DOS RECREIOS

Resultado de imagem para recreio criançasO trabalho e a aplicação das crianças devem ser interrompidos por meio de recreios, e animados por meio de recompensas.

Não pode o arco conservar-se sempre retezado, dizia S. João ao caçador, que parecia censurar-lhe a sua distração, quando caçava uma perdiz. Mas é principalmente às crianças que uma longa tensão de espírito é funesta ou impossível; é preciso, pois, procurar-lhes momentos de descanço, que ao mesmo tempo que recreiam o espírito, fortificam e avigoram o corpo. — «Afinal, o cuidado que se tomar em mes­clar de prazer as ocupações sérias, servirá de muito para afrouxar o ardor da mocidade pelos divertimentos perigosos. A sujeição demasiada é que ori­gina a impaciência pelos divertimentos, disse Fénelon. Se uma menina se não enfastiasse de estar junto de sua mãe, não teria tanta vontade de lhe fugir, para ir procurar companhias que lhe podem ser prejudiciais.» Todavia nada seria mais perigoso para a criança do que um descanço ocioso e sem vida; longe daí encontrar a alegria e o ardor para o estudo, apenas conseguiria ganhar costumes impróprios, e talvez mesmo viciosos. 

— «É ordinariamente um mau indício, quando uma criança não folga, ou não gosta de brincar», diz Mgr. Dupanloup. Mas um recreio bem escolhido, um exercício mode­rado do corpo aumenta a atividade do espírito, e preserva das incitações para o vício. Mas os recreios só produzem estes resultados, quando não são demasiadamente prolongados. O nosso corpo, se lhe con­cedemos algum descanso no trabalho, torna-se mais vigoroso, e mais bem disposto, enquanto que um longo descanso apenas o torna fraco e preguiçoso. O mesmo sucede ao espírito: uma curta recriação excita-o, e uma longa inação fá-lo cair no torpor. «Nos divertimentos, é conveniente evitar as socie­dades suspeitas; nada de rapazes juntos com rapa­rigas» disse sem rodeios Fénelon. Já muito tempo antes dele, dizia S. Jerônimo, escrevendo a Gaudêncio: «Não permitais que Pacatula brinque senão com meninas como ela, de forma que nunca saiba brincar com crianças doutro sexo, nem mesmo que assista aos seus divertimentos.» Como já acima dis­semos, Pacatula apenas tinha sete anos. Continuar lendo

DA INSTRUÇÃO INTELECTUAL

Resultado de imagem para george dunlop leslie alice in wonderlandPassemos agora das considerações gerais, que acabamos de fazer, aos diversos ramos de educação, que são: a instrução, a vigilância, a correção, o bom exemplo, e a oração.

A instrução intelectual faz muita diferença da instrução religiosa. Falemos primeiramente da ins­trução intelectual.

Quem poderá contestar-lhe as preciosas vanta­gens? A criança sem educação é muito difícil ensi­nar, de modo a ficar compreendendo, as verdades que deve saber, como cristão. Também a ignorância de tudo quanto diz respeito a salvação, acompanha ordinariamente, sobretudo no campo, a falta de ins­trução. Além disso, quantas carreiras ficarão para sempre fechadas a criança, de quantos empregos será ela excluída, se não for instruída! A ilustração enfim torna o estudo possível e fácil, e adiante tra­taremos das vantagens de que o estudo é fecundíssima origem.

Como, pois, desculpar essas mulheres negligentes, que longe de darem a seus filhos uma instrução de harmonia com a sua condição, deixam a sua inteligência sem cultura, e condenam-nos a mirrar-se toda a vida na ignorância? Se se trata de mandar os filhos; para as escolas, não sabem impôr-se nenhuma pri­vação, e recuam diante dos mais insignificantes sacrifícios. Não julgam necessário dar ao filho senão os conhecimentos indispensáveis para a profissão, que mais tarde hão de abraçar. É certo que não simpatizamos com esses pseudo-sábios, que tendo uma instrução medíocre, ostentam um louco orgu­lho; mas quereríamos que todos os filhos do povo, sem excluir as raparigas, aprendessem a ler e a es­crever corretamente e as operações elementares de aritmética. Era para eles o necessário.

Nas famílias mais elevadas, os pais gostam de ornar o espírito dos filhos de todos os conhecimen­tos úteis. Não contestamos esse zelo. Quem quiser saber o que a este respeito pensava Mgr. Dupanloup, leia a sua obra acerca da Educação. Continuar lendo

DA DURAÇÃO DA EDUCAÇÃO

Resultado de imagem para escola catolica«Os cuidados, as solicitudes paternas e maternas não devem cessar, nem mesmo afrouxar, quando está prestes a findar a educação; porque a missão do pai e da mãe está longe de findar neste momento; é mesmo então que começa para ambos o mais sério dos deveres, o que é ao mesmo tempo o mais difícil, e o mais necessário para cumprir. E todavia sob a influência das preocupações mundanas, e também não sei porque temor pusilânime, porque triste sen­timento da sua fraqueza, a maior parte dos pais imaginam ter terminado o seu dever; depois costu­mam dizer de si para si que a educação acaba com o colégio, que um jovem de dezoito anos ou já está educado, ou nunca o estará, que não se pode já obrigá-lo, nem constrangê-lo, que seria fazer mais mal, do que bem, etc., etc. Quem não tem ouvido dizer tudo isto? E é sobre todos estes belos pretextos, que eles abdicam definitivamente toda a sua autori­dade paterna!» [1]

O filho do povo é quase totalmente subtraído à influência materna, desde que completa os qua­torze anos; mandam-no para a cidade, ou aprender algum ofício, e ninguém mais se ocupa dele. Ou então, se fica sob o teto paterno, é inteiramente senhor das suas ações, e a mãe não se atreve nem a repreendê-lo nem a instrui-lo. Insensatos pais! Aban­donais a si próprios os vossos filhos, no momento em que as paixões começam a fazer-lhes sentir o seu tirânico império, e quando por conseguinte mais precisavam de serem retidos por uma mão firme e segura! — «Não é nesta idade que deveríeis firmar a vossa autoridade com nova força e carinho, para acabardes uma educação que os perigos do mundo, a mocidade e as paixões tornam mais necessária que nunca? Dizem muitas vezes para se consolarem: Deixem passar os verdores da mocidade! Pois bem, eu, exclama o ilustre bispo de Orleans, nunca o pude assim pensar, e nada me parece mais doloroso que as loucuras da mocidade, nem entre as coisas tristes, que nos fazem muitas vezes chorar, sei de nada que despedace mais o coração»[2].

Pouco importa começar bem, o que tem de acabar mal. O campo cultivado com cuidado, torna-se estéril, se lhe desprezarem depois a cultura. É em vão que se lança à terra uma boa semente, embora ela depois germine, se antes da ceifa, a zizania abafar o grão. Se deixais secar, pelo sopro ardente das paixões, o gérmen de salvação, deposto na alma de vosso filho, tereis perdido, ó mãe, a vossa primeira solicitude e os vossos primeiros tra­balhos; e conceder-vos-á Deus a recompensa, Ele que não promete a coroa, senão a quem combate até ao fim? Continuar lendo

DAS CASAS DE EDUCAÇÃO

Resultado de imagem para escola catolica«Entre todos os deveres que a autoridade pa­terna impõe a um pai e a uma mãe, nenhum co­nheço mais grave, escreve Mgr. Dupanloup, que o de escolher – os mestres a quem deve ser confiada uma parte desta santa autoridade.»

A mulher do povo, especialmente a que habita nas aldeias, não pode ordinariamente enviar o seu filho senão à escola paroquial; as mais das vezes é difícil mandá-lo a outra freguesia vizinha. Como apreciar devidamente os serviços prestados à Igreja e à sociedade, por religiosos e religiosas, que con­sagram a sua vida a instruir o filho do povo, e a educá-lo no amor, e no temor de Deus? Que mulher cristã não seria feliz, confiando-lhe o seu filho ou filha? E onde poderia ela encontrar uma dedicação mais desinteressada e mais sincera?—«Para ser professor de instrução primária, disse o grande his­toriador Thiers, é necessária uma humildade e uma abnegação, de que um leigo raras vezes é capaz: é preciso o padre, o religioso; o espírito, a dedicação leiga não são suficientes!» Se acontecesse, — o que Deus não permita —, que uma criança não pudesse ir à escola, sem expor a sua fé, e a sua inocência, seria infinitamente melhor que ela não abandonasse o teto da sua choupana. 

As próprias escolas, onde se não ensina a religião, nem as virtudes cristãs, não podem bas­tar à educação da infância. Toda a escola mista de crianças de ambos os sexos oferece perigos que uma mãe deve temer. E é por ventura necessário que o agricultor mande o seu filho para o colégio? Essa criança não deixará daí encontrar a saudade da vida dos campos, e depois de acostumado, vol­tará com ares de gran-senhor. Achamos natural e necessário que o vosso filho aprenda a ler, a escre­ver e a contar, e é isso mesmo que ele aprenderá na escola da sua aldeia; mas que fique cultivador, como seu pai, que é o melhor partido que pode tomar. Também achavamos razoável que as mães de família do campo não mandassem a suas filhas como pensionistas, para estabelecimentos, donde elas voltam, falando francês, usando chapéu, sabendo bordar a ouro, a canotilho e a cabelo, mas despro­vidas dos conhecimentos usuais mais necessários. Longe de nós, todavia, censurar as mães que confiam os filhos a um colégio, dirigido por religiosos ou religiosas, onde essas crianças estão ao abrigo dos perigos do mundo. Continuar lendo

DO CONCURSO DO PAI, NA EDUCAÇÃO DOS FILHOS

Resultado de imagem para familia numerosaOs deveres do pai, para com seu filho são os mesmos que os da mãe. Como a mãe deve possuir a ciência da educação, e como ela deve pôr ele todos os seus cuidados a cultivar o espírito e o coração dos entes que lhe devem a vida. Se neste pequeno livro nos dirigimos unicamente à mulher, é porque as mais das vezes, preocupado pelos interesses mate­riais, o pai esquece o que deve à cultura moral e religiosa dos seus filhos. Entendemos do nosso dever, que o melhor meio de fazer chegar ate si o conhe­cimento dos seus deveres, era instruir desses mesmos deveres a mãe de família.

Deveremos ao vosso zelo, mulher cristã, o não nos enganarmos na nossa espectativa, porque não contente por sentirdes vós mesma a soberana impor­tância duma boa educação, a fareis compreender a vosso marido. O amor que lhe tendes, deve forne­cer-vos meios para empreenderdes essa grande obra, porque se ele se conserva estranho e pior do que isso, rebelde, atrai sobre a sua cabeça a des­graça de Deus, tornando a vossa missão mais do que difícil, impossível. «Como falta o coração e a vida, diz Mgr. Dupanloup, numa educação em que a mãe não toma parte! E também que hesitações e fraquezas numa educação, de que o pai está muito ausente!

É necessário fazer compreender ao marido esta linguagem comovente: — «Deus confiou-nos, a ambos nós o dever de elevar para o Céu os frutos da nossa união; há de pedir-nos contas destes talentos que nos confiou; nós lhe restituiremos alma por alma, sem deixarmos perder os que Ele cometeu à nossa guarda.» Se o vosso marido não tiver fé, para apro­var estas considerações, que todavia são graves e cheias de verdade, fazei-lhe pelo menos compreen­der que só a educação cristã é que nos pode fazer felizes neste mundo. Citai-lhe, se ainda reagir, os exemplos infelizmente numerosíssimos de crianças que uma educação pouco cristã levou à libertinagem, e daí à desonra, à miséria, e tudo isso apesar da vergonha e da confusão dos próprios pais negli­gentes. Mostrai-lhe esses velhos esmagados pelo des­prezo daqueles a quem não ensinaram a respeitar Deus e a religião, com os deveres que ela impõe. Continuar lendo

DO PRECEPTOR

Resultado de imagem para modestia pinturaA educação que se faz inteiramente no seio da família, será preferível à que, tendo começado sob a inspeção materna, vai terminar num pensio­nado? Não ousamos responder a esta questão. O ilustre bispo de Orleans, a quem a grande expe­riência dá tanta autoridade sobre o que diz res­peito à mocidade, não quer que a educação pública comece muito cedo, mas julga-a preferível à edu­cação privada.

Digamos todavia algumas palavras, acerca do preceptor, porque um certo número de mulheres cristãs, não querendo ver seus filhos subtraídos à sua solicitude, ou querendo a todo o transe sub­traí-los às escolas sem Deus, os confiam a um pre­ceptor encarregado de os instruir, e de os educar, sob os olhos de seus pais. Entre as crianças, que, durante o ano escolar, seguem o curso dum pen­sionado, um grande número são confiadas, durante as férias à vigilância dum mestre, que lhes repete as lições do colégio. Não é, pois, inútil dizer à mãe quais devem ser as qualidades do preceptor de seu filho.

A fé, tal é a primeira e a mais essencial das con­dições a exigir dum mestre. Não é a fé efetivamente o que um homem tem de mais precioso neste mundo, visto que sem ela é impossível agradar a Deus, e esperar os bens eternos? E não é tão necessária esta virtude, visto que a mulher cristã deve pri­meiro que tudo conservá-la intacta no coração de seus filhos? Mas quem o não vê? Um preceptor incrédulo roubaria tanto mais facilmente a fé a um jovem, quanto maior influência tivesse sobre ele. Não ousaria de certo professar a impiedade, ou o racionalismo, numa casa, onde se conservam, como o mais sagrado depósito, as tradições religiosas dos antepas­sados; mas de quando em quando deixaria escorre­gar algumas palavras de dúvida ou de desprezo; deporia dessa forma no coração dos seus discípulos algum germem fatal de incredulidade, e a increduli­dade é um vento ardente que seca quanto de virtude possa existir num coração de criança. Continuar lendo

DA EDUCAÇÃO, SUA NECESSIDADE

Resultado de imagem para batismoRegenerada pelas águas do batismo, a criança cresce pouco a pouco, e bem depressa começa, pelo seu sorriso, a dar o primeiro indício de inteligência. Então nascem novos deveres para a mãe; é mister que desde então se aplique com zelo à grande obra da educação. Educar a criança é cultivar o seu espírito, e o seu coração: o espírito enriquecendo-o com os conhecimentos necessários ou úteis: o cora­ção, sufocando nele o gérmen das paixões e dos vícios, que crescem conosco, e implantando nele o amor do bem e da virtude.

Em grande número dos nossos Livros canônicos a obrigação que Deus deu à mãe de bem educar os seus filhos, é expressa com tanta clareza, como força; e acerca deste assunto, os mais sagrados interesses das crianças, os dos pais e os da própria sociedade, se unem à voz de Deus, para repetir a todas as mães, pela boca do grande Apóstolo: — «Educai os vossos filhos segundo a lei, e no temor do Senhor» (S. Paulo ad Eph. VI, 4.)

O homem não abandonará na velhice o ca­minho que tiver seguido na adolescência; e é isso o que faz a desgraça quase irreparável de quem tiver recebido dos pais uma má educação ou sim­plesmente nula.

Infeliz! privado muito novo de sua mãe, ou tendo uma mãe negligente, sem ter ninguém que lance no seu espírito a semente da divina palavra não sendo instruído nos seus deveres de cristão; sem ninguém para vigiar pela sua inocência; sem ter quem lhe arranque do coração os primeiros ger­mens das paixões nascentes, e cultivar as flores das virtudes cristãs. Que pode ser uma criança nestas condições? Crescem as más ervas na terra inculta da alma, e o mal desenvolve-se, sufocando todos os germens de bem. Fortificando-se nele diariamente, as tendências perversas, deixam acrescer raízes cada vez mais profundas. Como é possível deter os des­troços desta torrente devastadora, que têm origem numa educação má, ou simplesmente desprezada? Onde arrastarão a sua vítima? Talvez à condenação eterna, porque a árvore cai para onde pendia. É, pois, bem de recear que o mau, avergado sob o peso do pecado para os abismos do inferno, aí vã precipitar-se. Continuar lendo

A GRANDE OBRA DA MÃE

maeUma mulher da Ionia, mostrando um dia, com orgulho, os ricos tecidos que tinha bordado, viu que uma lacedemónia lhe mostrava seus quatro filhos todos bem educados, dizendo-lhe:— «Eis no que uma mulher sensata se ocupa; é aqui que ela põe toda a sua glória.» Haverá, por ventura, arte mais nobre que a da educação, diz S. Crisóstomo? Os pintores e os escultores apenas fazem estátuas inanimadas; mas o que educa bem uma criança, produz uma obra prima, que encantará os olhos de Deus e os dos homens.

A mulher, que assim o compreende, não consen­tirá em se desencarregar sobre outros, do cuidado de educar os seus filhos. A primeira educação deve ser efetivamente obra sua; ninguém pode substituir uma mãe, tratando-se de um filho de tenra idade. «Aos lábios duma mãe, que cobrem de carícias estas fontes tão puras, é que compete ensinar as primeiras lições de piedade, diz Mgr. Dupanloup; à mãe é que compete despertar no filho os primeiros clarões da inteligência, e o primeiro amor do bem, colocar nos seus lábios as primeiras palavras da fé e da virtude, e ensiná-los a olhar pela primeira vez para o Céu. É à mãe, numa palavra, que com­pete dotar o seu filho de uma alma cristã, como já o tinha dotado de um corpo humano».

*A própria mulher pobre, que é obrigada a deixar a família, para ir ganhar o pão cotidiano com um penoso trabalho, não se poderia desculpar, se dei­xasse de se ocupar dos seus filhinhos. Se habita nas cidades, conduza-os às creches, aos recolhimentos próprios, mas nunca os perca de vista! Quando os vir reunidos em volta do lar doméstico, trate de lhes incutir o amor e o respeito pelas coisas do Senhor, e reprima os seus defeitos nascentes. Se não houver meio de confiar a estabelecimentos caridosos o cui­dado de guardar seus filhos, por não os haver no local em que habita, mais adiante lhe diremos o que deva fazer; mas nada a pode dispensar de tomar cuidado na educação de seus filhos. Continuar lendo

CUIDADOS ESPIRITUAIS – O BATISMO

abcSegundo o testemunho de S. Francisco de Sales, Santa Mônica, durante a sua gravidez, oferecia a Deus cem vezes por dia, seu filho Santo Agosti­nho.— Depois que aprouve ao Céu fecundar o seu casamento, M.rae de Boisy, mãe de S. Francisco de Sales, gostava de ir muitas vezes, perante os alta­res, dar expansão à sua alma reconhecida. 

— M.me Acarie consagrou os seus filhos a Deus, antes mesmo de nascerem, e sua segunda filha declarou que devia a essa consagração, que tinha precedido o seu nas­cimento, a inclinação que sentiu para a vida religiosa, desde a sua primeira infância. Durante o período da gravidez, a mãe de S. Bernardo aproximava-se fre­qüentemente da sagrada mesa afim de que Jesus Cristo, descendo muitas vezes para ela aí colocasse um gérmen de salvação, para a criança que havia de vir ao mundo. Devemos dizer, de passagem, que se uma mulher previsse que, sendo mãe, corria perigo de morte, seria obrigada, sob pena de pecado mortal a confessar-se de todas as faltas cometidas, e tam­bém a comungar. Além disso, toda a mãe que tem fé, esforça-se por meio da oração, pela freqüência dos sacramentos, e por uma vida santa, a atrair sobre o fruto, que traz no seio, a graça do batismo, sem cuja recepção o Céu está fechado às nossas almas.

Todos nós nascemos efetivamente, manchados pelo pecado original, privados da amizade de Deus, e indignos de O possuir na glória; é um ponto in­contestável da nossa fé. Para lavar em nós a man­cha impressa pela desobediência de Adão, para adquirir a vida da graça, e o direito à posse de Deus, é absolutamente necessário o batismo. Ninguém — diz a Verdade eterna — pode entrar no reino de Deus, se não for regenerado pela água do batismo, e pela virtude do Espírito Santo. Continuar lendo

O ZELO DE UMA MÃE

A-leitura-mae-e-filhaOs deveres que expusemos até aqui para a mãe, embora graves e importantes, são bem me­nos graves e importantes do que os de que nos resta a tratar. Até qui efetivamente só nos ocupamos dos cuidados que têm por objeto o corpo e a vida natural da criança, e daqui por diante vamos ocu­par-nos da cultura da sua inteligência e da vida sobrenatural da sua alma.

Divino Salvador, Palavra eterna do Padre, Luz incriada, falai ao ouvido do coração de todas as mães, e iluminai o seu espírito, para que todas compreendam e sintam de que tesouros são depo­sitárias, e quais os cuidados que devem ter, para vo-los conservar. Concedei-lhes essa graça, para que elas, deixando este mundo, possam dizer, com verdade, o que Vós dizíeis a Vosso Pai, na véspera do dia em que derramastes o Vosso sangue pela salvação dos homens: Meu Pai, cumpri a missão que me confiastes: guardei os que me destes, e nem um só de entre eles se perdeu.

Não há nada, debaixo do Céu, que seja comparável à beleza da alma humana. — «O mundo in­teiro, e todos os milhares de tesouros que ele en­cerra, não podem sequer aproximar-se do seu preço» diz S. João Crisóstomo. Suponde uma balança imensa. Colocai num dos seus pratos todas as riquezas da terra, e todas as criaturas privadas de razão, embora fossem transformadas em ouro, e noutro prato colocai uma única alma. Esta alma pesará mais que todas as riquezas amontoadas. É que, segundo o pensa­mento de Santo Tomás, a alma humana é a mais excelente criatura que há na terra; é o ornamento, a beleza do mundo, a obra prima saída das mãos de Deus, e a sua imagem viva [1], a irmã dos anjos, destinada a partilhar da sua glória. Para resgatar as almas, foi necessário o sangue de Jesus Cristo, o sangue de um Deus! Qual não é pois o seu preço?

Eis a razão por que todos os santos têm dedi­cado um generoso amor para com as almas. —«Por elas, exclamava S. Paulo, de boa vontade me entre­garei, me dedicarei todo inteiro.» — «Ó meu Padre, dizia a um religioso, Santa Catarina de Sena, se soubesseis quanto uma alma é bela e qual é a per­feição dessa obra prima, não duvido que, para a ganhardes para Deus, desseis de boa vontade cem vidas, se as tivesseis.» —Santa Madalena de Pazzi, exclamava com todo o ardor do seu zelo: «Oh! se me fosse possível voar às Índias, ou por entre os Turcos, para converter as almas, como todos os tra­balhos e todos os sofrimentos me pareceriam doces!» Continuar lendo

CUIDADOS QUE RECLAMAM A VIDA E A SAÚDE DA CRIANÇA

Não ameis só com a boca e com as palavras, diz o Espírito Santo, mas amai com as obras e com a verdade. Deus não ordena só à mãe cristã um amor de afeição e de puro sentimento, para com os seus filhos, mas também uma dedicação eficaz e generosa, que tanto tome cuidado do corpo, como da alma. Seria estéril e vã a ternura da mãe, que não desse a seus filhos os cuidados corporais e espirituais que trataremos de expor, no decurso desta obra.

Os primeiros cuidados corporais que a mãe deve a seus filhos têm por objeto a vida e a saúde destes tenros seres, cujo desenvolvimento físico Deus lhes manda vigiar. A solicitude da mulher, pela saúde e pela vida de seu filho, deve começar desde o instante em que começa a ser mãe. É para ela um dever rigoroso evitar tudo o que poderia prejudicar o fruto que traz no seio, pela benção do Céu. Durante o tempo de gravidez e sobretudo durante o segundo e terceiro mês, segundo afirmam os médicos, a vida da criança é mais frágil, e seria da parte duma mulher uma culpável imprudência levar carretos pesados, ou entregar-se a graves excessos de intemperança, a trabalhos muito puníveis, a violentos excessos de cólera, a longos e amargos pesares. 

Quantas crianças nascem disformes, por culpa de sua mãe, e quantas morrem antes de nascer, sendo ao mesmo tempo privadas da vida do corpo e da alma. Desgraça irreparável que uma mulher deve prever e prevenir, pela mais atenta vigilância. Se semelhante desgraça acontecesse por sua culpa, seria para encher a sua vida de tristeza e de remorso. «Também com que respeito religioso traz uma mulher cristã no seu seio, como num santuário abençoado por Deus, a graça que dele recebeu. Com que inefável solicitude ela pensa nesse fraco corpo, que faz parte do seu próprio! Que santa gravidade, que reserva, que sossego de todas as paixões, a fim de que a vida da criança se forme sem abalo, na profunda paz duma alma tranquila, e para que assim esteja predisposta, tanto quanto possível, para costumes pacíficos e virtuosos!»[1] Continuar lendo

AS PREFERÊNCIAS

Morgan_Frederick_Motherly_LoveContinuação do post: O AMOR MATERNO

Já acima o dissemos, e convém insistir neste ponto: a mãe deve amar todos os filhos sem exceção. Não são eles todos uma porção de si própria? Não os trouxe todos no seu seio, e não os alimentou com o seu leite? Concentrar num só, ou em alguns, todas as afeições, e ter pelos outros uma espécie de indiferença, ou mesmo de aversão, seria ir de encontro, não só contra natureza, mas contra a lei de Deus; seria perdê-los a todos, a uns por excesso, e a outros por deficiência de amor materno. As preferências injustas são efetivamente tão funestas aos filhos preferidos, como aos que o não são.

A criança, que se sente objeto da predileção de seus pais, torna-se orgulhosa e altiva; acaba por desprezar seus irmãos, enchesse de fatuidade e de egoísmo; numa palavra é uma criança estragada, isto é, perdida, como diz Mgr. Dupanloup na sua obra Da Educação, que teremos ocasião de citar muitas vezes.

Os que se vêm privados injustamente das carícias e dos favores, que seus pais prodigalizam com tanta profusão aos outros seus irmãos, tornam-se tímidos, tristes e desconfiados, desde a mais terna mocidade. Não podendo desenvolver-se por seu espírito, ficam sempre enterradas as suas faculdades naturais debaixo dum frio silêncio. Não podendo amar a mãe, que os não ama, o seu coração torna-se duro e insensível. Mais tarde a inveja cria profundas raízes na sua alma; são cheios de ciúme e muitas vezes de ódio contra os que lhe preferiram: inveja e ódio que produzem muitas vezes as mais funestas divisões nas famílias, e não acabam senão com a vida. Qual foi a origem das guerras de Esaú contra Jacob, senão a predileção que Rebeca, sua mãe, tinha por Jacob?

Ninguém ignora esta história, que é contada pelos livros santos: Jacob amava José acima de todos os outros filhos, porque o tivera na sua velhice, e também, sem dúvida, por causa das suas admiráveis qualidades e da sua inocência. Em testemunho da ternura e da estima singular que tinha por essa criança, havia-lhe dado um vestido de diversas cores. Vendo essa predileção de seu pai por José, conceberam os seus irmãos tamanho ódio contra ele, que não podiam falar-lhe sem azedume. Um dia, enquanto guardavam os rebanhos, vêem chegar José, enviado pelo Pai, para os vigiar. — «Vamos, dizem uns para os outros, excitados por seu amor invejoso, matêmo-lo, e deitêmo-lo a esta cisterna.» Por conselho de Ruben o mais velho, desistem disso, mas apenas José chega, despem-no, metem-no dentro da cisterna, e vendem-no depois por vinte peças de prata a mercadores ismaelitas. Ah! quantas lágrimas não custou ao pobre pai a predileção que tinha pelo filho! Rasgou as roupas, cobriu-se dum cilício, e não cessou de chorar, dizendo na amargura da sua alma: «Um animal cruel devorou José!» Em vão todos os outros filhos se reuniram para enxugar as suas lágrimas… ele não quis receber consolações. Continuar lendo

O AMOR MATERNO

MaeFilhoPode a mãe esquecer o seu filho? diz o Espírito Santo, e pode a mulher deixar de amar o fruto do seu seio? seu coração é uma fonte inesgotável de contínua solicitude e amor; ama os seus filhos mais do que todas as outras pessoas, mais do que a si própria. Entre tantos quadros de amor materno que a história nos patenteia, nenhum achamos mais comovente do que o quadro em que a Escritura nos pinta a ternura da mãe do jovem Tobias.

Acompanhado do arcanjo Rafael, disfarçado sob a forma humana, acabava de partir para a terra dos Medas; mas a mãe, chorando, dizia, no meio da sua dor, ao marido: «Ficaste sem o bordão da nossa velhice, e afastaste-lo de nós. Oxalá que nunca tivéssemos possuído o dinheiro necessário para a sua viagem! Os poucos bens que possuímos, não eram suficientes para nós? E não era para nós uma grande fortuna ver nosso filho aqui, conosco?» — «Não chores, respondia o velho, o anjo do Senhor acompanhará nosso filho.» E estas palavras enxugavam por um instante as suas lágrimas, e acalmavam as lamentações da mãe.

Mas não vendo voltar, no dia fixado, o ente que amava, derramava abundantes lágrimas, que nenhuma consolação podia esgotar.— «Ah! quanto sou desgraçada! repetia ela; para que te mandamos para tão longe, meu filho, tu que eras a luz dos nossos olhos, o apoio da nossa velhice, a consolação da nossa vida e a esperança de nossa posteridade? Visto que eras tudo, neste mundo, para nós, nunca deverias ter-nos deixado.» — «Sossega replicava o velho Tobias, o nosso filho está em segurança; o homem, a quem o confiamos, é fiel. Mas a pobre mãe não queria receber consolações, e todos os dias, deixando a casa, percorria todos os caminhos, por onde esperava ver chegar o filho, procurando descobri-lo ao longe. Todos os dias se ia sentar sobre uma montanha, que dominava a estrada, e donde podia circunvagar à vontade o seu olhar. Um dia avistou-o, reconheceu-o imediatamente, correu a levar a seu marido a feliz notícia, e depois abraçou esse querido filho com lágrimas de alegria. Continuar lendo

DAS RECOMPENSAS

Resultado de imagem para recompensa criançasJerônimo escrevia a Laeta: «Animai vossa filha, dando-lhe pequenas lembranças, das que são estimadas na sua idade.» As recompensas são efeti­vamente um meio de excitar a emulação entre as crianças. É certo que se não deve, quando são exor­tadas a aplicarem-se ao estudo e a praticar as vir­tudes cristãs, propôr-lhes a recompensa, como o único meio de fazerem o que se lhes exige; importa, pelo contrário, fazer-lhes bem sentir a obrigação que temos de trabalhar por dever, para cumprir a von­tade de Deus. Seria dalguma forma tornar venal a alma de uma criança, habituá-la a não fazer nada, senão com a promessa de receber alguma coisa; mas quando se sabe usar delas com comedimento e pru­dência, as recompensas são úteis: fazem compreen­der às crianças que encontramos interesse e estima nos nossos semelhantes, quando nos aplicamos ao trabalho, e sabemos cumprir os nossos deveres.

Nunca se deve propor, como recompensa, diz Rollin, nem adornos, nem gulodices, nem coisas semelhantes. E a razão é óbvia: é que, prometendo-lhes essas coisas, em forma de recompensa, faz-se que elas as julguem, como coisas boas e dese­jáveis, e dessa forma, fazemos-lhes estimar o que devem desprezar. O mesmo direi do dinheiro.» — «Nunca pude compreender, escreve Mgr. Dupan­loup, a religião de certos pais, que prometem a seus filhos, como recompensa, para o dia da sua primeira comunhão, relógios e correntes de ouro. O resultado foi, como algumas vezes vi, que o relógio era nesse dia mais adorado, que o próprio Deus».— «Podem recompensar-se as crianças, diz Fénelon, com brinquedos, com passeios, com pequenas lem­branças, como quadros, estampas, medalhas, livros dourados», e especialmente por algumas distrações agradáveis, que sirvam, para lhes alimentar a pie­dade, como peregrinações, passeios a um oratório, ou assistência a alguma solenidade religiosa, nalguma terra vizinha.

Com as crianças, como nota um judicioso autor, deve haver o cuidado de não faltar àquilo que se prometeu; doutra forma não tardariam a desprezar tanto as promessas, como as recompensas, fartas de esperar pelo cumprimento do que lhes prometeram.

A Mãe segundo a vontade de Deus – Pe. J. Berthier