida que nos resta, e meditemos nestas duas palavras: Sempre! Nunca! Quantos grandes pecadores se converteram por meio desta meditação e são agora grandes Santos no céu!

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I. Nesta vida a morte é para os pecadores a coisa mais temida; mas no inferno será a mais desejada. “Eles procurarão a morte”, diz São João, “e não a encontrarão; desejarão morrer, e a morte fugirá deles.” (1) Por isso escreve São Jerônimo: “Ó morte, quão doce serias para aqueles que outrora a acharam amaríssima!” Diz Davi que a morte fará o seu repasto nos condenados: Mors depascet eos. Destas palavras São Bernardo dá a seguinte explicação: A ovelha, quando anda pastando, come apenas a verdura da erva, deixando as raízes; é assim que a morte trata os condenados: mata-os a todos os instantes, mas deixa-lhes a vida para continuar eternamente a matá-los. De sorte que, conclui São Gregório, o condenado morre a todos os momentos sem nunca morrer: Flammis ultricibus traditus, semper morietur.

Quando alguém agoniza no meio de sofrimentos, todos têm compaixão dele. Se ao menos o condenado tivesse uma pessoa que se compadecesse! Mas não; o miserável morre de dor a todos os instantes e nunca haverá quem tenha pena dele. Encerrado numa sombria prisão, o imperador Zenon gritava: Abri por piedade! Como ninguém o atendesse, acharam-no morto de desespero, havendo devorado os próprios braços. Os condenados gritam do fundo do inferno, diz São Cirilo de Alexandria, mas ninguém os irá libertar, ninguém deles se compadecerá. Nemo eripit, nemo compatitur!

E quanto tempo durará este misérrimo estado? Sempre, sempre! Lê-se nos Exercícios espirituais do Padre Segneri que um dia, em Roma, se perguntou ao demônio, na pessoa de um possesso, quanto tempo devia ficar no inferno. Ao que o demônio respondeu com raiva, batendo com a mão numa cadeira: Sempre! Sempre! O espanto foi tão grande, que muitos moços do Seminário Romano que estavam presentes fizeram logo confissão geral e mudaram de vida, feridos por este terrível sermão em duas palavras: Sempre! Sempre! Continuar lendo

REMORSOS DO CONDENADO – PONTO III

Resultado de imagem para remorso condenadoConsiderar o grande Bem que perderam, será o terceiro remorso dos condenados, cuja pena, segundo São João Crisóstomo, será mais grave pela privação da glória do que pelos próprios tormentos do inferno.

Conceda-me Deus quarenta anos de reinado e renunciarei gostosamente ao seu paraíso”, disse a infeliz princesa Isabel da Inglaterra…

Obteve, de fato, os quarenta anos de reinado. Mas que dirá agora a sua alma na outra vida? Certamente, não pensará o mesmo. Que aflição e que desespero sentirá ao ver que, por reinar quarenta anos entre angústias e temores, gozando um trono temporal, perdeu para sempre o reino dos céus! Maior aflição, entretanto, sentirá o réprobo ao reconhecer que perdeu a glória e o Sumo Bem, que é Deus, não por acidentes de má sorte nem pela malevolência de outros, mas por sua própria culpa. Verá que foi criado para o céu, e que Deus lhe permitiu escolher livremente a vida ou a morte eterna. Verá que teve em sua mão a faculdade de tornar-se, para sempre, feliz e que, apesar disso, quis lançar-se, por sua livre vontade, naquele abismo de suplício, donde nunca mais poderá sair, e do qual ninguém o livrará. Verá como se salvaram muitos de seus companheiros que, não obstante terem de passar por perigos idênticos ou maiores de pecar, souberam vencê-los, recomendando-se a Deus, ou, se caíram, não tardaram a levantar-se e se consagraram novamente ao serviço do Senhor. Ele, porém, não quis imitá-los e foi cair desastrosamente no inferno, nesse mar de tormentos,onde não existe a esperança.

Meu irmão! Se até aqui foste tão insensato que, para não renunciar a um mísero deleite, preferiste perder o reino dos céus, procura a tempo remediar o dano. Não permaneças em tua loucura e teme ir chorá-lo no inferno. Quem sabe se estas considerações que lês sejam o último apelo de Deus? Se não mudares de vida e cometeres outro pecado mortal, Deus, talvez, te abandonará e te condenará a sofrer eternamente entre aquela multidão de insensatos que agora reconhecem o seu erro (Sb 5,6) e o confessam desesperados, porque não ignoram que é irremediável. Quando o inimigo te induzir a pecar, pensa no inferno e 90 recorre a Deus e à Santíssima Virgem. O pensamento do inferno poderá livrar-te do próprio inferno. “Lembra-te de teus novíssimos e não pecarás jamais” (Ecl 7,40), porque esse pensamento te fará recorrer a Deus. Continuar lendo

REMORSOS DO CONDENADO – PONTO II

Imagem relacionadaDiz São Tomás que o principal tormento dos condenados será a consideração de que se perderam por verdadeiros nadas, e que podiam ter alcançado facilmente, se o quisessem, o prêmio da glória. O segundo remorso de sua consciência consistirá, portanto, no pensar quão pouco cumpria fazer para salvar-se. Um condenado que apareceu a Santo Humberto revelou-lhe que sua maior aflição no inferno era reconhecer a indignidade do motivo que o levara à condenação e a facilidade com que a poderia ter evitado. O réprobo dirá então:

“Se me tivesse mortificado para não olhar aquele objeto, se tivesse vencido o respeito humano ou tal amizade, não me teria condenado… Se me tivesse confessado todas as semanas, se tivesse frequentado as associações piedosas, se tivesse feito todos os dias leitura espiritual e se me tivesse recomendado a Jesus e a Maria, não teria recaído em minhas culpas… Muitas vezes, resolvi fazer tudo isso, mas, infelizmente, não perseverei. Dava começo à prática do bem, mas, em breve, desprezei o caminho encetado. Por isso, me perdi”.

Aumentará o pesar causado por este remorso a lembrança dos exemplos de companheiros virtuosos e de amigos do condenado, assim como dos dons que Deus lhe concedeu para salvar-se: dons naturais, como boa saúde, fortuna e talento, que, bem aproveitados segundo a vontade de Deus, teriam servido para a santificação; dons sobrenaturais, como luzes, inspirações, convites, largos anos para reparar as faltas cometidas. O réprobo, porém, deverá reconhecer que, no estado em que se acha, já não há remédio. Ouvirá a voz do Anjo do Senhor, que exclama e jura: Continuar lendo

REMORSOS DO CONDENADO – PONTO I

Resultado de imagem para remorso condenadoVermis eorum non moritur – “O seu verme não morre” (Mc 9, 47)

Este verme que não morre nunca significa, segundo São Tomás, o remorso de consciência dos réprobos, o qual há de atormentá-los eternamente no inferno. Muitos serão os remorsos com que a consciência roerá o coração dos condenados. Mas há três que principalmente os atormentarão, a saber: o pensar no nada das coisas pelo qual o réprobo se condenou, no pouco que tinha a fazer para salvar-se e no grande Bem que perdeu. Depois que Esaú tinha comido o prato de lentilhas, preço do seu direito de primogenitura, ficou tão magoado por ter consentido na perda que, conforme a Escritura, pôs-se a rugir… (Gn 27,34). Que gemidos e clamores soltarão os réprobos ao ponderar que, por prazeres fugidios e envenenados, perderam um reino eterno de felicidade, e se veem condenados para sempre a contínua e interminável morte! Chorarão mais amargamente que Jônatas, sentenciado a morrer por ordem de Saul, seu pai, sem ter cometido outro delito do que provar um pouco de mel (1Rs 14,43). Que pesar sofrerá o condenado ao recordar-se da causa de sua ruína!… Sonho de um instante nos parece nossa vida passada.

O que hão de parecer ao réprobo os cinquenta ou sessenta anos de sua vida terrena, quando se encontra na eternidade, onde, depois de terem decorrido cem ou mil milhões de anos, vir que então aquela sua vida está começando? E, além disso, os cinquenta anos de vida na terra são, acaso, cinquenta anos de prazer? O pecador que vive sem Deus goza sempre de doçuras em seu pecado? Um momento só dura o prazer culpável; no demais, para quem vive separado de Deus, é tempo de penas e aflições… Que serão, portanto, para o infeliz réprobo esses breves momentos de deleite? Que lhe parecerá, particularmente, o último pecado pelo qual se condenou?… Continuar lendo