RETRATO DE UM HOMEM QUE ACABA DE PASSAR À OUTRA VIDA

leitoAuferes spiritum eorum, et deficient, et in pulverem suum revertentur — “Tirar-lhes-ás o espírito, e deixarão de ser, e tornar-se-ão no seu pó” (Ps. 103, 29).

Sumário. Imaginemos que estamos vendo uma pessoa que acaba de expirar. Contemplemos nesse cadáver a cabeça pendida sobre o peito, o cabelo desgrenhado, os olhos encovados, as faces descarnadas, o rosto cinzento, a língua e os lábios cor de ferro, o corpo frio e pesado. Quantas pessoas, à vista de um parente ou de um amigo morto, não mudaram de vida e deixaram o mundo!

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Imagina que estás vendo uma pessoa que acaba de exalar o ultimo suspiro. Contempla esse cadáver deitado ainda no leito, a cabeça caída sobre o peito, o cabelo desgrenhado, banhado ainda no suor da morte, os olhos encavados, as faces descarnadas, o rosto cinzento, a língua e os lábios cor de ferro, o corpo todo frio e pesado. Empalidece e treme quem quer que o vê. Quantas pessoas, à vista de um parente ou amigo defunto não mudaram de vida e deixaram o mundo! — Mais horror ainda inspira o cadáver, quando começa a corromper-se. Não se passaram bem vinte e quatro horas que esse moço morreu, e já o mau cheiro se faz sentir. E preciso abrir as janelas e queimar bastante incenso; é preciso cuidar que em breve seja levado à igreja e posto debaixo da terra, para que não infeccione a casa toda.

Eis aí em que se tornou esse moço orgulhoso, esse dissoluto! Ainda há pouco acolhido e desejado nas sociedades, e agora feito objecto de horror e de abominação para quem o vê! Os parentes anseiam por fazê-lo levar para fora da casa e pagam aos coveiros para que o levem encerrado num caixão e o entreguem à sepultura. Outrora gabavam-se o espirito, a beleza, o trato fino e bons ditos; mas pouco depois de sua morte perde-se a memória de tudo isso:  Periit memoria eorum cum sonitu (1) — “A memória deles pereceu com ruído

Ao ouvirem a noticia de sua morte, uns dizem que era homem honrado, outros que deixou os negócios em bom estado; uns lamentam-se, porque o defunto era-lhes útil; outros regozijam-se, porque a morte dele lhes traz proveito. Por fim, dentro em breve, já ninguém falará nele. Desde os primeiros dias os parentes mais chegados não querem ouvir falar dele a fim de não se lhes avivar a saudade. Nas visitas de pêsames trata-se de outros assuntos, e se alguém por ventura fala do defunto, logo os parentes atalham: Por favor, não pronuncieis mais o seu nome. E entretanto, onde é que estará a alma daquele infeliz? Continuar lendo

NA MORTE TUDO ACABA

cemitDies mei breviabuntur; et solum mihi superest sepulchrum — “Os meus dias se abreviam, e só me resta o sepulcro” (Iob 17, 1).

Sumário. A felicidade da vida presente é comparada por Davi ao sono de um homem que desperta; porque os bens deste mundo parecem grandes, mas em realidade nada são e duram pouco, como pouco dura o sono e logo se evapora. Já que nos temos que separar um dia desses bens, desprendamo-nos de tudo aquilo que nos afasta ou nos pode afastar de Deus, e não deixemos para amanhã o bem que podemos fazer hoje. Por terem procrastinado o bem, quantos se acham agora no purgatório e quiçá no inferno!

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Davi chama à felicidade da vida presente sonho de um homem que desperta:Velut somnium surgentium(1); porque os bens deste mundo parecem grandes, mas em realidade nada são e duram pouco, assim como pouco dura o sonho e logo se evapora. Este pensamento determinou São Francisco de Borja a dar-se inteiramente a Deus.

O Santo foi encarregado de acompanhar à Granada o corpo da imperatriz Isabel. Quando abriram o caixão, o aspecto horrível e o mau cheiro do cadáver afugentaram toda a gente. Mas Francisco, guiado pela luz divina, deteve-se a contemplar naquele cadáver a vaidade do mundo e exclamou fitando-o: “Sois vós então a minha imperatriz? Sois vós aquela diante de quem se prostravam respeitosos tão notáveis personagens? Ó Isabel, minha senhora, que é feito da vossa majestade, da vossa beleza?”… “É, pois, assim”, concluiu consigo, “que terminam as grandezas e coroas da terra! Quero para o futuro servir um senhor que me não possa ser roubado pela morte.” Desde então consagrou-se inteiramente ao amor de Jesus crucificado, fazendo voto de abraçar o estado religioso, o que depois executou entrando na Companhia de Jesus.

Tinha, portanto, razão certo homem desiludido quando escreveu estas palavras sobre um crânio: Cogitanti vilescunt omnia — “Tudo se afigura desprezível àquele que reflete”. Quem pensa na morte, não pode amar a terra. Mas porque é que há tantos desgraçados que amam este mundo? Porque não pensam na morte. — Filii hominum, usquequo gravi corde (2) — Pobres filhos de Adão, diz o Espírito Santo, porque não arrancais do coração tantas afeições terrenas que vos fazem amar a vaidade e a mentira? O que aconteceu a vossos pais, acontecer-vos-á também. Habitaram eles essa mesma morada, dormiram nesse mesmo leito, e agora não estão mais aí. O mesmo vos acontecerá igualmente. Continuar lendo

IMPORTÂNCIA DA SALVAÇÃO – PONTO III

Resultado de imagem para rezando igrejaNegócio importante, negócio único, negócio irreparável. Não há falta que se possa comparar, diz Santo Eusébio, ao desprezo da salvação eterna. Todos os demais erros podem ter remédio. Perdidos os bens, é possível readquirir outros por meio de novos trabalhos. Perdido um emprego, pode ser recuperado. Ainda no caso de perder a vida, se salvar a alma, tudo está preparado. Mas para quem se condena, não há possibilidade de remédio. Morre-se uma vez, e perdida uma vez a alma, está perdida para sempre. Só resta o pranto eterno com os outros míseros insensatos do inferno, cuja pena e maior tormento consiste em pensar que para eles já não há mais tempo de remediar sua desdita (Jr 8,20). Perguntai a esses sábios do mundo, mergulhados agora no fogo infernal, perguntai-lhes o que sentem e pensam; se estão contentes por terem feito fortuna na terra, mesmo que se condenaram à eterna prisão.

Escutai como gemem dizendo: Erramos, pois… (Sb 5,6). Mas de que lhes serve agora reconhecer o seu erro, quando já a condenação é irremediável para sempre? Qual não seria o pesar daquele que, tendo podido prevenir e evitar com pouco esforço a ruína de sua casa, a encontrasse um dia desabada, e só então considerasse seu próprio descuido, quando não houvesse já remédio possível? Esta é a maior aflição dos réprobos: pensar que perderam sua alma e se condenaram por sua culpa (Os 13,9). Disse Santa Teresa que, se alguém perde, por sua culpa, um vestido, um anel ou outro objeto, perde a tranquilidade e, às vezes, não come nem dorme. Qual será, pois, ó meu Deus, a angústia do condenado quando, ao entrar no inferno, se vir sepultado naquele cárcere de tormentos, e, atendendo à sua desgraça, considerar que durante toda a eternidade não há de chegar remédio algum! Sem dúvida exclamará:

“Perdi a alma e o paraíso, perdi a Deus; tudo perdi para sempre, e por quê? por minha culpa! E se alguém objetar: Mesmo que cometa este pecado, porque hei de me condenar?… Acaso, não poderei salvar-me? Responder-lhe-ei: Também pode ser que te condenes”.

Ainda direi que até há mais probabilidade em favor de tua condenação, porque a Santa Escritura ameaça com este tremendo castigo aos pecadores obstinados, como tu o és neste instante. Continuar lendo

IMPORTÂNCIA DA SALVAÇÃO – PONTO II

A salvação eterna não é só o mais importante, senão o único negócio que nesta vida nos impende (Lc 10,42). São Bernardo deplora a cegueira dos cristãos que, qualificando de brinquedos infantis certos passatempos da infância, chamam negócios sérios suas ocupações mundanas. Maiores loucuras são as néscias puerilidades dos homens.

“Que aproveita ao homem — disse o Senhor — ganhar o mundo inteiro e perder sua alma?” (Mt 16,26).

Se tu te salvas, meu irmão, nada importa que no mundo hajas sido pobre, perseguido e desprezado. Salvando-te, acabar-se-ão os males e serás feliz por toda a eternidade. Mas, se te enganares e te perderes, de que te servirá no inferno haveres desfrutado de todos os prazeres do mundo, teres sido rico e cortejado? Perdida a alma, tudo está perdido: honras, divertimentos e riquezas.

Que responderás a Jesus Cristo no dia do juízo? Se um rei enviasse um embaixador a uma grande cidade, a fim de tratar de um negócio importante, e esse ministro, em vez de ali dedicar-se à missão que lhe fora confiada, só se ocupasse de banquetes, festas e espetáculos, de modo que por sua negligência fracassasse a negociação, que contas poderia dar ao rei à sua volta? Do mesmo modo, ó meu Deus, que conta poderá dar ao Senhor no dia do juízo, aquele que, colocado neste mundo, não para divertir-se, nem enriquecer, nem adquirir honras, senão para salvar sua alma, infelizmente a tudo atendeu, menos à sua alma? Os mundanos não pensam no presente e nunca no futuro. São Filipe Néri, falando certa vez em Roma com um jovem talentoso chamado Francisco Nazzera, assim se expressou:

“Tu, meu filho, terás carreira brilhante: serás bom advogado, depois prelado, a seguir cardeal, quem sabe? talvez Papa… mas depois? e depois? Ide, disse-lhe alfim, pensai nestas últimas palavras.” Continuar lendo

A GLÓRIA E O PODER NO LEITO DA MORTE

morteCum interierit (homo), non sumet omnia, neque descendet cum eo gloria eius — “Em morrendo, nada levará (o homem) consigo; nem a sua glória descerá com ele” (Ps. 48, 17).

Sumário. É certo que a morte não respeita nem riquezas, nem poder, nem a púrpura; e quem morre (ainda que seja príncipe) nada leva consigo para a sepultura; deixa toda a glória no leito em que expira. Como é possível que os cristãos, pensando nisto, se apeguem aos bens da terra e não deixem antes tudo para se consagrarem inteiramente a Jesus Cristo, que os julgará conforme as suas obras? Se no passado fomos tão insensatos, sejamos mais prudentes para o futuro, e tomemos a resolução de sermos sempre fiéis no serviço divino.

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Quando Filipe II, rei de Espanha, estava próximo da morte, mandou vir o filho, e, abrindo o vestido real, mostrou-lhe o peito roído pelos vermes, e disse: “Príncipe, vede como se morre e como acabam todas as grandezas deste mundo!” Com razão disse Teodoreto: “A morte não respeita riqueza, nem poder, nem a púrpura; tanto os súditos como os príncipes serão reduzidos à corrupção e à podridão.” — Quem morre, ainda que seja rei, nada levará consigo ao túmulo; deixará toda a glória no leito em que expira. Em morrendo, nada levará (o homem) consigo; nem a sua glória descerá com ele. Ó Deus! Como é possível que, pensando nisto, um cristão que crê nas verdades da fé, não deixe tudo para se consagrar inteiramente a Jesus Cristo, que nos julgará segundo as nossas obras?

Refere Santo Antonino que, depois da morte de Alexandre Magno, certo filósofo exclamou: “Eis ai: o que ontem dominava a terra é hoje por ela oprimido. Aquele cuja ambição ontem nem toda a terra bastava, contenta-se hoje com o espaço de sete palmos. Ontem corria a terra à testa dos seus exércitos; hoje, meia dúzia de homens o depositam nela.” — Mas escutemos antes o que Deus nos diz: Quid superbit, terra et cinis? (1) Ó homem, não vês que és terra e cinza? De que te ensoberbeces pois? Porque só pensas e consomes o tempo com o fim de te elevares no mundo? Virá a morte e então se dissiparão todas as tuas grandezas e todos os teus projetos: In illa die peribunt cogitationes eorum (2) — “Naquele dia perecerão todos os seus pensamentos”.

Quanto mais doce não foi a morte de São Paulo Ermita, que viveu 60 anos retirado numa gruta, do que a de Nero, que em vida foi imperador de Roma! Quanto mais feliz não foi a morte de São Felix, simples frade capuchinho, do que a de Henrique VIII, que passou a vida nas pompas do trono, mas na inimizade de Deus! Continuar lendo

IMPORTÂNCIA DA SALVAÇÃO – PONTO I

Resultado de imagem para rezando joelhoRogamus autem vos, fratres… ut vestrum negotium agatis. – “Mas vos rogamos, irmãos, a avançar cada vez mais” (1Ts 4,10)

O negócio da eterna salvação é, sem dúvida, o mais importante, e, contudo, é aquele de que os cristãos mais se esquecem. Não há diligência que não se efetue, nem tempo que não se aproveite para obter algum cargo, ganhar uma demanda, ou contratar tal casamento…

Quantos conselhos, quantas precauções se tomam! Não se come, não se dorme!… E para alcançar a salvação eterna? Que se faz? Que procedimento se segue?… Nada se costuma fazer; ao contrário, tudo o que se faz é para perdê-la, e a maior parte dos cristãos vive como se a morte, o juízo, o inferno, a glória e a eternidade não fossem verdades da fé, mas apenas fábulas inventadas pelos poetas. Quanta aflição quando se perde um processo ou uma colheita e quanto cuidado para reparar o prejuízo!… Quando se extravia um cavalo ou um cão, quantas diligências para encontrá-los. Muitos perdem a graça de Deus, e entretanto dormem, riem-se e gracejam!… Coisa estranha, por certo! Não há quem não core ao passar por negligente nos negócios do mundo, e a ninguém causa rubor olvidar o grande negócio da salvação, que mais do que tudo importa. Confessam que os Santos são verdadeiros sábios porque só trabalharam para salvar-se, enquanto eles atendem a todas as coisas do mundo, sem se importar com sua alma. Mas vós — disse São Paulo — vós, meus irmãos, pensai unicamente no magno assunto de vossa salvação, pois constitui o negócio da mais alta importância.

Persuadamo-nos, pois, de que a felicidade eterna é para nós o negócio mais importante, o negócio único, o negócio irreparável se não o pudermos realizar.

É, sem contestação, o negócio mais importante, porque é das mais graves consequências, em vista de se tratar da alma, e, perdendo-se esta, tudo está perdido. Devemos estimar a alma — disse São João Crisóstomo — como o mais precioso dos bens. Para compreender esta verdade, basta considerar que Deus sacrificou seu próprio Filho à morte para salvar nossas almas (Jo 3,16). O Verbo Eterno não vacilou em resgatá-las com seu próprio sangue (1Cor 6,20). De maneira que — disse um Santo Padre, — parece que o homem vale tanto como Deus. Continuar lendo

VALOR DO TEMPO – PONTO III

Resultado de imagem para olhando horizonteDevemos caminhar pela via do Senhor enquanto temos vida e luz, porque esta logo desaparece na morte (Lc 12,40). Então já não é tempo para preparar-se, mas de estar pronto (Jo 12,35). Quando chega a morte, não se pode fazer nada: o que está feito está feito… Ó Deus! Se alguém soubesse que em breve se decidiria a causa de sua vida ou morte, ou de toda a sua fortuna, com que ardor não procuraria um bom advogado, diligenciaria para que os juízes conhecessem nitidamente as razões que lhe assistem, e trataria de empregar os meios para obter sentença favorável!… O que fazemos nós? Sabemos com certeza que muito brevemente, no momento em que menos o pensamos, se há de julgar a causa do maior negócio que temos, isto é, do negócio de nossa salvação eterna… e ainda perdemos tempo? Dirá talvez alguém:

“Sou ainda moço; mais tarde me converterei a Deus”.

Sabe — respondo — que o Senhor amaldiçoou aquela figueira que achou sem frutos, posto que não fosse estação própria, como observa o Evangelho (Mc 11,13). Com este fato quis Jesus Cristo dar-nos a entender que o homem, em todo tempo, sem excetuar a mocidade, deve produzir frutos de boas obras, senão será amaldiçoado e nunca mais dará frutos no futuro. Nunca jamais coma alguém fruto de ti (Mc 11,14). Assim falou o Redentor àquela árvore, e do mesmo modo amaldiçoa a quem ele chama e lhe resiste… Circunstância digna de admiração! Ao demônio parece breve a duração de nossa vida, e é por isso que não deixa escapar ocasião de nos tentar.

“Desceu a vós o demônio com grande ira, sabendo que lhe resta pouco tempo” (Ap 12,12). Continuar lendo

VALOR DO TEMPO – PONTO II

Resultado de imagem para ampulhetaNada há mais precioso que o tempo e não há coisa menos estimada nem mais desprezada pelos mundanos. Isto deplora São Bernardo, dizendo:

“Passam rapidamente os dias de salvação, e ninguém reflete que esses dias desaparecem e jamais voltam”.

Vede aquele jogador que perde dias e noites na tavolagem. Perguntai-lhe o que fez e responderá: “Passar o tempo”. Vede o ocioso que se entretém horas inteiras na rua a ver quem passa, ou a falar em coisas obscenas ou inúteis. Se lhe perguntam o que está fazendo, dirá que não faz mais do que passar o tempo. Pobres cegos, que assim vão perdendo tantos dias, dias que nunca mais voltam! Ó tempo desprezado! tu serás a coisa que os mundanos mais desejarão no transe da morte… Queremos então dispor de mais um ano, mais um mês, mais um dia; mas não o terão, e ouvirão dizer que já não haverá mais tempo (Ap 10,6). O que não daria então cada um deles para ter mais uma semana, um dia de vida, a fim de poder melhor ajustar as contas da alma!… Ainda que fosse para alcançar só uma hora — disse São Lourenço Justiniano — dariam todos os seus bens. Mas não obterão essa hora de trégua… Pronto, dirá o sacerdote que o estiver assistindo, apressa-te a sair deste mundo; já não há mais tempo para ti.

Por isso, exorta o profeta a que nos lembremos de Deus e procuremos sua graça antes que a luz se nos extinga (Ecl 12,1-2). Que apreensão não sentirá um viajante ao notar que se transviou no caminho, quando, por ser já noite, não lhe é possível reparar o engano!… Tal será a mágoa na morte do que tiver vivido muitos anos sem empregá-los no serviço de Deus. Continuar lendo

VALOR DO TEMPO – PONTO I

Resultado de imagem para valor do tempoFili, conserva tempus – “Filho, aproveita o tempo” (Sr 4, 23)

Diligencia, meu filho, — diz o Espírito Santo, — em empregar bem o tempo, porque é a coisa mais preciosa, riquíssimo dom que Deus concede ao homem mortal. Até os próprios gentios tinham conhecimento de seu valor. Sêneca dizia que nada pode equivaler ao valor do tempo. Com maior estimação ainda o apreciaram os Santos. Afirma São Bernardino de Sena que um só momento vale tanto como Deus, porque nesse instante, com um ato de contrição ou de amor perfeito, pode o homem adquirir a graça divina e a glória eterna.

O tempo é um tesouro que só se acha nesta vida, mas não na outra, nem no céu, nem no inferno. É este o grito dos condenados: Oh! se tivéssemos uma hora!”… Por todo o preço comprariam uma hora a fim de reparar sua ruína; porém, esta hora jamais lhes será dada. No céu não há pranto; mas se os bemaventurados pudessem sofrer, chorariam o tempo perdido na sua vida mortal, o qual lhes poderia ter servido para alcançar grau mais elevado na glória; porém, já se passou a época de merecer. Uma religiosa beneditina, depois da morte, apareceu radiante de glória a uma pessoa e lhe revelou que gozava plena felicidade, mas, se algo pudesse desejar, seria unicamente voltar ao mundo para sofrer mais e assim alcançar maior mérito. Acrescentou que de boa vontade sofreria até ao dia do juízo a dolorosa enfermidade que a levou à morte, contanto que conseguisse a glória que corresponde ao mérito de uma só Ave Maria.

E tu, meu irmão, em que empregas o tempo?… Por que sempre adias para amanhã o que podes fazer hoje? Reflete que o tempo passado desapareceu e já não te pertence; que o futuro não depende de ti. Continuar lendo

O GRANDE SEGREDO DA MORTE

abcO mors, bonum est iudicium tuum homini indigenti — “Ó morte, é bom o teu juízo para o homem necessitado” (Ecclus. 41, 3).

Sumário. Durante a vida, as paixões fazem que os bens terrestres pareçam de modo muito diferente do que são; a morte, porém, mostra-os na sua verdade: fumaça, lodo e miséria. Meu Deus! Para que servirão as riquezas, quando não nos restar senão uma simples mortalha? Para que servirão honras e dignidades, quando não tivermos nada senão um cortejo fúnebre? Para que servirá a beleza do corpo, quando nada mais nos ficar senão vermes e podridão? Que grande segredo é o da morte! Como seria bem regrada a nossa vida se o soubéssemos aproveitar bem!

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Oh, quantas pessoas podem repetir a palavra do rei Ezequias: Praecisa est velut a texente vita mea (1) — “A minha vida foi cortada como por um tecelão”. Apenas estão urdindo a tela, isto é, planejando e executando os seus projetos terrestres, combinados com tanta prudência, senão quando vem a morte e põe fim a tudo! Então, ao clarão do último facho, todas as coisas do mundo desaparecem: aplausos, regozijos, pompas e grandezas. — Grande segredo o da morte! Ela nos faz ver o que não vêem os amantes do mundo. As fortunas mais cobiçadas, os postos mais eminentes, os triunfos mais magníficos, perdem todo o brilho, quando considerados no leito da morte. Convertem-se então em indignação contra a nossa própria loucura as idéias que tínhamos formado acerca de certas felicidades ilusórias. A sombra negra e sinistra da morte encobre e obscurece todas as dignidades, sem excetuar as dos reis.

Durante a vida, as paixões fazem que os bens terrestes pareçam muito diferentes do que são; a morte tira-lhes a máscara e mostra o que são na verdade: fumaça, lodo, vaidade e miséria. — Meu Deus, para que servirão na hora da morte riquezas, título, reinos, quando nada nos restar senão um esquife de madeira e uma simples mortalha para nos cobrir o corpo? Para que servirão as dignidades e as honras, quando nada mais tivermos senão um cortejo fúnebre e pomposas exéquias, que de nada valerão à alma, se esta estiver perdida? Para que servirá a beleza do corpo, quando, ainda antes de morrer, se tornar em vermes, podridão e pouco depois em um punhado de pó infecto?

Posuit me quasi in proverbium vulgi, et exemplum sum coram eis (2) — “Ele me reduziu a ser como um provérbio do povo, e estou feito diante deles um exemplo”. — Morre tal ricaço, tal ministro, tal general e sua morte será apregoada por toda a parte; mas se viveu mal, tornar-se-á alvo dos ataques do povo; e como prova da vaidade do mundo e também da divina justiça, servirá para exemplo dos outros. – Na cova estará confundido entre os cadáveres dos pobres: Parvus et magnus ibi sunt (3) — “O pequeno e o grande ali estão”. Que lhe valeu a bela estatura do corpo, agora que não é senão um montão de vermes? Que lhe valeu a autoridade que possuía, agora que seu corpo está condenado a apodrecer numa vala e sua alma a arder no inferno? Continuar lendo

MEIOS DE PREPARAR-SE PARA A MORTE – PONTO III

Imagem relacionadaÉ necessário o cuidado de nos acharmos em qualquer tempo, como quiséramos estar na hora da morte.

“Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor” (Ap 14,13).

Diz Santo Ambrósio que morrem felizmente aqueles que ao morrer já estão mortos para o mundo, ou seja desprendidos dos bens que por força então hão de deixar. Por isso, é necessário que desde já aceitemos o abandono de nossa fazenda, a separação de nossos parentes e de todos os bens terrenos. Se não o fizermos voluntariamente durante a vida, forçosa e necessariamente o teremos de fazer na morte, com a diferença de que então não será sem grande dor e grave perigo de nossa salvação eterna. Adverte-nos, neste propósito, Santo Agostinho, que constitui grande alívio, para morrer tranquilo, regular em vida os interesses temporais, fazendo previamente as disposições relativas aos bens que temos de deixar, a fim de que na hora derradeira somente pensemos em nossa união com Deus. Convirá então só ocupar-se das coisas de Deus e da glória, pois são demasiadamente preciosos os últimos momentos da vida para dissipá-los em assuntos terrenos. No transe da morte se completa e se aperfeiçoa a coroa dos justos, porque é então que se recolhe a melhor soma de méritos, abraçando as dores e a própria morte com resignação ou amor.

Mas não poderá ter na morte estes bons sentimentos quem neles não se exercitou durante a vida. Para este fim alguns fiéis praticam, com grande aproveitamento, a devoção de renovar em cada mês o protesto da morte, com todos os atos em tal transe próprios de um cristão, e isto depois de receber os sacramentos da confissão e comunhão, imaginando que se acham moribundos e a ponto de sair desta vida.

O que se não faz na vida, difícil é fazê-lo na morte. A grande serva de Deus, irmã Catarina de Santo Alberto, filha de Santa Teresa, suspirava na hora da morte, exclamando: Continuar lendo

MEIOS DE PREPARAR-SE PARA A MORTE – PONTO II

Resultado de imagem para moribundoJá que é certo, meu irmão, que tens de morrer, prostra-te aos pés do Crucifixo; agradece-lhe o tempo que sua misericórdia te concede para regular tua consciência, e passa em revista a seguir todas as desordens de tua vida passada, especialmente as de tua mocidade. Considera os mandamentos divinos: recorda os cargos e ocupações que tiveste, as amizades que cultivastes; anota tuas faltas e faze — se ainda a não fizeste — uma confissão geral de toda a tua vida… Oh! quanto contribui a confissão geral para pôr em boa ordem a vida de um cristão.

Cuida que essa conta sirva para a eternidade, e trata de resolvê-la como se a apresentasses no tribunal de Jesus Cristo. Afasta de teu coração todo afeto mau e todo rancor ou ódio. Satisfaze qualquer motivo
de escrúpulo acerca dos bens alheios, da reputação lesada, de escândalos dados, e propõe firmemente
fugir de todas as ocasiões em que possas perder a Deus. Pensa que aquilo que agora parece difícil, impossível te parecerá no momento da morte.

O que mais importa é que resolvas pôr em execução os meios de conservar a graça de Deus. Esses meios são: ouvir Missa diariamente; meditar nas verdades eternas; fazer, ao menos uma vez por semana, a confissão e receber a comunhão; visitar todos os dias o Santíssimo Sacramento e a Virgem Maria; assistir aos exercícios das congregações ou irmandades a que pertenças; praticar a leitura espiritual; fazer todas as noites exame de consciência; escolher alguma devoção especial à Virgem, como jejuar todos os sábados, e, por fim, propor recomendar- se a Deus e à sua Mãe Santíssima, invocando a miúdo, sobretudo no tempo da tentação, os santíssimos nomes de Jesus e Maria. Continuar lendo

MEIOS DE PREPARAR-SE PARA A MORTE – PONTO I

Resultado de imagem para moribundoMemorare novissima tua, et in aeternum non peccabis. – “Lembra-te de teus novíssimos, e não pecarás jamais” (Ecl 7, 40)

Todos cremos que temos de morrer, que só uma vez havemos de morrer e que não há coisa mais importante que esta, porque do instante da morte depende a eterna bem-aventurança ou a eterna desgraça.

Todos sabemos também que da boa ou má vida depende o ter boa ou má sorte. Como se explica, pois, que a maior parte dos cristãos vivem como se nunca devessem morrer, ou como se importasse pouco morrer bem ou mal? Vive-se mal porque não se pensa na morte:

“Lembra-te de teus novíssimos, e não pecarás jamais.”

É preciso persuadirmo-nos de que a hora da morte não é o momento próprio para regular contas e assegurar com elas o grande negócio da salvação. As pessoas prudentes deste mundo tomam, nos negócios temporais, todas as precauções necessárias para obter tal benefício, tal cargo, tal casamento conveniente, e, com o fim de conservar ou restabelecer a saúde do corpo, não deixam de empregar os remédios adequados. Que se diria de um homem que, tendo de apresentar-se ao concurso de uma cadeira, esperasse, para adquirir a indispensável habilitação, até ao momento de acudir aos exercícios? Não seria um louco o comandante de uma praça que esperasse vê-la sitiada para fazer provisões de víveres e armamentos? Não seria insensato o navegante que aguardasse a tempestade para munir-se de âncoras e cabos?… Tal é, todavia, o procedimento do cristão que difere até à hora da morte o regular o estado de sua consciência.

“Quando cair sobre eles a destruição como uma tempestade… Então invocar-me-ão e não os escutarei… Comerão os frutos do seu mau proceder” (Pr 1,27.28.31).

A hora da morte é tempo de confusão é de tormenta. Então os pecadores implorarão o socorro do Senhor, mas sem conversão verdadeira, unicamente com o receio do inferno, em que se veem próximos a cair. É por este motivo justamente que não poderão provar outros frutos que os de sua má vida. Continuar lendo

PAZ DO JUSTO NA HORA DA MORTE – PONTO III

Resultado de imagem para morte do justoPor que há de temer a morte quem espera depois da mesma ser coroado no céu? — disse São Cipriano. — Como pode temê-la quem sabe que, morrendo na graça, alcançará seu corpo a imortalidade? (1Cor 15,33).

Para aquele que ama a Deus e deseja vê-lo — nos diz Santo Agostinho, — pena é a vida e alegria é a morte. São Tomás de Vilanova disse também:

“Se a morte acha o homem dormindo, vem como ladrão, despoja- o, mata-o e o lança no abismo do inferno; mas, se o encontra vigilante, saúda-o como enviada de Deus, dizendo: O Senhor te espera para as bodas; vem, que te conduzirei ao reino bem-aventurado a que aspirais”.

Com quanta alegria espera a morte aquele que se acha na graça de Deus, a fim de poder ver a Jesus e ouvi-lo dizer:

“Muito bem, servo bom e fiel, porque foste fiel no pouco, te porei sobre muito” (Mt 25,21)

Que consolação não darão então as penitências, as orações, o desprendimento dos bens terrenos e tudo que se fez por Deus! Aquele que amou a Deus gozará então o fruto de suas boas obras (Is 3,10). Persuadido desta verdade, o Padre Hipólito Durazzo, da Companhia de Jesus, jamais se entristecia, mas se alegrava quando morria algum religioso dando sinais de salvação.

“Não seria absurdo — disse São Crisóstomo — crer na glória eterna, e lastimar aquele que para lá se dirige?”

Especial consolação darão nesse momento as homenagens prestadas à Mãe de Deus, os rosários e as visitas, os jejuns praticados aos sábados em honra da Virgem, o haver pertencido às Congregações Marianas… Virgo fidelis chamamos a Maria e, na verdade, fidelíssima se mostra para consolar a seus devotos em sua última hora! Um moribundo, que em vida fora servo devotíssimo da Virgem, contou ao Padre Binetti: Continuar lendo

PAZ DO JUSTO NA HORA DA MORTE – PONTO II

Resultado de imagem para morte do justo “As almas dos justos estão nas aos Deus e não os tocará o tormento da morte. Pareceu, aos olhos dos insensatos, que morriam, mas elas estão na paz” (Sb 3,1)

Parece aos olhos dos insensatos que os servos de Deus morrem na aflição e contra sua vontade, do mesmo modo como os mundanos. Mas não é assim, porque Deus bem sabe consolar os seus filhos no derradeiro transe, e comunicar-lhes, mesmo entre as dores da morte, maravilhosa doçura, como antecipado sabor da glória que brevemente lhes dá de outorgar. Assim como os que morrem em pecado começam já a sentir no leito mortuário algo das penas do inferno, pelo remorso, pelo terror e pelo desespero, os justos, ao contrário, com seus atos frequentíssimos de amor a Deus, seus desejos e esperanças de gozar a presença do Senhor, já antes de morrer começam a desfrutar aquela santa paz que depois gozarão plenamente no céu. A morte dos Santos não é castigo, mas sim recompensa.

Quando dá o sono a seus amados, eis aqui a herança do Senhor (Sl 126,2-3). A morte daquele que ama a Deus não é morte, mas sono; de sorte que bem poderá exclamar:

“Dormirei e repousarei na paz do Senhor” (Sl 4,8)

O Padre Soares morreu em tão doce paz, que disse ao expirar:

“Nunca pude imaginar que a morte me trouxesse tal suavidade”!

O Cardeal Barônio foi admoestado por seu médico que não pensasse tanto na morte; ao que ele respondeu:

“Por que não? Acaso hei de temê-la? Não a receio; ao contrário, amo-a”

Segundo refere Santero, o Cardeal Ruffens, preparando-se para morrer pela fé, mandou que lhe trouxessem o seu melhor traje, dizendo que ia às bodas. Quando avistou o patíbulo, atirou para longe o báculo em que se apoiava, e exclamou: Eia, meus pés, caminhai depressa, que o paraíso está perto. Antes de morrer, entoou o “Te Deum” para render graças a Deus de o fazer mártir da fé, e, cheio de alegria, ofereceu a cabeça ao verdugo. São Francisco de Assis cantava na hora da morte e convidou a que o acompanhassem os demais religiosos presentes. Continuar lendo

PAZ DO JUSTO NA HORA DA MORTE – PONTO I

Resultado de imagem para morte do justoJustorum animae in manu Dei sunt; non tanget illos tormentum mortis; visii sunt oculis insipientium mori, illi autem sunt in pace – “As almas dos justos estão na mão de Deus e não os tocará o tormento da morte. Pareceu aos olhos dos insensatos que morriam; mas eles estão em paz” (Sb 3, 1)

Justorum animae in manu Dei sunt. Se Deus tem em suas mãos as almas dos justos: quem é que poderá lhas arrebatar? Certo é que o inferno não deixa de tentar e perseguir os próprios Santos na hora da morte, mas Deus, — diz Santo Ambrósio, — não cessa de assisti-los, aumentando seu socorro à medida em que cresce o perigo de seus servos fiéis. O servo de Eliseu ficou consternado quando viu a cidade cercada de inimigos. Mas o Santo animou-o, dizendo: “Não temas, porque há mais gente conosco que da parte deles” (4Rs 6,16), e em seguida mostrou-lhe um exército de anjos enviados por Deus para a sua defesa. O demônio não deixará de tentar o moribundo, mas acudirá também o Anjo da Guarda para confortá-lo; virão os santos protetores; virá São Miguel, destinado por Deus para a defesa dos servos fiéis, no combate derradeiro; virá a Virgem Santíssima, e acolhendo sob o seu manto quem foi seu devoto, derrotará os inimigos; virá Jesus Cristo mesmo a livrar das tentações essa ovelha inocente ou penitente, cuja salvação lhe custou a vida. Dar-lhe-á a esperança e a força necessária para vencer nessa batalha, e a alma, cheia de valor, exclamará:

“O Senhor se fez meu auxiliador” (Sl 29,11).

“O senhor é a minha luz e a minha salvação: que tenho a recear?” (Sl 26,1)

Deus é mais solícito para salvar-nos do que o demônio para perder-nos; porque Deus nos tem mais amor que aborrecimento nos tem o demônio. Deus é fiel — disse o Apóstolo, e não permite que sejamos tentados além das nossas forças (1Cor 10,13). Dir-me-eis que muitos santos morreram com receio da sua salvação. Respondo que são pouquíssimos os exemplos de pessoas que, depois de uma vida boa, tenham morrido com esse temor. Vicente de Beauvais diz que o Senhor permite, às vezes, que isto ocorra a alguns justos, a fim de, na hora da morte, purificá-los de certas faltas leves. Por outra parte, lemos que quase todos os servos de Deus morreram com o sorriso nos lábios. Todos tememos na morte o juízo de Deus; mas, assim como os pecadores passam desse temor ao horrendo desespero, os justos passam do temor à esperança. Continuar lendo

DESPREZO DO MUNDO COM O PENSAMENTO DA MORTE

tristeza4Qui utuntur hoc mundo, tamquam non utantur; praeterit enim figura huius mundi – “Os que usam deste mundo, sejam como se não usassem; porque a figura deste mundo passa” (I Cor. 7, 31).

Sumário. A sombra sinistra da morte escurece o brilho de todos os cetros e coroas; faz-nos compreender que o que o mundo estima não é senão fumaça, lodo e miséria. Com efeito, para que servem as riquezas, as dignidades e as honras, já que depois da morte não nos restará nada senão um caixão, dentro do qual nosso corpo se corromperá? Para que serve a beleza e a saúde do corpo, já que afinal não restará nada senão um punhado de pó nojento e alguns ossos descarnados? Nossas obras somente acompanhar-nos-ão para a eternidade. Todavia quão poucos são os que procuram fazer provisão de boas obras?

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I. O pensamento da vaidade do mundo e que tudo o que o mundo estima não é senão ilusão e engano fez muitas almas resolverem a dar-se inteiramente a Deus. Quid prodest homini, si mundum universum lucretur? (1) – De que servirá ganhar o mundo inteiro a quem tenha perdido a alma para sempre? Penetrados desta grande máxima do Evangelho, quantos jovens se resolveram a deixar parentes, pátria, riquezas, honras, mesmo coroas, para encerrar-se num convento, ou ocultar-se num deserto, afim de só pensarem em Deus! – O dia da morte é chamado dia de perdição: Iuxta est dies perditionis (2). Dia de perdição, sim, porque todos os bens que possamos adquirir nesta terra teremos de deixá-los todos no dia da morte. Pelo que Santo Ambrósio nota com muita sabedoria que erradamente chamamos nossos os bens terrestres, já que não os podemos levar conosco para o outro mundo onde teremos de ficar eternamente. Tão somente as boas obras nos acompanharão e nos consolarão na eternidade.

Todos os tesouros terrenos, as dignidades mais altas, a prata, o ouro, as pedras mais preciosas, perdem o seu brilho quando vistos lá do leito da morte. A sombra sinistra da morte escurece até os cetros e as coroas, e faz-nos compreender que tudo quanto o mundo estima não é senão fumaça, lodo, vaidade e miséria – Com efeito, de que servirão na morte todas as riquezas amontoadas, pois que então nada mais teremos do que um caixão no qual nosso corpo, quando dele nada restará senão um punhado de pó nojento e alguns ossos descarnados?

Que é, portanto, a vida do homem sobre esta terra? Eis como nô-la descreve São Thiago: Vapor est ad modicum parens, et deinceps exterminabitur (3) – “É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanecerá” – Hoje tal personagem é estimado, temido, elogiado; amanhã será desprezado, criticado e amaldiçoado: Vidi impium superexaltatumet transivi, et ecce non erat(4) – “Vi o ímpio exaltado… e passei, e eis que não mais existia”. Não mora mais na sua fazenda, no seu palácio luxuoso que tinha construído. Onde é que está? Na sepultura, reduzido a pó. Continuar lendo

MORTE DO JUSTO – PONTO III

Resultado de imagem para morte do justoA morte não é somente o fim dos nossos trabalhos, senão também a porta da vida, como disse São Bernardo.

Necessariamente, deve passar por esta porta quem quiser entrar a ver a Deus (Sl 117,20). São Jerônimo dirigia à morte esta súplica: Ó morte, minha irmã, se me não abres a porta, não posso ir gozar da presença do meu Senhor! (Ct 5,2).

São Carlos Borromeu, tendo visto em um dos seus aposentos um quadro que representava um esqueleto com a foice na mão, mandou chamar o pintor e ordenou-lhe que substituísse aquela foice por uma chave de ouro, querendo assim inflamar-se mais do desejo de morrer, porque a morte nos abre o céu e nos proporciona a visão de Deus.

Disse São João Crisóstomo que, se um rei tivesse mandado preparar para alguém suntuosa habitação no seu próprio palácio, e, no entanto, os mandasse viver num estábulo, quanto esse homem não desejaria sair do estábulo para ir morar no palácio régio!… Assim, nesta vida, a alma do justo, unida ao corpo mortal, se sente como num cárcere, donde há de sair para habitar o palácio dos céus; é por esta razão que David dizia:

“Livrai minha alma da prisão” (Sl 141,8).

E o santo velho Simeão, quando tinha nos braços o Menino-Jesus, não lhe soube pedir outra graça, senão a da morte, a fim de ver-se livre do cárcere desta vida:

“Agora, Senhor, despede o teu servo…” (Lc 2,29), isto é, adverte Santo Ambrósio, — pede ser despedido, como se estivesse preso à força”.

Por essa mesma graça suspirava o Apóstolo, quando dizia: Continuar lendo

MORTE DO JUSTO – PONTO II

Resultado de imagem para morte do justoDeus lhes enxugará todas as lágrimas dos seus olhos, e não haverá mais morte (Ap 21,4). Na hora da morte, o Senhor limpará dos olhos de seus servos as lágrimas que derramaram na vida, em meio dos trabalhos, temores e perigos contra o inferno. O maior consolo de uma alma amante de seu Deus, quando sente a proximidade da morte, será pensar que em breve estará livre de tanto perigo de ofender a Deus, como há no mundo, de tanta tribulação espiritual e de tantas tentações do demônio. A vida presente é uma guerra contínua contra o inferno, na qual sempre corremos o risco de perder a Deus e a nossa alma.

Disse Santo Ambrósio que neste mundo caminhamos constantemente entre redutos do inimigo, que estende laços à vida da graça.

Este perigo fez exclamar a São Pedro de Alcântara, quando se achava agonizando:

“Retirai-vos, meu irmão, — dirigindo-se a um religioso que, ao prestar-lhe serviço, o tocava com veneração — retirai-vos, pois vivo ainda e por consequência estou em perigo de me perder”

Por este mesmo motivo se regozijava Santa Teresa cada vez que ouvia soar a hora do relógio; alegrava-se por ter passado mais uma hora de combate, dizendo:

“Posso pecar e perder a Deus em cada instante de minha vida”.

É por isto que todos os Santos sentiam consolo ao saberem que iam morrer: pensavam que em breve se acabariam os combates e os perigos e teriam assegurada a inefável dita de jamais poder perder a Deus. Lê-se, na vida dos Padres, que um deles, de idade avançada, na hora da morte, ria-se enquanto seus companheiros choravam. E como lhe perguntassem o motivo de seu contentamento, respondeu:

“E por que é que chorais, sendo que vou descansar de meus trabalhos?”.

Também Santa Catarina de Sena disse ao morrer: Continuar lendo

MORTE DO JUSTO – PONTO I

Resultado de imagem para morte do justoPretiosa in conspectu Domini mors sanctorum ejus. – “É preciosa na presença de Deus a morte de seus Santos” (Sl 115, 15)

Considerada a morte à luz deste mundo, nos espanta e inspira temor; mas, segundo a luz da fé, é desejável e consoladora. Parece terrível aos pecadores; mas aos olhos dos justos se apresenta amável e preciosa.

“Preciosa, — disse São Bernardo — porque é o termo dos trabalhos, a coroa da vitória, a porta da vida”.

E, na verdade, a morte é termo de penas e trabalhos. O homem nascido de mulher vive curto tempo e está sujeito a muitas misérias (Jó 14,1). Eis aí o que é a nossa vida, curta e cheia de misérias, enfermidades, inquietações e sofrimentos.

Os mundanos, desejosos de longa vida — diz Sêneca — que procuram senão mais prolongado tormento? (Ep 101). Que é continuar a viver — exclama Santo Agostinho — senão continuar a sofrer? A vida presente — disse Santo Ambrósio — não nos foi dada para repousar, mas para trabalhar, e, por meio destes trabalhos, merecer a vida eterna (Serm. 45). Com razão, afirma Tertuliano que Deus abrevia o tormento de alguém, quando lhe abrevia a vida. Ainda que a morte tenha sido imposta por castigo do pecado, são tantas as misérias desta vida, que, como disse Santo Ambrósio — mais parece alívio o morrer do que castigo.

Deus chama bem-aventurados aos que morrem na sua graça, porque acabam os trabalhos e começam a descansar. Continuar lendo

SENTIMENTOS DE UM MORIBUNDO NÃO ACOSTUMADO A PENSAR NA MORTE – PONTO III

Imagem relacionadaPara o moribundo que, durante sua existência, não zelou o bem de sua alma, serão espinhos todos os objetos que se lhe apresentarem.

Espinhos a lembrança dos prazeres gozados, dos triunfos e das vaidades do mundo.

Espinhos a presença dos amigos que o visitem e as coisas que eles lhe recordarão.

Espinhos os sacerdotes que o assistem, e os sacramentos que deve receber, confissão, comunhão e extrema- unção; até o crucifixo que apresentam será como espinho de remorso, porque o pobre moribundo verá na santa imagem quão pouco correspondeu ao amor de um Deus que morreu para salvá-lo.

“Grande foi minha insensatez! — dirá então o enfermo. — Podia ter-me santificado com as luzes e os meios que o Senhor me ofereceu; podia ter levado vida feliz na graça de Deus, e que me resta depois de tantos anos perdidos, senão desconfiança e angústia e remorso de consciência, e contas severas a dar a Deus? Difícil é agora a salvação de minha alma…”

E quando fará ele tais reflexões?… Quando está para se extinguir a lâmpada da vida, quando está a finalizar a cena deste mundo, quando se encontra face a face com as duas eternidades, a feliz e a desgraçada, quando está prestes a exalar o último suspiro, de que dependem a bem-aventurança ou a condenação permanentes, eternas, enquanto Deus for Deus. O que daria então para dispor de mais um ano, um mês, uma semana sequer, em juízo perfeito, porque naquele estado de enfermidade, aturdida a mente, oprimido o peito, alterado o coração, nada pode fazer, nada pode meditar, nem conseguir que o espírito abatido leve a cabo um ato meritório! Sente-se como encerrado num fosso escuro, onde tudo é confusão, onde nada percebe senão a grande ruína que o ameaça e à qual se vê na impossibilidade de fugir… Continuar lendo

SENTIMENTOS DE UM MORIBUNDO NÃO ACOSTUMADO A PENSAR NA MORTE – PONTO II

Resultado de imagem para moribundoComo no momento da morte brilham e resplandecem as verdades da fé para maior tormento do moribundo que viveu mal, especialmente se era pessoa consagrada a Deus e que, portanto, tinha mais facilidade e tempo para servi-lo, mais inspirações e melhores exemplos! Ó Deus, que dor sentirá essa pessoa ao pensar e dizer: Repreendi os outros e fui pior do que eles; deixei o mundo, e vivi preso às vaidades e às afeições do mundo!… Que remorsos terá ao considerar que, com as graças que Deus lhe concedeu, não já um cristão, mas até um pagão se tornaria santo! Que dor não sofrerá, recordando-se que menosprezou as práticas de piedade como fraquezas de espírito, e aprovou certas máximas mundanas, frutos de estima e de amor próprio, por exemplo, como a de não humilhar-se, não mortificar-se, não recusar os prazeres que lhes ofereciam.

O desejo dos pecadores perecerá (Sl 111, 10). Quanto desejaremos ter na hora da morte o tempo que agora perdemos!… Refere São Gregório em seus Diálogos, que havia um tal Crisanto, homem rico, mas de maus costumes, o qual, na hora da morte, dirigiu-se aos demônios, que visivelmente apareciam para arrebatar-lhe a alma, gritando: Dai-me tempo, dai-me tempo até amanhã. Mas estes lhe respondiam:

“Insensato! agora pedes tempo? Não o tiveste e perdeste e o empregaste em pecar? E o pedes agora, quando já não há para ti?”

O desgraçado continuava a gritar e a pedir socorro. Havia ali perto um monge, seu filho, chamado Máximo, e o moribundo lhe dizia:

“Ajuda-me, meu filho; Máximo, socorre-me!”

No entanto, com o rosto chamejante, revolvia- se furioso no seu leito, até que, nessa agitação e gritos de desespero, expirou miseravelmente. Continuar lendo

SENTIMENTOS DE UM MORIBUNDO NÃO ACOSTUMADO A PENSAR NA MORTE – PONTO I

Imagem relacionadaDisponde domui tuae, quia morieris tu, et non vives. – “Dispõe de tua casa, porque morrerás e não viverás” (Is 38, 1)

Imagina que te achas junto a um enfermo a quem restam poucas horas de vida… Pobre enfermo! Considera como o oprimem e angustiam as dores, os desfalecimentos, a asfixia e falta de respiração, o suor frio e o entorpecimento até ao ponto de quase não ouvir, quase não compreender e quase não falar… Entretanto, a sua maior desgraça consiste em que, estando próximo à morte, em vez de pensar na alma
e de preparar as contas para a eternidade, só pensa nos médicos, nos remédios, para se livrar da doença que o vai vitimando. Não são capazes de pensar em outra coisa que em si mesmos, disse São Lourenço Justiniano, falando dos moribundos desta espécie… Mas, certamente, os parentes e amigos lhe manifestarão o perigoso estado em que se acha?… Não; não há entre todos eles nenhum que se atreva a lhe falar na morte e adverti-lo de que deve receber os santos sacramentos. Todos se escusam de lhe falar para não molestá-lo.

Ó meu Deus, dou-vos graças mil porque na hora da morte fazeis que seja assistido pelos queridos confrades de minha congregação, os quais, sem outro interesse que o de minha salvação, me ajudarão a todos a bem morrer.

No entanto, ainda que se lhe não anuncie a aproximação da morte, o pobre enfermo, vendo a confusão da família, as consultas dos médicos, os remédios multiplicados, frequentes e violentos, que aplicam, se enche de angústia e terror, entre contínuos assaltos de receio, desconfiança e remorsos, dizendo de si para si: quem sabe se terá chegado o fim de meus dias?… Quem não sentirá quando, enfim, recebe a notícia da sua morte próxima! Dispõe as coisas de tua casa, porque morrerás e não viverás… (Is 38,1). Que mágoa terá ao saber que sua enfermidade é mortal, que é tempo de receber os sacramentos, de se unir com Deus e de despedir-se do mundo!… Despedir-se do mundo! Mas como?… Há de abandonar tudo, a casa, a cidade, os parentes e amigos, as sociedades, os jogos, os divertimentos?… Sim, tudo. Ante o tabelião, já presente, escreve-se esta despedida com a fórmula: Deixo a tal pessoa; deixo… E que levará consigo? Apenas uma pobre mortalha, que dentro em breve se deverá consumir com ele próprio na sepultura. Continuar lendo

MORTE DO PECADOR – PONTO III

Resultado de imagem para morte do pecadorCaso digno de admiração! Deus não cessa de ameaçar o pecador com o castigo de uma morte infeliz.

“Virá um dia em que me invocarão e então já não os atenderei” (Pr 1,28)

Esperam, porventura, que Deus dê ouvidos a seu clamor quando estiver na desgraça? (Jó 27,9). Rir-me-ei de sua morte e escarnecerei de sua miséria (Pr 1,26).

“Rir-se Deus significa não querer de usar de misericórdia” (São Gregório).

“A mim pertence a vingança, e eu lhes darei a paga a seu tempo, quando seu pé resvalar” (Dt 32,15).

O mesmo ameaça o Senhor em outros lugares da Escritura, e, não obstante, os pecadores vivem tão tranquilos e seguros, como se Deus lhes houvesse prometido o perdão e o paraíso na hora da morte. É verdade, sempre que o pecador se converter Deus prometeu perdoar. Mas não disse que o pecador se converterá no transe da morte. Pelo contrário, repetiu muitas vezes que aquele que vive em pecado, em pecado morrerá (Jo 8,21-24) e que, se na morte o procurar, não o encontrará (Jo 7,34). É mister, pois, procurar a Deus, enquanto o podemos encontrar (Is 55,6), porque virá tempo em que já não será possível encontrá-lo. Pobres pecadores! pobres cegos que se contentam com a esperança de se converter na hora da morte, quando já não o poderão fazer! Disse Santo Ambrósio:

“Os ímpios não aprenderão a praticar o bem, senão quando já não é tempo”.

Deus quer que todos os homens se salvem; mas castiga os pecadores obstinados. Continuar lendo

MORTE DO PECADOR – PONTO II

Resultado de imagem para morte do pecadorNão uma só, senão muitas serão as angústias que hão de afligir o pobre pecador moribundo. Verse-á atormentado pelos demônios, porque estes terríveis inimigos empregam nesse transe todos os seus esforços para perder a alma que está prestes a sair desta vida. Sabem que lhes resta pouco tempo para apoderar-se dela e que, escapando-se agora, jamais será sua (Ap 12,12). Não estará ali apenas um só, mais muitos demônios hão de rodear o moribundo para o perder. Dirá um:

“Nada temas, que te restabelecerás”

Outro exclamará:

“Tu, que durante tantos anos foste surdo à voz de Deus, esperas agora que ele tenha misericórdia de ti?”

“Como — intervém outro — poderás reparar os danos que fizeste, restituir as reputações que prejudicaste?”

Outro, enfim, dirá:

“Não vês que todas as tuas confissões foram nulas, sem contrição, sem propósito? Como podes agora renová-las?”

Por outro lado, o moribundo se verá rodeado por suas culpas. Estes pecados, como outros tantos verdugos — disse São Bernardo, acercar-se-ão dele e lhe dirão: Continuar lendo

A CADA MOMENTO NOS APROXIMAMOS DA MORTE

morteOmnes morimur, et quase aquae dilabimur in terram, quae non revertuntur – “Nós morremos todos, e corremos pela terra como as águas que não tornam mais” (2 Reg. 14, 14).

Sumário. É certo que fomos todos condenados à morte. Todos nascemos com a corda ao pescoço, e a cada passo que damos, aproximamo-nos mais do patíbulo. Que loucura, pois, a nossa, sabermos que havemos de morrer, crermos que do momento da morte depende uma eternidade de gozos ou de penas, e não pensarmos no ajuste das contas e nos meios para ter uma boa morte! Compadecemo-nos dos que morrem subitamente. Porque é, pois, que nos expomos ao risco de nos suceder a mesma desgraça? Quem sabe se este ano não é o último da nossa vida?… Quem sabe se ainda amanheceremos?

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É certo que fomos todos condenados à morte. Todos nascemos, diz São Cypriano, com a corda ao pescoço e,  a cada passo que damos, nos aproximamos mais da morte. Meu irmão, assim como foste inscrito um dia no livro dos batismos, assim serás inscrito um dia no livro dos mortos. Assim como dizes hoje dos teus antepassados: meu falecido pai, tio ou irmão, assim dirão de ti os que vierem depois. Assim como ouviste muitas vezes dobrar os sinos pela morte dos outros, assim outros os ouvirão dobrar pela tua morte.

Que dirias, se visses um condenado à morte caminhar para o suplício galhofando, rindo, olhando para toda a parte e pensando ainda em comédias, festins e divertimentos? E tu, não caminhas neste momento para a morte? E em que pensas? Vê nessa cova teus amigos e parentes, a quem já feriu a sentença. Que horror se apodera dos condenados quando vêem os seus companheiros já mortos e pendentes da forca! Atenta nesses cadáveres, cada um dos quais te diz: Mihi heri et tibi hodie (1) – “Ontem a mim, hoje a ti.” É isto o que te dizem ainda os retratos de teus parentes já mortos, os seus escritos, as casas, os leitos, as roupas que deixaram.

Haverá loucura maior do que saber que se há de morrer e que depois da morte nos espera uma eternidade de alegrias ou uma eternidade de penas; saber que do momento da morte depende um futuro eternamente feliz ou eternamente infeliz: e não pensar em ajustar as contas e em empregar todos os meios para te ruma boa morte: compadecemo-nos dos que morrem subitamente e não se acham preparados para a morte; como é então que não cuidamos em estar preparados, podendo-nos acontecer o mesmo? – Mas cedo ou tarde, prevista ou imprevistamente, quer pensemos nisso quer não, devemos morrer; e a todas as horas, a todos os instantes nos vamos aproximando da nossa forca, quer dizer, da última doença que nos deve fazer sair deste mundo. Continuar lendo

MORTE DO PECADOR – PONTO I

Resultado de imagem para morte do pecadorAngustia superveniente, pacem requirent, et non erit; conturbatio super conturbationem veniet – “Sobrevindo a aflição, procurarão a paz e a não encontrarão; virá confusão sobre confusão” (Ez 7, 25-26)

Os pecadores afastam a lembrança e o pensamento da morte, e procuram a paz (ainda que jamais a encontrem), vivendo em pecado.

Quando, porém, se virem em face da eternidade e nas agonias da morte, já não poderão escapar aos tormentos de sua má consciência, nem encontrar a paz que procuram. Pois, como pode encontrá-la uma alma carregada de culpas, que, como víboras, a mordem? Que paz poderão gozar pensando que em breve deverão comparecer ante Cristo Jesus, cuja lei e amizade desprezaram até então?

“Confusão sobre confusão” (Ez 7,26).

O anúncio da morte próxima, a ideia de se separar para sempre de todas as coisas do mundo, os remorsos da consciência, o tempo perdido, o tempo que falta, o rigor do juízo de Deus, a eternidade infeliz que espera o pecador, todas estas coisas produzirão perturbação terrível que acabrunha e confunde o espírito e aumenta a desconfiança. E neste estado de confusão e desespero, o moribundo passará à outra vida.

Abraão, confiando na palavra divina, esperou em Deus contra toda a esperança humana, e por este motivo foi insigne o seu merecimento (Rm 4,18). Mas os pecadores, por desdita sua, iludem-se quando esperam, não só contra a esperança, mas também contra a fé, quando desprezam as ameaças que Deus faz aos obstinados. Receiam a morte infeliz; mas não temem levar a vida má. Quem lhes dá, pois, a certeza de que não hão de morrer subitamente feridos por um raio? E ainda que tivessem nesse momento tempo de se converter, quem lhes assegura que realmente se converterão? Santo Agostinho teve de lutar doze anos para vencer suas más inclinações. Como é que um moribundo, que teve quase sempre a consciência manchada, poderá fazer facilmente uma conversão verdadeira, no meio dos sofrimentos, das dores de cabeça e da confusão da morte? Digo conversão verdadeira, porque então não bastará dizer e prometer com os lábios, mas será preciso que palavras e promessas saiam do fundo do coração. Ó Deus, que confusão e susto os do pobre enfermo que se descuida de sua consciência, quando se vir oprimido pelo peso dos pecados, do temor do juízo, do inferno e da eternidade! Que confusão e angústia produzirão nele tais pensamentos, quando se achar desfalecido, a mente obscurecida, e entregue às dores da morte já próxima! Confessar-se-á, prometerá, chorará, pedirá perdão a Deus, mas sem saber o que faz. Nesse caos de agitação, de remorso, de agonia e ansiedade, passará à outra vida. Continuar lendo

INCERTEZA DA HORA DA MORTE – PONTO III

Imagem relacionadaEstai preparados” — O Senhor não disse que nos preparemos ao aproximar-se a morte, mas que estejamos preparados. No transe da morte, nesse momento cheio de perturbação, é quase impossível pôr em ordem uma consciência embaraçada. Isto nos diz a razão. Nesse sentido Deus também advertiu-nos, dizendo que não virá então perdoar, mas vingar o desprezo que fizéssemos da sua graça (Rm 12, 19).

Justo castigo — disse Santo Agostinho — para aquele que não quis salvar-se quando pôde; agora, quando quer, não o pode”. Dirá todavia alguém: Quem sabe? talvez nesse momento me converta e me salve.

Mas quem é tão néscio e se lança num poço dizendo: Quem sabe? atirando-me, talvez fique com vida e não morra? Ó meu Deus, que é isto? Quanto o pecado cega o espírito e faz perder até a razão! Quando se trata do corpo, os homens falam como sábios, e como loucos, quando se trata da alma.

Meu irmão, quem sabe se esta reflexão que lês será o último aviso que Deus te envia? Preparemo-nos sem demora para a morte, a fim de que não nos encontre de improviso. Santo Agostinho disse que o Senhor nos oculta a última hora da vida com o fim de que todos os dias estejamos preparados para morrer (Hom. XIII). São Paulo nos previne que devemos procurar a salvação não só temendo mas tremendo (Fl 2, 12). Conta Santo Antonio que certo rei da Sicília, para manifestar a um particular o grande medo com que se sentava no trono, o fez sentar à mesa com uma espada suspensa sobre sua cabeça por um fio delgado, de sorte que o convidado, vendo-se nessa terrível situação, mal podia levar à boca uma migalha de alimento. Todos estamos em semelhante perigo, já que dum instante para outro pode cair sobre nós a espada da morte, resolvendo o negócio da eterna salvação. Continuar lendo

INCERTEZA DA HORA DA MORTE – PONTO II

Resultado de imagem para cemitérioO Senhor não nos quer ver perdidos. Por isso, com ameaça de castigo, não cessa de advertir-nos que mudemos de vida.

“Se não vos converterdes, vibrará sua espada” (Sl 7, 13)

Vede – disse me outra parte – quantos são os desgraçados que não quiseram emendar-se, e a morte repentina os surpreendeu quando não esperavam, quando viviam despreocupados, julgando terem ainda muitos anos de vida (1 Ts 5, 3). Disse-nos também:

“Se não fizerdes penitência, todos haveis de perecer”.

Por que tantos avisos do castigo antes de infligi-lo, senão porque quer que nos corrijamos e evitemos morte funesta. Quem dá aviso para que nos acautelemos, não tem a intenção de matar-nos – disse Santo Agostinho.

É mister, pois, que preparemos nossas contas antes que cegue o dia do vencimento. Se durante a noite de hoje devesses morrer, e ficasse decidida assim a tua salvação eterna, estarias bem preparado? Quanto não darias, talvez, para obter de Deus a trégua de mais um ano, um mês, um dia sequer! Por que agora, já que Deus te concede tempo, não pões em ordem tua consciência? Acaso não pode ser este teu último dia de vida?

“Não tardes em te converter ao Senhor, e não o adies, porque sua ira poderá irromper de súbito e no tempo da vingança te perderás” (Ecl 5, 7) Continuar lendo

INCERTEZA DA HORA DA MORTE – PONTO I

Imagem relacionadaEstote parati, quia qua hora non putatis, Filius hominis veniet – “Estai prevenidos, porque na hora em que menos pensais virá o Filho do Homem” (Hb 9, 27)

É certíssimo que todos devemos morrer, mas não sabemos quando.

“Nada há mais certo que a morte. – diz Idiota – porém nada mais incerto que a hora da morte.” Meu irmão, estão fixados ano, mês, dia, hora e momento em que terás que deixar este mundo e entrar na eternidade; porém nós o ignoramos. Nosso Senhor Jesus Cristo, a fim de estarmos sempre bem preparados, nos disse que a morte virá como um ladrão, oculto e de noite (1Ts 5, 2). Outras vezes nos exorta a que estejamos vigilantes, porque, quando menos o esperamos, virá Ele a julgar-nos (Lc 12, 40). Disse São Gregório que Deus nos oculta, para nosso bem, a hora da morte, a fim de que estejamos sempre preparados para morrer. Disse São Bernardo: a morte pode levar-nos em qualquer momento e em qualquer lugar; por isso, se queremos morrer bem e salvar-nos, é preciso que a estejamos esperando em qualquer tempo ou lugar.

Ninguém ignora que deve morrer; mas o mal está em que muitos veem a morte a tamanha distância que a perdem de vista. Mesmo os anciãos mais decrépitos e as pessoas mais enfermas não deixam de alimentar a ilusão de que hão de viver mais três ou quatro anos. Eu, porém, digo o contrário: Devemos considerar quantas mortes repentinas vemos em nossos dias. Uns morrem caminhando, outros sentados, outros dormindo em seu leito. É certo que nenhum deles julgava morrer tão subitamente, no dia em que morreu. Afirmo, ademais, que de quantos no decorrer deste ano morreram em sua própria cama, e não de repente, nenhum deles imaginava que devia acabar sua vida neste ano. São poucas as mortes que não chegam inesperadas.

Assim, pois, cristãos, quando o demônio te provoca a pecar, pretextando que amanhã confessarás, dize-lhe: Quem sabe se não será hoje o último dia da minha vida? Se esta hora, se este momento, em que me apartasse de Deus, fosse o último para mim, de modo que já não restasse tempo para reparar a falta, que seria de mim na eternidade? Quantos pobres pecadores tiveram a infelicidade de ser surpreendidos pela morte ao recrearem-se com manjares intoxicados e foram precipitados no inferno? Continuar lendo