TUDO SE ACABA COM A MORTE – PONTO II

Resultado de imagem para cemitérioAchando-se Filipe II, rei de Espanha, às portas da morte, mandou vir seu filho à sua presença e, abrindo o mando real com que se cobria, mostrou-lhe o peito já roído de vermes, dizendo: Príncipe, vede como se morre e como se acabam todas as grandezas deste mundo. Foi com razão que Teodoreto disse que a morte não teme riquezas, nem poder, nem púrpura; e que tanto os vassalos como os príncipes se tornam presa de corrupção. Assim, todo aquele que morre, ainda que seja príncipe, nada leva consigo ao túmulo. Toda a sua glória acaba no leito mortuário (Sl 48, 18).

Refere Santo Antônio que, na morte de Alexandre Magno, exclamara um filósofo:

“Aí está quem ontem calcava a terra aos pés; hoje é pela terra oprimido. Ontem cobiçava a terra inteira; hoje basta-lhe um espaço de sete palmos. Ontem dirigia exércitos inumeráveis através do mundo; hoje uns poucos coveiros o levam ao túmulo”.

Mas escutemos, antes de tudo, o que disse o próprio Deus: “Por que se ensoberbece o pó e a cinza?” (Eclo 10, 9). Homem, não vês que és pó e cinza, de que te orgulhas? Para que te serve consumir teus anos e teu espírito em adquirir grandezas deste mundo? Virá a morte e então se dissiparão todas essas grandezas e todos os teus projetos (Sl 145, 4).

Quão preferível foi a morte de São Paulo Eremita, que viveu sessenta anos em uma gruta, à de Nero, imperador de Roma! Quanto mais feliz a morte de São Félix, simples frade capuchinho, do que a de Henrique VIII, que passou sua vida entre as pompas reais, mas sendo inimigo de Deus! É preciso considerar, porém, que os Santos, para alcançar morte semelhante, abandonaram tudo: pátria, delícias e quantas esperanças o mundo lhes oferecia, para abraçarem vida pobre e menosprezada. Continuar lendo

TUDO SE ACABA COM A MORTE – PONTO I

Resultado de imagem para cemitérioFinis venit; venit finis – “O fim chega; chega o fim” (Ez 7, 6)

Os mundanos só consideram feliz a quem goza dos bens deste mundo: honras, prazeres e riquezas. Mas a morte acaba com toda esta ventura terrestre. “Que é vossa vida? É um vapor que aparece por um momento” (Tg 4, 15). Os vapores que a terra exala, quando sobrem ao ar, sob o efeito dos raios solares oferecem, às vezes, aspecto vistoso; mas quanto tempo dura essa aparência brilhante? Ao sopro do menor vento, tudo desaparece. Aquele poderoso do mudo, hoje tão acatado, tão temido e quase adorado, amanhã, quando estiver morto, será desprezado, olvidado e amaldiçoado.

A morte obriga a deixar tudo. O irmão do grande servo de Deus Tomás de Kempis ufanava-se de ter construído casa magnífica. Um de seus amigos, porém, observou-lhe que notava um grave defeito.

– Qual? – perguntou ele.
– O defeito que encontro nela – respondeu-lhe o amigo – é que mandaste fazer uma porta.
– Como? – retorquiu o dono da casa – a porta é um defeito? – Sim – acrescentou o outro – porque virá o dia em que, por essa porta, deverás sair morto, deixando a casa e tudo o mais que te pertence.

A morte, enfim, desposa o homem de todos os bens deste mundo. Continuar lendo

RETRATO DE UM HOMEM QUE ACABA DE EXPIRAR – PONTO III

Imagem relacionadaNeste quadro da morte, caro irmão, reconhece-te a ti mesmo, e considera o que virás a ser um dia:

Recorda-te que és pó, e em pó te converterás

Pensa que dentro de poucos anos, quiçá dentro de alguns meses ou dias, não serás mais que ver vermes e podridão. Este pensamento fez de Jó um grande santo:

À podridão eu disse: tu és meu pai; aos vermes: sois minha mãe e minha irmã

Tudo se há de acabar, e se perderes tua alma na morte, tudo estará perdido para ti. ‘Considera-te desde já como morto, – disse São Lourenço Justiniano – pois sabes que necessariamente hás de morrer”. Se já estivesses morto, que não desejarias ter feito por Deus? Portanto, agora que vives, pensa que algum dia cairás morto. Disse São Boaventura que o piloto, para governar o navio, se coloca na extremidade traseira do mesmo; assim o homem, para levar a vida boa e santa, deve imaginar sempre o que será dele na hora da morte. Por isso, exclama São Bernardo:

Considera os pecados de tua mocidade e cora; considera os pecados da idade viril e chora; considera as desordens da vida presente, e estremece

E apressa-te em remediá-la prontamente.

São Camilo de Lélis, ao aproximar-se de alguma sepultura, fazia estas reflexões:

Se estes mortos voltassem ao mundo, que não fariam pela vida eterna? E eu, que disponho de tempo, que faço eu por minha alma?

Este Santo pensava assim por humildade; mas tu, querido irmão, talvez com razão receies ser considerado aquela figueira sem fruto, da qual disse o Senhor: “Três anos já que venho a buscar frutas a esta figueira, e não os achei” (Lc 13, 7). Continuar lendo

RETRATO DE UM HOMEM QUE ACABA DE EXPIRAR – PONTO II

Imagem relacionadaCristão, para compreenderes melhor o que és – disse São João Crisóstomo – “aproxima-te de um sepulcro, contempla o pó, a cinza e os vermes, e chora”. Observa como aquele cadáver, de amarelo que é, se vai tornando negro. Não tarda a aparecer por todo o corpo uma espécie de penugem branca e repugnante. Sai dela uma matéria pútrida, nasce uma multidão de vermes, que se nutrem das carnes. Às vezes, se associam a estes os ratos para devorar aquele corpo, saltando por cima dele, enquanto outros penetram na boca e nas entranhas. Caem a pedaços as faces, os lábios e o cabelo; descarna-se o peito, e em seguida os braços e as pernas. Quando as carnes estiverem todas consumidas, os vermes passam a se devorar uns aos outros, e de todo aquele corpo só resta afinal um esqueleto fétido que com o tempo se desfaz, desarticulando-se os ossos e separando-se a cabeça do tronco.

“Reduzindo como a miúda palha que o vento leva para fora da eira no tempo do estio” (Dn 2, 35). Isto é o homem: um pouco de pó que o vento dispersa.

Onde está agora aquele cavalheiro a quem chamavam alma e encanto da conversação? Entra em seu quarto; já não está ali. Visita o seu leito; foi dado a outro. Procura suas roupas, suas armas; outros já se apoderaram de tudo. Se quiseres vê-lo, acerca-te daquela cova onde jaz em podridão e com a ossada descarnada. Ó meu Deus! A que estado ficou reduzido esse corpo alimentado com tanto mimo, vestido com tanta gala, cercado de tantos amigos? Ó santos, como haveis sido prudentes: pelo amor de Deus – fim único que amastes neste mundo – soubestes mortificar a vossa carne. Agora, os vossos ossos, como preciosas relíquias, são venerados e conservados em urnas de ouro. E vossas belas almas gozam de Deus, esperando o dia final para se unir a vossos corpos gloriosos, que serão companheiros e partícipes da glória sem fim, como o foram da cruz durante a vida. Este é o verdadeiro amor ao corpo mortal: fazê-lo suportar trabalhos, a fim de que seja feliz eternamente, e negar-lhe todo prazer que o possa lançar para sempre na desdita. Continuar lendo

A MORTE DOS SANTOS É PRECIOSA

mortePretiosa in conspectu Domini mors sanctorum eius – “Preciosa é aos olhos do Senhor a morte de seus Santos” (Ps. 115, 5).

Sumário. A morte assusta os pecadores, que sabem que da primeira morte, do estado de pecado, passarão à segunda, que é eterna. A morte é, porém, o consolo das almas boas, que, confiadas nos merecimentos de Jesus Cristo, tem indícios suficientes para estarem moralmente certas de se achar na graça de Deus. Para estas a morte é preciosa, porque é um repouso suave depois das angústias padecidas no combate contra as tentações, ou em aplacar os temores e os escrúpulos de desagradar ao Senhor. Oh, que consolo poder dizer: Nunca mais ofenderei ao meu Deus!

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A morte assusta os pecadores, que sabem que da primeira morte, do estado de pecado, passarão à segunda, que é eterna. Não amedronta, porém, as almas boas, que, confiadas nos méritos de Jesus Cristo, têm suficientes indícios para terem certeza moral de que se acham na graça de Deus. – Por isso aquele Proficiscere: Parte, ó alma, deste mundo, que tanto perturba os que morrem contra a sua vontade, não perturba os santos, que desprenderam o coração de todo o amor terrestre e com todas as veras sempre disseram: Deus meus et omnia– “Meu Deus e meu tudo”.

Para estes a morte não é um tormento, mas o repouso depois das angústias padecidas no combate contra as tentações e das inquietações causadas pelos escrúpulos e temores de ofender a Deus. Neles se realiza o que escreve São João: Beati mortui qui in Domino moriuntur! Amodo iam dicit Spiritus: ut requiescant a laboribus suis (1) – “Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor! Desde agora diz o Espírito que descansem de seus trabalhos”. – Quem morre no amor de Deus, não se perturba pelas dores que acompanham a morte; muito ao contrário, nelas se compraz, oferecendo-as a Deus como os últimos restos da sua vida. Oh! Que paz tão profunda goza o que morre resignado, abraçado com Jesus Cristo, que escolheu para si uma morte amargosa e desolada, a fim de nos obter uma morte suave e resignada!

Ó meu Jesus, Vós sois meu Juiz, mas sois também meu Redentor, que morreu para me salvar. Não era mais digno de Vos amar, mas, pelos vossos benefícios, me atraístes a vosso amor. Se é vossa vontade que eu morra desta doença, de boa mente aceito a morte. Sei que não mereço entrar logo no céu; contente estou de ir ao purgatório para ali padecer quanto Vos agrada. A minha pena mais grave será ver-me longe de Vós, suspirando por ir ver-Vos e amar-vos face a face. Portanto, meu amado Salvador, tende piedade de mim. Continuar lendo

RETRATO DE UM HOMEM QUE ACABA DE EXPIRAR – PONTO I

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Pulvis es et in pulverem reverteris – És pó e em pó te hás de tornar (Gn 3, 19)

Considera que és pó e que em pó te hás de converter. Virá o dia em que será preciso morrer e apodrecer num fosso, onde ficarás coberto de vermes. A todos, nobres e plebeus, príncipes ou vassalos, estará reservada a mesma sorte. Logo que a alma, com o último suspiro, sair do corpo, passará à eternidade, e o corpo se reduzirá a pó.

Imagina que estás em presença de uma pessoa que acaba de expirar. Contempla aquele cadáver, estendido ainda em seu leito mortuário: a cabeça inclinada sobre o peito; o cabelo em desalinho e banhado ainda em suores da morte, os olhos encovados, as faces descarnadas, o rosto acinzentado, os lábios e a língua cor de chumbo; hirto e pesado o corpo. Treme e empalidece quem o vê. Quantas pessoas, à vista de um parente ou amigo morto, mudaram de vida e abandonaram o mundo.

É ainda mais horrível o aspecto do cadáver quando começa a corromper-se. Nem um dia se passou após o falecimento daquele jovem, e já se percebe o mau cheiro. É preciso abrir as janelas e queimar incenso; é mister que prontamente levem o defunto à igreja, ou ao cemitério, e o entreguem à terra para que não infeccione toda a casa. mesmo que aquele corpo tenha pertencido a um nobre ou potentado, não servirá senão para que exale ainda fetidez mais insuportável, – disse um autor.

Vês o estado a que chegou aquele soberbo, aquele dissoluto! Ainda há pouco, via-se acolhido e cortejado pela sociedade; agora tornou-se o horror e o espanto de quem o contempla. Os parentes apressam-se a afastá-lo de casa e pagam aos coveiros para que o encerrem em um esquife e lhe deem sepultura. Há bem poucos instantes ainda se apregoava a fama, o talento, a finura, a polidez e a graça desse homem; mas apenas está morto, nem sua lembrança se conserva. Continuar lendo

PREPARAÇÃO PARA A MORTE – SANTO AFONSO DE LIGÓRIO

Prezados amigos, leitores e benfeitores, louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

Daremos início, amanhã, à publicação de capítulos do livro Preparação para a Morte, de Santo Afonso de Ligório.

Um excelente livro para meditarmos sobre nossa vida, sobre nossos atos para com Deus, a Igreja e ao próximo, e como estaremos no momento de nossa morte, na qual virá nosso Juízo e consequente destino final.

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"Oh momentum a quo pendet aeternitas!" (O momento do qual depende a eternidade)

Oh momentum a quo pendet aeternitas!” – Ó momento do qual depende a eternidade!

Estampa desenhada por Santo Afonso

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Dedicatória desta obra por Santo Afonso

À Imaculada e sempre Virgem Maria,
À cheia de graça,
À bendita entre todos os filhos de Adão,
À Pomba, à Rola, a dileta de Deus,
Honra do gênero humano, delícia da Santíssima Trindade,
Habitáculo de amor,
Modelo de humildade,
Espelho de todas as virtudes.
Mãe do belo amor,
Mãe da santa esperança e Mãe de misericórdia,
Advogada dos desgraçados,
Amparo dos fracos, Luz dos cegos e saúde dos enfermos,
Âncora de confiança,
Cidade de refúgio, Porta do céu,
Arca da vida, Íris da paz, Porto de salvação,
Estrela do mar e Mar de doçura,
Intercessora dos pecadores,
Esperança dos desesperados, Socorro dos desamparados,
Consoladora dos aflitos,
Alívio dos moribundos e Alegria do universo.

Um afetuoso e amante servo,

ainda que indigno e vil,

humildemente dedica esta obra

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Advertência importante sobre o objetivo desta obra

Pediram-me algumas pessoas que lhes proporcionasse um livro de considerações sobre as verdades eternas e que se destinasse às almas zelosas de sua perfeição e do progresso no caminho da vida espiritual. Outras reclamavam um compêndio de matérias próprias para as predicas em missões e exercícios espirituais. Para não multiplicar livros, trabalhos e despesas, entendi ser conveniente escrever a obra presente na forma que se vai ler, a fim de que possa servir para ambos os fins. Encontrarão nela os leigos assunto para meditar, por meio de três pontos em que é dividida cada consideração, e, como qualquer desses pontos pode servir para uma meditação completa, adicionei-lhes afetos e súplicas. Rogo ao leitor que se não enfade ao ver que nestas orações se pede continuamente a graça da perseverança e a do amor de Deus, porque estas são as duas graças mais necessárias para alcançar a salvação eterna.

A graça do amor divino – disse São Francisco de Sales – é aquela que contém em si todas as demais, porque a virtude do amor para com Deus traz consigo todas as outras virtudes. Quem ama a Deus é humilde, casto, obediente, mortificado… possui, enfim, as virtudes todas. Continuar lendo

ANGÚSTIAS DO PECADOR MORIBUNDO

pecadVirum iniustum mala capient in interitu – “Do varão injusto se apoderarão os males na morte” (Ps. 139, 12).

Sumário. Desgraçado do pecador que deixa passar o tempo das misericórdias divinas e adia a conversão até à hora da morte! Então o desgraçado se verá cercado de demônios, atormentado pelos remorsos da consciência, com o espírito escurecido e o coração endurecido. Numa palavra, visto que até então ele amou, juntamente e com o pecado, o perigo da condenação, é com justiça que o Senhor permitirá que ele pereça neste perigo, pelo peso da própria malícia. Ah, meu Jesus! Pelo amor de Maria Santíssima livrai-me de tão grande desgraça; quero a todo o custo emendar-me antes que a morte venha.

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Não só uma, mas muitas e muitas serão as angústias do infeliz pecador moribundo. De uma parte atormenta-lo-ão os demônios. Na morte, estes terríveis inimigos empregam todos os esforços para perder a alma que vai sair deste mundo, sabendo que só pouco tempo lhes resta para se apoderarem dela, e que, escapando-se-lhes então, se lhes escapará para todo o sempre (1). E, como diz Isaías, não somente um, mas inumeráveis espíritos infernais girarão ao redor do moribundo para o perderem: Replebuntur domus eorum draconibus(2) – “As suas casas serão cheias de dragões”.

Um demônio lhe dirá: Nada receies; sararás. Dir-lhe-á outro: Pois que! Tu foste surdo à voz de Deus durante tantos anos e Ele agora há de usar de misericórdia para contigo? Mais outro dirá: Como poderás nesta hora reparar os danos que causaste e as reputações que tiraste? Outro ainda: Não vês que todas as tuas confissões foram nulas, porque feitas sem verdadeira dor, sem propósito? Como poderás remediá-las? Continuar lendo

IMPORTÂNCIA DO ÚLTIMO MOMENTO DA VIDA

leitoMortuo homine impio, nulla erit ultra spes, et expectatio sollicitorum peribit – “Morto o homem ímpio, não restará mais esperança alguma e a expectação dos ambiciosos perecerá” (Prov. 11, 7).

Sumário. Um pagão, a quem perguntaram qual era a melhor sorte neste mundo, respondeu: Uma boa morte. Que dirá, pois, o cristão, que sabe pela fé que nesse momento começa a eterna alegria ou o eterno sofrimento? Oh! De que importância é o último momento, a última respiração, o último cair do pano sobre o teatro do mundo! Que loucura, portanto, a nossa, se, por amor aos prazeres vis e passageiros deste mundo, nos expuséssemos ao perigo de morrermos de morte desgraçada e de irmos sofrer para sempre no inferno!

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Que loucura! Por amor aos miseráveis e breves prazeres de tão curta vida, correr o risco de uma morte desgraçada e com esta principiar uma eternidade desgraçada! De que importância é o último momento, a última respiração, o último cair do pano sobre o teatro do mundo! Vale uma eternidade, ou de todas as alegrias, ou de todos os tormentos; uma vida, ou sempre feliz, ou sempre desgraçada! – Consideremos que Jesus Cristo quis morrer de morte tão ignominiosa e amarga para nos obter uma boa morte. Tantas vezes Ele nos convida, nos dá tantas luzes e nos avisa por tantas ameaças, afim de que nos determinemos a consumar o nosso último instante na graça de Deus!

Até um pagão, Antisthenes, a quem perguntaram qual era a melhor sorte neste mundo, respondeu: Uma boa morte. Que dirá, pois, um cristão, que sabe pela fé que então começa a eternidade, de forma que lhe cabe uma das duas sortes, ou a que traz a eterna alegria ou a que traz consigo o eterno sofrimento? – Se metessem num saco dois bilhetes, um com a palavra inferno, outro com a palavra céu e vos mandassem tirar a sorte, que precaução não tomaríeis para tirar a que vos desse direito ao céu? Como os desgraçados, condenados a jogar a vida, tremem ao estender a mão para lançar os dados, de cuja sorte depende a sua vida ou a sua morte!

Quais serão as tuas agonias, quando te aproximares desse último momento, quando tiveres de dizer: Do instante que se avizinha, depende a minha vida ou a minha morte eterna! Vai ser decidido se serei feliz para sempre ou desesperado para sempre! – São Bernardino de Sena conta que um príncipe, ao expirar, disse muito consternado: Eu que possuo tantas terras e palácios no mundo, não sei qual será a minha morada se vier a morrer esta noite! – meu Jesus, que será de mim no último instante da minha vida? Ah! Não me permitais que me perca e fique privado de Vós, meu único Bem. Continuar lendo

O GRANDE SEGREDO PARA VIVER BEM

cemiIn omnibus operibus tuis memorare novissima tua, et in aeternum non peccabis – “Em todas as tuas obras lembra-te de teus novíssimos e nunca, jamais pecarás” (Ecclus. 7, 40).

Sumário. Meu irmão, se queres viver bem, procura pensar sempre na morte. Ao veres um túmulo, ao assistires às exéquias de um parente ou amigo, ao veres um cadáver sendo levado à sepultura, contempla nisso a tua própria imagem e dize: Dentro de breves anos, talvez meses ou dias, será tal a sorte de meu corpo e, estando então perdida a alma, estará perdida para sempre. Por terem pensado na morte, quantos deixaram a morte e subiram à mais alta perfeição.

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Meu irmão, se queres viver bem, procura, durante o tempo de vida que te resta, viver pensando sempre na morte. Ao veres um túmulo, ao assistires às exéquias de um amigo ou parente, ao veres um cadáver sendo levado à sepultura, contempla nisso a tua própria imagem e o que um dia há de ser de ti. Reflete então e dize contigo: dentro em poucos anos, talvez meses ou dias tudo acabará para mim; meu corpo será apenas podridão e vermes. Estando então perdida a alma, tudo estará perdido para mim e perdido para sempre.

Assim é que fizeram os Santos, que agora reinam no céu; é por este meio que chegaram a desprezar todos os bens desta terra, que venceram as tentações mais fortes e subiram a alta santidade. Jó dizia à podridão: Tu és meu pai; e aos vermes: Vós sois minha mãe e minha irmã (1). São Carlos Borromeu conservava sempre sobre a sua mesa uma caveira, para te-la continuamente diante dos olhos. O cardeal Barônio fez gravar no seu anel estas palavras: Memento mori – “Lembra-te da morte”. O bem-aventurado Juvenal, bispo de Saluzzo, escrevera sobre uma caveira estas palavras: O que tu és, fui eu; o que eu sou, tu serás um dia. Outro santo solitário, perguntando na hora da morte porque estava tão alegre, respondeu: Sempre tive a lembrança da morte diante dos olhos; por isso, agora que ela vem, não vejo coisa nova. Continuar lendo

A SENTENÇA DA ALMA CULPADA NO JUÍZO PARTICULAR

juiDiscedite a me, maledicti, in ignem aeternum, qui paratus est diabolô et angelis eius – “Apartai-vos de mim, malditos para o fogo eterno, que está aparelhado para o diabo e os seus anjos” (Matth. 25, 41).

Sumário. Desgraçada da alma cuja vida no juízo não for achada conforme à de Jesus Cristo! Sem demora, o divino Juiz pronunciará contra ela a sentença de condenação eterna – Aparta-te de mim, maldita, para ires arder eternamente no fogo. Meu irmão, agora vivemos em segurança e com indiferença ouvimos falar do juízo; mas quantos há que assim viveram e agora estão no inferno! E quem nos assegura que o mesmo não sucederá conosco? Se a morte nos surpreendesse na primeira noite, qual seria a nossa sentença?

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Desgraçada da alma cuja vida no juízo não for achada conforme à de Jesus Cristo! Tendo um dos cortesãos de Filipe II dito uma mentira a seu amo, este o repreendeu dizendo: “É assim que me enganas?” O desgraçado, ao voltar à casa, morreu de pesar. Que fará pois, que responderá o pecador a Jesus Cristo, seu Juiz?… Fará como aquele homem do Evangelho que, apresentando-se no banquete nupcial sem o vestido conveniente, se calou, não sabendo que responder: At ille obmutuit(1). O próprio pecado lhe fechará a boa e o cobrirá de tal forma de vergonha, que, no dizer de São Basílio, a confusão será então para o pecador um tormento mais horrível que o fogo do inferno.

O divino Juiz pronunciará sem demora a sentença inapelável: Discedite a me, maledicti, in ignem aeternum – “Aparta-te de mim, maldito, e vai arder para sempre no fogo eterno.” Oh, que voz aterradora será esta! Santo Anselmo diz que, “quem não treme a uma voz tão terrível, não dorme, mas está morto”. E Eusébio acrescenta que “tamanho será o espanto dos pecadores ao ouvirem a sua condenação, que morreriam de novo, se pudessem morrer outra vez”.

Então já não há suplicar, já não há recorrer a intercessores. Com efeito, a quem recorrerão? Pergunta São Basílio. Porventura a Deus, a quem desprezaram? Aos Santos? Ou a Maria? Não, pois que então as estrelas, que são os Santos, nossos advogados, cairão do céu; e a lua, quer dizer Maria, perderá a sua luz (2). Diz Santo Agostinho: Maria fugirá da porta do paraíso. – Ó Deus, exclama Santo Tomás de Vilanova, com que indiferença ouvimos falar do juízo, como se não pudesse ser nossa a sentença de condenação, ou como se não tivéssemos de ser julgados! Oh! Que demência é viver seguro em tamanho perigo! Se a morte nos colhesse neste instante, que sorte havia de ser a nossa? Continuar lendo

O DESPREZO DO TEMPO E A HORA DA MORTE

san-franVocavit adversum me tempus – “Chamou contra mim o tempo” (Thren. 1, 15).

Sumário. Grande é a tristeza do viajante ao ver que errou o caminho quando já caiu a noite e não há tempo para reparar o engano. Incomparavelmente maior será, na hora da morte, a tua mágoa, meu irmão, se em via não tiveres aproveitado o tempo, ou, pior ainda, tivesses dele abusado para ofenderes ao Senhor. Como fui insensato! – dirias então chorando. – Ó vida perdida! Em tantos anos, com tão grandes graças podia santificar-me e não o fiz… De que servirão então estas lamentações, quando a cena já estiver no fim e se aproximar o grande momento de que depende a eternidade?

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Nada há mais precioso que o tempo; e nada há que seja menos estimado e mais desprezado pelos mundanos. É o que fazia São Bernardo chorar:Nihil pretiosius tempore, sed nihil vilius aestimatur. Depois ele acrescenta:Transeunt dies salutis – Passam os dias oportunos para adquirir a salvação eterna e ninguém reflete que os dias que passam lhe são descontados para nunca mais voltarem. – Vê o jogador que gasta dias e noites no jogo. Se lhe perguntares: “Que estás fazendo?” responderá: “Estou passando o tempo.” – Vê o ocioso que se entretem horas inteiras nas ruas, a ver quem passa, ou as desperdiça em conversas indecentes ou inúteis. Se lhe perguntares: “Que estás fazendo?” responder-te-á igualmente: “Procuro passar o tempo.” Pobres cegos, que desperdiçam tantos dias que não voltam mais!

Desdenhado tempo! Tu serás o que os mundanos desejarão mais na hora da morte. Desejarão então mais um ano, mais um mês, mais um dia, mas não o terão, e ouvirão dizer: Tempus non erit amplius (1) – “Não haverá mais tempo”. Quanto não daria então cada um deles para ter mais uma semana, um dia, afim de melhor ajustar as contas da consciência? Ainda que não fosse senão para obter uma só hora, diz São Lourenço Justiniano, ele daria todos os seus bens: Erogaret opes, honores, delicias pro uma horula. Mas essa hora não lhe será dada. Continuar lendo

DEVEMOS MORRER

quadro-morte-justo-pecadorStatutum est hominibus semel mori, post hoc autem iudicium – “Está decretado aos homens que morram uma vez e que depois se siga o juízo” (Hebr. 9, 27).

Sumário. Meu irmão, por muitos anos que tenhas a viver, sabe que para todos os homens já está escrita a sentença de morte. O que sucedeu a nossos antecessores, suceder-nos-á também. Cedo ou tarde devemos morrer, e depois da morte espera-nos um juízo inexorável e uma eternidade ou de gozos infindos no paraíso, ou de tormentos indizíveis no inferno. Que insensatez seria, pois, a nossa, se para buscarmos uma fortuna que em breve se extingue, nos descuidarmos da eternidade!

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Para todos os homens está escrita a sentença de morte: és homem, deves morrer. Dizia Santo Agostinho que toda a nossa sorte, quer boa, quer má, é incerta; mas que só a morte é indubitavelmente certa. Cetera nostra bona et mala incerta sunt; sola mors certa est. É incerto se tal menino recém nascido virá a ser pobre ou rico, se terá boa ou má saúde, se morrerá moço ou velho; tudo isto é incerto; só é certo que deve morrer.

Vê: de quantos no princípio do século passado viviam na tua pátria, já não existe nenhum. Até os príncipes, os monarcas da terra passaram ao outro mundo; nada mais deles resta senão um mausoléu de mármore com uma bela inscrição, que tão somente serve para nos ensinar que dos grandes do mundo só resta um bocado de pó, resguardado por algumas pedras. Pergunta São Bernardo: Que foi feito dos amadores e adoradores do mundo? E responde: Nada deles restou senão cinzas e vermes. – Nihil ex eis remansit, nisi cineres et vermes. Continuar lendo

O CORPO NA TUMBA

Cemiterio da cidade de Luis Correia. Morte, cruz, tumulo, covas, ceu, nuvens.Subter te sternetur tinea, et operimentum tuum erunt vermes – “Debaixo de ti se estenderá por cama a polila, e a tua coberta serão os bichos” (Is. 14, 11).

Sumário. Meu irmão, para ver melhor o que és, aproxima-te de um túmulo. Eis como daquele cadáver sai uma matéria infecta, na qual se gera uma multidão de vermes que se nutrem da carne. Caem as faces, os lábios, os cabelos. E finalmente, daquele corpo nutrido com tanta delicadeza, causa talvez de tantas ofensas do Senhor, não resta nada senão um esqueleto fétido, um punhado de pó. Quantos têm, à vista de um cadáver, deixado o mundo e entrado numa ordem religiosa!

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Para melhor ver o que és, ó cristão, diz São João Crisóstomo: Perge ad sepulchrum– “vai visitar os túmulos”. Vê como esse cadáver se vai tornando de amarelo em negro. Em seguida aparece pelo corpo todo uma penugem branca e repelente. Sai dela uma matéria viscosa e infecta que corre pela terra. Nesse pus gera-se em breve uma multidão de vermes que se nutrem das carnes. Despegam-se e caem as faces, os lábios, os cabelos; e daquele corpo só resta finalmente um esqueleto fétido, que com o tempo se divide, destacando-se os ossos uns dos outros, e separando-se a cabeça do tronco. Redacta quasi in favillam aestivae areae, quae rapta sunt vento(1) – “Como a miúda palha, que o vento leva fora da eira em tempo de estio”. Tal é o homem, um pouco de pó arrastado pelo vento.

Onde está aquele cavalheiro, outrora encanto e alma da sociedade? Entra no seu quarto; já lá não está. Se procurares o seu leito, saberás que foi dado a outro. Os vestidos, as armas: outros já tomaram posse delas e as dividiram entre si. Se o queres ver, vai a essa cova, onde jaz em podridão e com os ossos descarnados. Ó Deus! A que estado ficou reduzido o corpo nutrido com tanta delicadeza, vestido com tanta pompa, cercado de tantos servos! Quantos têm, à vista de um cadáver, deixado o mundo e entrado numa ordem religiosa!

Santos do céu, como haveis sido prudentes, vós que pelo amor de Deus, a quem só amastes na terra, soubestes mortificar o vosso corpo. Agora, vossos ossos são conservados e honrados como relíquias santas em relicários de ouro, enquanto que vossas belas almas gozam de Deus, esperando o dia final em que vossos corpos irão também tomar parte na glória eterna, como tomaram parte na cruz durante a vida. É assim que se ama verdadeiramente o corpo, carregando-o neste mundo de aflições, afim de que seja eternamente feliz e recusando-lhe as doçuras que o tornariam infeliz na eternidade. Continuar lendo

O DIA DA DESILUSÃO

morteDormierunt somnum suum, et nihil invenerunt omnes viri divitiarum in manibus suis – “Dormiram o seu sono e nada acharam nas suas mãos todos estes homens de riquezas” (Ps. 75, 6).

Sumário. O dia da morte é chamado dia de desilusão, porque nesse dia de verdade, à luz da vela mortuária, se vêem as coisas deste mundo bem diferentes do que agora nos aparecem. Se, pois, quisermos avaliar bem as honras, as dignidades, os prazeres, as riquezas, imaginemos estar no leito de morte; contemplemos dali os bens deste mundo e digamos: No fim da vida não se fará caso de tudo isso, mas somente daquilo que nos acompanha para a eternidade: De que serve ao homem ganhar o mundo inteiro?

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Coisa maravilhosa! Quão grande é a prudência dos mundanos no que diz respeito aos bens da terra! Quantos passos não dão para adquirirem tal emprego, tal fortuna! Quantos cuidados para conservar a saúde do corpo! Mas que descuido pelo que diz respeito à alma; para a eternidade nada querem fazer! E no entanto é certo que a saúde, as dignidades, as riquezas devem acabar um dia, ao passo que não tem fim nem a alma nem a eternidade.

Mais cedo ou mais tarde chegará o dia da desilusão. Ó Deus, ao clarão da vela mortuária conhece-se a verdade e confessam os mundanos a sua loucura. Então não há nenhum que não exclame: Ah! Porque não deixei tudo para me santificar! – O papa Leão XI dizia na hora da morte: Melhor fora para mim ter sido porteiro num convento do que papa. Onório III, também papa, dizia igualmente na hora da morte: Antes tivesse ficado na cozinha de meu convento para lavar a louça.

Filippe II, rei de Espanha, estando para morrer, mandou chamar o filho, e entreabrindo as vestes seaes, mostrou-lhe o peito roído de vermes, dizendo:

– Príncipe, vê como se morre, e aonde vêm a parar as grandezas do mundo.

Depois exclamou:

– Quem me dera ter sido simples frade de qualquer ordem e não monarca!

Ao mesmo tempo mandou lançar ao pescoço uma corda da qual pendia uma cruz de madeira, e tendo disposto tudo para a morte, acrescentou:

– Meu filho, quis que estivesses presente a este ato para veres bem como na morte o mundo trata os próprios reis. Quem tiver vivido melhor, achará lugar melhor junto de Deus.

Esse filho, depois Filippe II, quando por sua vez estava para morrer na idade de 23 anos, disse:

– Meus vassalos, não faleis no meu elogio fúnebre senão no que estais vendo agora. Dizei que na morte de nada serve ser rei, senão para sentir maior tormento de o haver sido.

Em seguida exclamou:

– Prouvera a Deus que nunca tivesse sido rei e tivesse vivido num deserto no serviço de Deus! Poderia apresentar-me agora com mais confiança ao seu tribunal e não correria tamanho risco de me condenar.

De que servem, porém, tais desejos na hora da morte, senão para maior mágoa e desespero do que não amou a Deus durante a vida?

Com razão dizia Santa Teresa: Não se deve fazer caso das coisas que acabam com a vida; a verdadeira vida consiste em viver de tal modo que não se tenha de recear a morte. Se desejamos ver o que valem os bens da terra, consideremo-los com os olhos fitos na morte e digamos: as honras, as dignidades, os prazeres, as riquezas acabarão um dia: assim atendamos em nos fazer santos e ricos daqueles bens que nos acompanharão para a eternidade e nos tornarão contentes para sempre.

Ah, meu Redentor, padecestes tantos sofrimentos e ignomínias por meu amor, e eu amei tanto os prazeres e bens passageiros deste mundo, que por causa deles cheguei a calcar aos pés a vossa graça. Mas se Vós, quando eu Vos desprezava, não deixastes de me procurar, não posso temer, ó meu Jesus, que me repeleis agora que Vos procuro e Vos amo de todo o coração e me arrependo mais de Vos ter ofendido do que se tivesse sofrido qualquer outra desgraça.

Ó Deus de minha alma, de hoje em diante não Vos quero mais dar o menor desgosto que seja. Fazei-me saber o que Vos desagrada e nem por todos os bens do mundo quero fazê-lo. Fazei-me saber o que Vos agrada e pronto, estou a fazê-lo. Quero amar-Vos com todas as veras. Aceito, oh Senhor, todas as dores, humilhações, cruzes que me vierem de vossas mãos; dai-me somente a resignação necessária. Hic ure, hic seca, vos direi com Santo Agostinho. Castigai-me nesta vida, afim de que na outra Vos possa amar eternamente. – Maria, minha Mãe, a vós me recomendo; não deixeis de rogar a Jesus por mim. (II 61.)

Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II – Santo Afonso

A MORTE DESPOJA-NOS DE TUDO

morteDivitias, quas devoravit, evomet, et de ventre illius extrahet eas Deus – “Vomitará as riquezas que devorou, e Deus lh´as fará sair das entranhas” (Iob. 20, 15).

Sumário. Os mundanos só consideram felizes os que podem gozar os bens deste mundo, os prazeres, as riquezas e as gandezas. Mas a morte põe fim a todos estes gozos terrestres, porque então tudo se há de deixar. Vê esse grande do mundo, cortejado hoje, temido e quase adorado; amanhã, quando estiver morto, será desprezado de todos, não se fará mais caso de suas ordens; será expulso de seu palácio e atirado a uma cova para apodrecer. Entretanto que será de sua alma?… Desgraçada, se vier a cair no inferno!

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Os mundanos só consideram felizes aqueles que gozam os bens deste mundo, os prazeres, as riquezas e as grandezas; mas a morte põe fim a todos estes gozos terrestres.Quae est vita vestra? Vapor est ad modicum parens(1) – “Que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco“. Os vapores que a terra exala, erguendo-se ao ar, por efeito dos raios do sol, oferecem às vezes agradável aspecto; que tempo, porém, dura isto? Ao menor vento, tudo desaparece. Vê esse grande mundo, cortejado hoje, temido e quase adorado; amanhã, quando estiver morto, será desprezado, amaldiçoado, calcado aos pés.

Na morte é preciso deixar tudo. O irmão do grande servo de Deus, Thomaz Kempis, felicitava-se de ter construído uma casa magnífica. Houve, porém, um amigo que lhe notou um defeito. Qual é? Perguntou ele. – O defeito, respondeu o amigo, é terdes feito a porta. – O que? Replicou, a porta será um defeito? – Sim, acrescentou o amigo, porque um dia deverás sair por essa porta, morto, e assim deixar a casa e tudo o mais. Continuar lendo

DA MORTE

morte_del_peccatore_g[1] - 2Estole parati; quia qua nescitis hora Filius hominis venturus est — “Estai preparados; porque, não sabeis a hora em que o Filho do homem há de vir” (Matth. 24, 44.)

Sumário. A morte é certa, mas não se sabe quando virá. Quantas mortes são repentinas! Quantos à noite têm ido deitar-se sãos e pela manhã apareceram mortos! Não pensavam morrer assim, mas morreram; e se estavam em pecado, acham-se agora ardendo no inferno, onde estarão por toda a eternidade. Para que não nos suceda a mesma desgraça, aproveitemos o conselho de Jesus Cristo, e preparemo-nos para morrer bem, antes que a morte venha: Estote parati — “Estai preparados”.

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Considera como há de acabar esta vida. Já está decretada a sentença: hás de morrer. A morte é certa, mas não se sabe quando virá. Que é preciso para morrer? Uma síncope cardíaca, uma veia que se rompa no peito, uma sufocação catarral, um vômito de sangue, um bicho venenoso que te morda, uma febre, uma chaga, uma inundação, um tremor de terra, um raio, basta para te tirar a vida.

A morte virá surpreender-te quando menos o pensares. Quantos à noite foram deitar-se sãos e pela manhã foram encontrados mortos! Não pode o mesmo acontecer a ti? Tantos que morreram repentinamente, não pensavam morrer assim; mas morreram. E se estavam em pecado, onde estarão por toda a eternidade? — Seja, porém, como for, o certo é que há de chegar um tempo em que para ti o dia se fará noite: verás o dia e não verás a noite seguinte. Virei como um ladrão, de emboscada e desapercebido, diz Jesus Cristo. Teu bom Senhor avisa-te com tempo, porque deseja a tua salvação. Continuar lendo

COMO DEVEMOS PREPARAR-NOS PARA A MORTE

cemiterioDispone domui tuae, quia morieris tu et non vives — “Dispõe de tua casa, porque morrerás e não viverás” (Is. 38, 1).

Sumário. A experiência prova que morrem felizmente os que, no último momento, estão já mortos para o mundo, isto é, desligados dos bens de que nos deve separar a morte. É, pois, preciso que desde já aceitemos a privação dos bens, a separarção dos parentes e de todas as coisas da terra, lembrando-nos que, se não o fizermos voluntariamente agora, necessariamente teremos de o fazer na morte, mas com risco da salvação eterna. Quem ainda não escolheu um estado de vida, tome aquele que houvera querido escolher na hora da morte.

Diz Santo Ambrósio que morrem felizmente os que, no tempo da sua morte, estão já mortos para o mundo, isto é, desligados daqueles bens de que forçosamente os deve separar a morte. Mister, pois, se torna que desde já aceitemos a privação dos bens, a separação dos parentes e de todas as coisas da terra. Se não fizermos isto voluntariamente durante a vida, seremos forçados a fazê-lo na morte, mas então com extrema dor e com risco da salvação eterna.

A este propósito observa Santo Agostinho que, para morrer em paz, é vantajosíssimo pormos em ordem durante a vida os negócios temporais, fazendo desde já a disposição dos bens que é preciso deixar, a fim de não termos de nos ocupar então senão da nossa união com Deus. — Naquela hora convém que só se fale em Deus e no paraíso. Os últimos momentos da vida são demasiadamente preciosos para serem desperdiçados em pensamentos terrestres. É na morte que se acaba a coroa dos escolhidos, porque é então que se recolhe a maior soma de merecimentos, aceitando os sofrimentos e a morte com resignação e amor. Continuar lendo

QUANTO É DOCE A MORTE DO JUSTO

morte_del_giusto_gIustorum animae in manu Dei sunt, et non tanget illos tormentum mortis ― “As almas dos justos estão na mão de Deus, e não os tocará o tormento da morte” (Sap. 3, 1)

Sumário. É assim: os tormentos, que na morte afligem os pecadores, não afligem os santos, porque já antes desse tempo deixaram pelo afeto os bens terrestres, consideraram as honras como fumo e vaidade e viveram desapegados dos parentes, amando-os só em Deus. D’outra parte, que felicidade morrer entregando-se nos braços de Jesus Cristo, que quis sofrer uma morte tão amarga, a fim de nos obter uma morte doce e cheia de consolação! Irmão meu, se na primeira noite a morte te colhesse, qual seria a tua morte, a do justo ou a do pecador?

É assim: os tormentos que na morte afligem os pecadores, não afligem os santos: Non tanget illos tormentum mortis― “Não os tocará o tormento da morte”. Os santos não se abalam com esse Proficiscere, anima― “Parte, ó alma”, que tanto assusta os mundanos. Os santos não se afligem com o terem de deixar os bens da terra, porque nunca lhes tiveram o coração ligado. Deus é o Senhor do meu coração, diziam eles sempre, a minha porção é Deus para sempre ― Deus cordis mei et pars mea Deus in aeternum (1). Sois felizes, escrevia o Apóstolo a seus discípulos que pela causa de Jesus Cristo tinham sido despojados de seus bens, sois felizes, porque suportastes com alegria a rapina dos vossos bens, sabendo que tender um cabedal melhor e permanente: Cognoscentes vos habere meliorem et manentem substantiam (2).

Os santos não se afligem por deixarem as honras, porque desde muito as desprezaram e tiveram na conta do que efetivamente são, fumo e vaidade. Só estimaram a honra de amarem a Deus e de serem por Ele amados. Nem se afligem por deixarem os parentes, porque só os amaram em Deus; morrendo, recomendam-nos ao Pai celeste que os ama mais do que eles o podiam, e como esperam salvar-se, pensam que o melhor lhes poderão valer na pátria celestial do que ficando na terra. Em suma, o que disseram durante toda a vida: Deus meus et omnia ― “Meu Deus e meu tudo”, repetem-no com mais consolação e ternura no momento da morte. Continuar lendo

INCERTEZA DA HORA DA MORTE

Resultado de imagem para hora da morteVidete, vigilate et orate: nescitis enim quando tempus sit — “Estai de sobreaviso, vigiai e orai ; porque não sabeis quando seja o tempo” (Marc. 13, 33)

Sumário. Irmão meu, já está fixado o ano, o mês, o dia, a hora e o momento em que devemos deixar a terra e entrar na eternidade; esse tempo é-nos, porém, desconhecido. Jesus Cristo no-lo oculta a fim de estarmos sempre preparados para morrer. Ora, dize-me: se a morte te viesse colher neste instante, achar-se-ia a tua consciência em bom estado? Oh, quantos já morreram, e morrem cada dia subitamente!

Meu irmão, já está fixado o ano, o mês, o dia, a hora e o momento, em que tu e eu devemos deixar a terra e entrar na eternidade; esse tempo é-nos, porém, desconhecido. A fim de estarmos sempre preparados, Jesus Cristo ora nos avisa que a morte virá como um salteador de noite e às escondidas: Sicut fur in nocte, ita veniet (1); ora nos recomenda que estejamos vigilantes, pois no momento em que menos o pensarmos, Ele próprio virá para nos julgar: Qua hora non putatis, Filius hominis veniet (2). Diz São Gregório que Deus, para nosso bem, nos oculta a hora da morte, para que estejamos sempre prontos para morrer. — Visto, pois, que a morte nos pode tirar a vida a todo o tempo e em qualquer lugar, se quisermos morrer bem e salvar-nos, é preciso, diz São Bernardo, que a todo o tempo e em todo o lugar estejamos esperando pela morte.

Cada um sabe que deve morrer; mas o mal está em muitos verem a morte tão de longe, que quase a perdem de vista. Os velhos mais decrépitos e as pessoas mais doentias ainda se gabam de ter mais três ou quatro anos de vida. Mas eu, ao contrário, digo: quantos não temos conhecido que em nossos dias morreram repentinamente, uns estando sentados, outros no meio do caminho, outros dormindo em seu leito! É certo que nenhum deles julgava morrer tão subitamente, ou naquele dia em que morreu. Digo mais: de todos que neste ano passaram à outra vida, morrendo no próprio leito, nenhum imaginava que devia terminar os seus dias este ano. Poucas são as mortes que não chegam inesperadas!
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DEVEMOS UNIR-NOS À VONTADE DE DEUS, NO QUE TOCA À NOSSA MORTE

Resultado de imagem para morte catolicaFinalmente devemos unir-nos à vontade de Deus, no que toca à nossa morte, tanto no tempo, como na maneira que Deus te­nha determinado que ela nos chegue. Santa Gertrudes (I. I. Vita. C. 11.) subindo uma vez a um monte, perdeu o equilíbrio e caiu em um vale. Suas companheiras pergun­taram-lhe senão temia morrer sem os sacramentos? Ao que a Santa respondeu: «Eu tenho grande desejo de morrer com os Sacramentos, porém deixo isso à vontade de Deus, porque a melhor disposição para a morte é voluntariamente submeter-nos ao que Deus tiver determinado; por tanto de­sejo a morte, que o Senhor for servido en­viar-me.»

Gregório relata nos seus diálogos (L. 3. G. 27.) que os Vandalos, tendo condenado a morte um certo sacerdote chamado Santolo, lhe deixaram a escolha do gênero de morte. O Santo homem recusou escolher, e disse: «Eu estou nas mãos de Deus, e receberei aquela morte que Ele permitir que vós me deis; não quero ou­tra.» Este ato foi tanto do agrado do Se­nhor, que aqueles bárbaros, tendo resol­vido degolá-lo, o braço do algoz, quando ia a descarregar o golpe, foi suspendido; e aqueles homens à vista de tão grande milagre, lhe concederam a vida. Por tanto, quanto ao gênero de morte, devemos consi­derar o melhor, aquele que Deus nos tiver determinado. Digamos sempre, quando pen­sarmos na morte. — Senhor, salvai a minha alma, e decretai a minha morte como vos aprouver.

Também devemos unir-nos com a divina vontade, quanto ao tempo da nossa morte. O que é este mundo, senão uma prisão, na qual sofremos e estamos em contínuo risco de perder a Deus? A isto exclamou David: Soltai a minha alma de sua prisão. (Ps. CXLI. 8.) Isto fazia Santa Tereza suspirar pela morte. Quando ela ouvia as horas no relógio alegrava-se, e consolava-se que uma hora de sua vida estava passada; hora de perigo de perder a Deus. O padre Ávila dizia, que aquele que não está em dispo­sição imprópria para morrer, deve desejar a morte, pelo perigo de perder a divina graça durante a vida. Continuar lendo

MORTE FELIZ DOS RELIGIOSOS

justoBeati mortui qui in Domino moriuntur. Amodo iam dicit Spiritus, ut requiescant a laboribus suis — “Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor. Desde agora diz já o Espírito Santo que descansem dos seus trabalhos” (Apoc. 14, 13).

Sumário. Para te confirmares na tua vocação, imagina que estás a ponto de morrer e próximo a comparecer no tribunal de Jesus Cristo. Pensa o que então mais desejarás ter feito. Será talvez teres ajudado à casa e feito a vontade própria, com as honras de pároco, de cônego, de ministro? Ou antes, morrer na casa de Deus, assistido de teus bons confrades, depois de uma vida na Religião sob a obediência e desapegado de todas as coisas da terra?

Quem serão estesbem-aventurados mortos que morrem no Senhor, senão os Religiosos que no fim da vida se acham já mortos no mundo, tendo-se desapegado dele e de todos os seus bens, por meio dos santos votos? — Considera, meu irmão, quanto estarás contente, se, seguindo a tua vocação, tiveres a ventura de morrer na casa de Deus. O demônio te representará que, afastando-te do mundo e perseverando na Religião, depois poderás arrepender-te de teres deixado a tua casa e a tua pátria, de teres privado os parentes de algum proveito, que de ti podiam esperar. Mas pergunta a ti mesmo: Na hora da morte estarei arrependido ou contente por ter executado a minha resolução?

Por isso te peço: Imagina que estás à morte e próximo a comparecer perante o tribunal de Jesus Cristo. Pensa o que então mais desejarás ter feito, reduzido a tal estado. Será talvez teres contentado os parentes, teres feito benefício à casa ou à tua terra; morreres cercado dos parentes, dos sobrinhos, dos cunhados, depois de uma vida em tua casa com as honras de pároco, de cônego, de ministro? Ou não será antes teres vindo a morrer na casa de Deus, assistido de teus bons irmãos de religião, que na grande passagem te animarão; depois de teres vivido muitos anos na humilhação, na mortificação e na privação dos bens, longe dos parentes, sem vontade própria, debaixo da obediência e desapegado de todas as coisas da terra; circunstâncias estas todas que tornam doce e amável a morte?

O Papa Honório, quando estava para morrer, desejava ter ficado no mosteiro a lavar os pratos e não ter sido Papa. Na hora da morte, Filipe II, rei de Espanha, desejava ter sido leigo em algum convento e não rei. Filipe III, igualmente rei de Espanha, dizia na morte: Tomara que tivesse servido a Deus num deserto, em vez de ser monarca: porque agora compareceria com mais confiança perante o tribunal de Jesus Cristo. Continuar lendo

REMORSOS E DESEJOS DE UM PECADOR MORIBUNDO

moribundoAngustia superveniente, requirent pacem, et non erit — “Ao sobrevir-lhes de repente a angústia, eles buscarão a paz e não a haverá” (Ezech. 7, 25).

Sumário. Consideremos o estado infeliz de um moribundo que viveu mal, especialmente se era pessoa consagrada a Deus. Que remorso lhe causará o pensamento de que, com os meios que o Senhor lhe proporcionou, até um pagão se faria santo! Desejará então um instante daquele tempo que agora se perde, ou é empregado no pecado, mas em vão. Irmão meu, a fim de que não tenhamos tal desgraça, tomemos agora as resoluções que então havíamos de tomar. Talvez seja esta a última vez que Deus nos chama.

Como se deixam bem conhecer no momento da morte as verdades da fé, mas para maior tormento do moribundo que viveu mal, especialmente se era pessoa consagrada a Deus, já que, para o servir, tinha mais facilidade, mais exemplos, mais inspirações. Ó Deus, que pena será para essa pessoa pensar e dizer: “Repreendi os outros e fiz pior do que eles! Deixei o mundo e vivi ligado aos gozos, às vaidades e às afeições do mundo!” Que remorso lhe causará o pensamento de que, com as luzes que recebeu de Deus, até um pagão se teria feito santo! Que dor não sofrerá, lembrando-se de ter ridicularizado as práticas de piedade dos outros como fraquezas de espírito e de ter louvado certas máximas do mundo, de estima ou de amor próprio!

Desiderium peccatorum peribit (1) — “O desejo dos pecadores perecerá”. Quanto será desejado na morte o tempo que se perde agora! Conta São Gregório, nos seus Diálogos, que um homem rico, mas de maus costumes, chamado Crisâncio, estando a ponto de morrer, gritava aos demônios que lhe apareciam visivelmente para se apoderar de sua alma: “Dai-me tempo, dai-me tempo até amanhã.” Respondiam os demônios: “Ó insensato, é nesta hora que pedes tempo? Tiveste tanto tempo e perdeste-o, empregaste-o a pecar, e agora é que pedes tempo? Já não há mais tempo.” O desgraçado continuava a gritar e a pedir socorro. Próximo dele achava-se um seu filho chamado Maximo, que era monge. Dizia-lhe o moribundo: “Socorre-me, filho, meu caro Maximo, socorre-me!” No entanto, com o rosto chamejante, volvia-se de um para outro lado do leito, e nesta agitação e gritos de desespero, expirou desgraçadamente. Continuar lendo

HEI DE MORRER UM DIA

heiStatutum est hominibus semel mori; post hoc autem iudicium — “Está decretado que os homens morram uma só vez, e que depois venha o juízo” (Hebr. 9, 27).

Sumário. É utilíssimo para a salvação eterna dizermos muitas vezes conosco: “Hei de morrer um dia”; e entretanto escolhermos nos negócios da vida o que na hora da morte quiséramos ter feito. Com efeito, meu irmão: nesta terra um vive mais tempo, outro menos; mas mais cedo ou mais tarde, para cada um chegará o fim e então nada nos consolará senão o havermos amado Jesus Cristo e o termos padecido por seu amor e com paciência as dificuldade da vida presente.

É utilíssimo para a salvação eterna dizermos muitas vezes conosco:Hei de morrer um dia. A Igreja lembra-o todos os anos aos fiéis no dia de Cinzas:Memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris — “Lembra-te, ó homem, que és pó e em pó te hás de tornar.” Mas no correr do ano a lembrança da morte nos é sugerida freqüentíssimas vezes, ora pela vista de um cemitério à beira da estrada, ora pelas campas que vemos nas igrejas, ora pelos defuntos que são levados à sepultura. — Os objetos mais preciosos que os anacoretas guardavam nas suas grutas eram uma cruz e uma caveira: a cruz para se lembrarem do amor que nos teve Jesus Cristo e a caveira para não se esquecerem do dia da sua morte. Assim é que perseveraram na sua vida de penitência até ao termo de seus dias. Morrendo pobres no deserto morreram mais contentes do que morrem os monarcas em seus palácios régios.

Finis venit, venit finis (1) — “O fim vem, vem o fim!” Nesta terra uns vivem mais tempo, outros menos; porém, mais cedo ou mais tarde, para cada um chegará o fim da vida, e nesse fim, que será a hora da nossa morte, nada nos dará consolo, senão o termos amado Jesus Cristo e o termos padecido com paciência, por amor d’Ele, as penalidades desta vida. Então nenhum consolo poderão dar-nos, nem as riquezas adquiridas, nem as dignidades possuídas, nem os prazeres gozados. Todas as grandezas terrestres não somente não consolarão os moribundos, antes lhes causarão aflições. Quanto mais as tiverem procurado, tanto mais lhes aumentará a aflição. Soror Margarida de Sant´Anna, carmelita descaça e filha do imperador Rodolfo II dizia: Para que servirão os reinos do mundo na hora da morte? Continuar lendo

DA MEDITAÇÃO DA MORTE

Resultado de imagem para cemitérioMui depressa chegará teu fim neste mundo; vê, pois, como te preparas: hoje está vivo o homem, e amanhã já não existe. Entretanto, logo que se perdeu de vista, também se perderá da memória. Ó cegueira e dureza do coração humano, que só cuida do presente, sem olhar para o futuro! De tal modo te deves haver em todas as tuas obras e pensamentos, como se fosse já a hora da morte. Se tivesses boa consciência não temerias muito a morte. Melhor fora evitar o pecado que fugir da morte. Se não estás preparado hoje, como o estarás amanhã? O dia de amanhã é incerto, e quem sabe se te será concedido?

Que nos aproveita vivermos muito tempo, quando tão pouco nos emendamos? Oh! nem sempre traz emenda a longa vida, senão que aumenta, muitas vezes, a culpa. Oxalá tivéssemos, um dia sequer, vivido bem neste mundo! Muitos contam os anos decorridos desde a sua conversão; freqüentemente, porém, é pouco o fruto da emenda. Se for tanto para temer o morrer, talvez seja ainda mais perigoso o viver muito. Bem-aventurado aquele que medita sempre sobre a hora da morte, e para ela se dispõe cada dia. Se já viste alguém morrer, reflete que também tu passarás pelo mesmo caminho.

Pela manhã, pensa que não chegarás à noite, e à noite não te prometas o dia seguinte. Por isso anda sempre preparado e vive de tal modo que te não encontre a morte desprevenido. Muitos morrem repentina e inesperadamente; pois na hora em que menos se pensa, virá o Filho do Homem (Lc 12,40). Quando vier àquela hora derradeira, começarás a julgar mui diferentemente toda a tua vida passada, e doer-te-á muito teres sido tão negligente e remisso. Continuar lendo

RETRATO DE UM HOMEM QUE ACABA DE PASSAR À OUTRA VIDA

leitoAuferes spiritum eorum, et deficient, et in pulverem suum revertentur — “Tirar-lhes-ás o espírito, e deixarão de ser, e tornar-se-ão no seu pó” (Ps. 103, 29).

Sumário. Imaginemos que estamos vendo uma pessoa que acaba de expirar. Contemplemos nesse cadáver a cabeça pendida sobre o peito, o cabelo desgrenhado, os olhos encovados, as faces descarnadas, o rosto cinzento, a língua e os lábios cor de ferro, o corpo frio e pesado. Quantas pessoas, à vista de um parente ou de um amigo morto, não mudaram de vida e deixaram o mundo!

Imagina que estás vendo uma pessoa que acaba de exalar o ultimo suspiro. Contempla esse cadáver deitado ainda no leito, a cabeça caída sobre o peito, o cabelo desgrenhado, banhado ainda no suor da morte, os olhos encavados, as faces descarnadas, o rosto cinzento, a língua e os lábios cor de ferro, o corpo todo frio e pesado. Empalidece e treme quem quer que o vê. Quantas pessoas, à vista de um parente ou amigo defunto não mudaram de vida e deixaram o mundo! — Mais horror ainda inspira o cadáver, quando começa a corromper-se. Não se passaram bem vinte e quatro horas que esse moço morreu, e já o mau cheiro se faz sentir. E preciso abrir as janelas e queimar bastante incenso; é preciso cuidar que em breve seja levado à igreja e posto debaixo da terra, para que não infeccione a casa toda.

Eis aí em que se tornou esse moço orgulhoso, esse dissoluto! Ainda há pouco acolhido e desejado nas sociedades, e agora feito objecto de horror e de abominação para quem o vê! Os parentes anseiam por fazê-lo levar para fora da casa e pagam aos coveiros para que o levem encerrado num caixão e o entreguem à sepultura. Outrora gabavam-se o espirito, a beleza, o trato fino e bons ditos; mas pouco depois de sua morte perde-se a memória de tudo isso:  Periit memoria eorum cum sonitu (1) — “A memória deles pereceu com ruído Continuar lendo

PRIMEIRO DOMINGO DO ADVENTO: A TEMERIDADE DO PECADOR E O DIA DO JUÍZO

Resultado de imagem para juizo finalVidebunt Filium hominis venientem in nube cum potestate magna et maiestate — “Verão o Filho do homem que virá sobre uma nuvem com grande poder e majestade” (Luc. 21, 27).

Sumário. Uma consideração séria nos ensina que não há atualmente no mundo pessoa mais desprezada de que Jesus Cristo; pois é injuriado tão continuamente e com tão desenfreada liberdade, como não o seria o mais vil dos homens. Eis porque o Senhor destinou um dia, no qual virá, com grande poder e majestade, a reivindicar a sua honra. Recorramos agora ao trono da divina misericórdia, para que naquele dia não sejamos condenados pela justiça de Deus.

I. Considerando bem, não há no mundo atualmente quem seja mais desprezado que Jesus Cristo. Trata-se com mais consideração um aldeão ao ver-se por demais ofendido incessantemente e de caso pensado, como se não pudesse vingar-se quando quisesse. Por isso o Senhor marcou um dia (chamado com razão, na Escritura Sagrada, o dia do Senhor, Dies Domini), quando vai dar-se a conhecer tal como é: Cognoscetur Dominus iudicia faciens (1). Diz São Bernardo, explicando este texto: O Senhor será conhecido quando vier a fazer justiça, ao passo que agora, porque quer usar de misericórdia, é desconhecido. Então esse dia não mais se chama de misericórdia e de perdão, senão dia de ira, dia de tribulação e de angústia, dia de calamidade e de miséria (2).

Conforme nos ensina o Evangelho de hoje, esse dia será precedido de sinais pavorosos. “Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas; na terra os povos estarão angustiados sob o rugido surdo e confuso do mar e das ondas; os homens morrerão com medo dos males que hão de vir sobre o mundo. Por fim, as virtudes dos céus (isto é, na interpretação dos Padres, os nove coros dos Anjos) se comoverão, e então se verá aparecer sobre as nuvens o Filho do homem, com grande poder e majestade”, a reivindicar a glória que os pecadores nesta terra lhe quiseram tirar.

Diz Santo Tomás: “Se, no horto de Getsêmani, com as palavras de Jesus Cristo: Ego sum, caíram por terra todos os soldados que O tinham vindo prender, que será, quando Jesus, sentado para julgar, disser aos condenados: “Aqui estou, sou eu aquele a quem tanto haveis desprezado”…; que será quando pronunciar contra eles a sentença eterna: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno! — Discedite a me, maledicti, in ignem aeternum! (3)” Continuar lendo

OS PECADORES E O FIM DA VIDA

Resultado de imagem para morte pecadorAos homens que caminham pela estrada da mentira resta apenas, qual fruto, a água-morta (50) para onde o demônio os convida. Tendo perdido a iluminação fé, quais cegos e loucos sem entendimento seguiram-no, como se ele dissesse: “Quem tem sede de água-morta, venha a mim, que lha darei”.

Sirvo-me do demônio qual instrumento de minha justiça para atormentar os que me ofendem. Nesta vida o coloquei qual tentador, molestando os homens. Não para que estes sejam vencidos, mas para que conquistem a vitória e o prêmio pela comprovação das virtudes(51). Ninguém deve temer as possíveis lutas e tentações do demônio.

Fortaleci os homens, dei-lhes energia para a vontade no sangue de Cristo. Demônio ou criatura alguma conseguem dobrar a vontade. Ela vos pertence, é livre. Vós, pelo livre-arbítrio, é que escolheis o que querer ou não querer alguma coisa. A vontade, todavia, pode ser entregue como arma nas mãos do diabo, que pode usá-la para vos ferir e matar.

Se a pessoa não lhe dá esta arma, se não consente ante as tentações e lisonjas do maligno, jamais pecará por tentação. Sairá dela até fortalecido e compreenderá que permito as tentações unicamente para vos conduzir ao bem e comprovar vossa virtude.

A caminhada para o bem passa pelo conhecimento de si e de mim. Este duplo conhecimento aumenta no tempo da tentação, no sentido de que o homem toma consciência da própria nulidade, percebe que não consegue evitar as dificuldades indesejáveis, reconhece minha presença a fortalecer sua vontade para não consentir nos maus pensamentos, entende que a tentação é permitida por mim, vê que o demônio é fraco e nada pode além daquilo que lhe é permitido. Aliás, é por amor, não por maldade, que permito as tentações; desejo a vossa vitória, não a derrota. Quero que me conheçais e vos conheçais, atingindo uma virtude provada, pois o bem é comprovado em seu contrário.
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NA MORTE TUDO ACABA

cemitDies mei breviabuntur; et solum mihi superest sepulchrum — “Os meus dias se abreviam, e só me resta o sepulcro” (Iob 17, 1).

Sumário. A felicidade da vida presente é comparada por Davi ao sono de um homem que desperta; porque os bens deste mundo parecem grandes, mas em realidade nada são e duram pouco, como pouco dura o sono e logo se evapora. Já que nos temos que separar um dia desses bens, desprendamo-nos de tudo aquilo que nos afasta ou nos pode afastar de Deus, e não deixemos para amanhã o bem que podemos fazer hoje. Por terem procrastinado o bem, quantos se acham agora no purgatório e quiçá no inferno!

Davi chama à felicidade da vida presente sonho de um homem que desperta:Velut somnium surgentium(1); porque os bens deste mundo parecem grandes, mas em realidade nada são e duram pouco, assim como pouco dura o sonho e logo se evapora. Este pensamento determinou São Francisco de Borja a dar-se inteiramente a Deus.

O Santo foi encarregado de acompanhar à Granada o corpo da imperatriz Isabel. Quando abriram o caixão, o aspecto horrível e o mau cheiro do cadáver afugentaram toda a gente. Mas Francisco, guiado pela luz divina, deteve-se a contemplar naquele cadáver a vaidade do mundo e exclamou fitando-o: “Sois vós então a minha imperatriz? Sois vós aquela diante de quem se prostravam respeitosos tão notáveis personagens? Ó Isabel, minha senhora, que é feito da vossa majestade, da vossa beleza?”… “É, pois, assim”, concluiu consigo, “que terminam as grandezas e coroas da terra! Quero para o futuro servir um senhor que me não possa ser roubado pela morte.” Desde então consagrou-se inteiramente ao amor de Jesus crucificado, fazendo voto de abraçar o estado religioso, o que depois executou entrando na Companhia de Jesus. Continuar lendo

SEPULTURA CATÓLICA: QUANDO CONCEDÊ-LA OU NEGÁ-LA?

Fonte: FSSPX México – Tradução: Dominus Est

Alguns católicos não sabem que a Igreja Católica pode e deve negar a sepultura eclesiástica a determinadas pessoas, ainda que sejam batizadas. Isto significa que o cadáver não pode entrar no templo para celebrar as exéquias. Não só a Igreja pode proibir a entrada do cadáver no templo, mas também pode negar a bênção. Assim, o corpo vai direto ao cemitério e será sepultado sem qualquer cerimônia religiosa.

Ao contrário disso, a Igreja recebe e honra o corpo daqueles que merecem receber os últimos ritos de defuntos. A Igreja oferece a Santa Missa pelo descanso eterno do falecido e lhe dá a absolvição sobre seu caixão. O padre acompanha o morto ao cemitério para abençoar a sepultura e pronunciar as últimas orações.

Agora, usando o Código de Direito Canônico (1917), vamos mostrar, a quem se deve conceder ou negar o sepultamento católico para, em seguida, compará-lo com o Novo CDC (João Paulo II, 1983).

A quem a tem Igreja concede a sepultura católica?

Deve-se conceder a sepultura eclesiástica a todos os batizados, a menos que Código de Direito Canônico (a lei da igreja) expressamente os prive dela (Can. 1239 §3; Novo 1176,§1). Os Catecúmenos (ou seja, os adultos que se preparam para o batismo) que sem nenhuma culpa própria morreram sem o batismo se igualam aos batizados (Can. 1239 §2, Novo 1183 §1) já que tinham o desejo de receber batismo (Batismo de desejo, como o desejo que teve o bom ladrão). Nos países onde há cemitérios católicos essas pessoas têm o direito a serem sepultadas neles; o cemitério católico é um terreno consagrado como um campo santo para os fiéis defuntos. Continuar lendo