TEMPO DO ADVENTO: DA NECESSIDADE DA ENCARNAÇÃO QUANTO À SATISFAÇÃO SUFICIENTE PELO PECADO

FRA_ANGELICOI. Uma satisfação pode ser considerada suficiente de duplo modo: Primeiro, perfeitamente; quando é condigna por uma certa adequação, para recompensar a culpa cometida. E, assim, uma suficiente satisfação não podia existir da parte do homem; pois, a natureza humana estava corrupta na sua totalidade pelo pecado; nem o bem de nenhuma pessoa, nem ainda o de muitas, podia, por equiparação, recompensar o detrimento de toda a natureza. Quer também porque o pecado. cometido contra Deus implica uma certa infinidade, relativamente à infinidade da majestade divina; pois, tanto mais grave é a ofensa, quanto maior é aquele contra quem se delinqüiu. Por onde, uma satisfação condigna exigia que o ato do satisfaciente tivesse uma eficácia infinita, como dizendo respeito a Deus e ao homem. 

Noutro sentido, uma satisfação pode ser considerada suficiente, imperfeitamente; isto é, quanto à aceitação de quem com ela se contenta, embora não seja condigna. E, deste modo, a satisfação do puro homem é suficiente. E como tudo o que é imperfeito pressupõe algo de perfeito, em que se funda, daí vem que toda a satisfação de um puro homem, tira a sua eficácia da satisfação de Cristo.

(IIIa., q. 1, a. 2, ad 2)

II. A Encarnação traz a confiança na remissão do pecado:  Assim como o homem é disposto para a bem-aventurança pela virtude, dela é também impedido pelo pecado. Ora, o pecado contrário à virtude é impedimento para a bem-aventurança, não só porque traz uma certa desordem à alma, enquanto a afasta da ordenação para o devido fim, como também ofendendo a Deus, de quem espera o prêmio da bem-aventurança (…) Além disso, tomando o homem consciência dessa ofensa, pelo pecado perde a confiança de se dirigir para Deus, confiança necessária para a aquisição da bem-aventurança.

É, pois, necessário ao gênero humano, que transborda de pecados, que lhe seja ministrado um remédio contra os pecados. Ora, esse remédio não pode vir senão de Deus, que pode mover a vontade humana para o bem, repondo-a na devida ordem, e pode perdoar a ofensa que recebeu, porque uma ofensa só é perdoada por quem recebe. 

Mas, para o homem librar-se de uma ofensa passada, é necessário que ele tenha conhecimento do perdão vindo de Deus. No entanto, só pode ficar certo disso, se Deus certificá-lo.

Por isso, foi conveniente e útil ao gênero humano, para que se conseguisse a bem-aventurança, que Deus se fizesse homem. Desse modo conseguiria de Deus perdão dos pecados e, pelo Deus-homem, a certeza desse perdão.

(Contr. 4, 54)

Meditações tiradas da obra de S. Tomás – Pe. D. Mézard

TEMPO DO ADVENTO: DA NECESSIDADE DA ENCARNAÇÃO – PARTE 2

Resultado de imagem para anjo nossa senhora encarnaçãoFoi necessário que Deus se encarnasse não somente para fazer avançar o homem no bem, mas para removê-lo do mal.

1. Porque assim o homem é instruído para não preferir o diabo a si nem venerá-lo a ele, o autor do pecado. Por isso diz Agostinho: Pois que a natureza humana pode assim unir-se a Deus, de modo a fazer com ele uma só pessoa, aqueles soberbos espíritos malignos não ousem antepor-se ao homem, pois não têm carne
2. Porque isso nos adverte quão grande seja a dignidade da natureza humana, para não a inquinarmos pelo pecado. Por onde, diz Agostinho: Deus nos mostrou quão excelso lugar tem a natureza humana entre as criaturas, por ter se manifestado aos homens como verdadeiro homem. E Leão Papa diz: Reconhece, ó Cristão, a tua dignidade; e, feito consorte da natureza divina, não queiras por uma volta degenerada tornar à antiga vileza
3. Porque, para eliminar a presunção humana, a graça de Deus, sem nenhuns méritos precedentes, se nos inculca no homem Cristo. 
4. Porque a soberba do homem, que é o máximo impedimento para nos unirmos a Deus, pode ser neutralizada e curada pela tão grande humildade de Deus. 
5. Para livrar o homem da servidão do pecado. O que, no dizer de Agostinho, devia realizar-se de modo que o diabo fosse vencido pela justiça do homem Jesus Cristo; e isso se deu por ter Cristo satisfeito por nós. Pois, um puro homem não podia satisfazer por todo o gênero humano; e Deus não devia satisfazer. Por onde era necessário que Jesus Cristo fosse Deus e homem. Por isso diz Leão Papa: A fraqueza é assumida pela força, pela majestade a humildade; de modo que, como convinha ao remédio à nossa salvação, um mesmo mediador entre Deus e os homens pudesse, como homem, nascer, e como Deus, ressurgir. Pois, se não fosse verdadeiro Deus não daria remédio; e se não fosse verdadeiro homem, não daria o exemplo
E há ainda muitas outras utilidades daí resultantes, superiores à compreensão dos sentidos do homem. 

TEMPO DO ADVENTO: DA NECESSIDADE DA ENCARNAÇÃO – PARTE 1

encarDe dois modos pode uma coisa ser considerada necessária para um determinado fim. Primeiro, como aquilo sem o que o fim não pode existir; assim, o alimento é necessário à conservação da vida humana. De outro modo, como o meio pelo qual melhor e mais convenientemente se chega ao fim: assim, o cavalo é necessário para viajar. Do primeiro modo não era necessário, para a reparação da natureza humana, que Deus se encarnasse. Pois, pela sua onipotente virtude, Deus podia reparar por muitos outros modos a natureza humana. Do segundo, modo, era necessário que Deus se encarnasse, para a reparação da natureza humana. por isso, Agostinho diz: mostremos que não faltava a Deus nenhum outro modo possível, a cujo poder todas as coisas estão igualmente sujeitas; mas, não existia nenhum outro modo mais conveniente para obviar à nossa miséria. E isto podemos considerar relativamente à promoção do homem no bem:

  1. Quanto à fé, que mais se certifica por crer na palavra mesma de Deus, Donde o dizer Agostinho: Para que o homem mais confiadamente trilhasse o caminho da verdade, a própria Verdade, o Filho de Deus, assumindo a humanidade, constituiu e fundou, a fé. 
  2. Quanto à esperança, que assim por excelência se exalça. Donde o dizer Agostinho: Nada foi tão necessário para exalçar a nossa esperança, do que a demonstração de quanto Deus nos ama. Pois, que indício mais manifesto desse amor do que ter-se o Filho de Deus dignado entrar em consórcio com a nossa natureza
  3. Quanto à caridade, que assim sobremaneira se excita. Por isso, diz Agostinho: Que maior causa do advento do Senhor do que mostrar Deus o seu amor para conosco? E depois acrescenta: Se nos custava amá-lo, que ao menos não custe corresponder-lhe ao amor. 
  1. Quanto a obrar retamente, do que se nos deu como exemplo. Donde o dizer Agostinho: Não se devia seguir o homem que podia ser visto; devia-se seguir a Deus, que não podia ser visto. Pois, para que se manifestasse ao homem e fosse visto do homem e o seguisse o homem, Deus fez-se homem
  1. Quanto à participação da divindade, que é a Verdadeira beatitude do homem e o fim da vida humana. O que nos foi conferido pela humanidade de Cristo; assim, diz Agostinho: Deus se fez homem para o homem fazer-se Deus.

Meditações tiradas da obra de S. Tomás – Pe. D. Mézard

TEMPO DO ADVENTO: A CONVENIÊNCIA DA ENCARNAÇÃO

angeli19I. – Convenientíssimo parece que as coisas invisíveis de Deus se manifestem elas visíveis; pois, para tal foi feito todo o mundo, segundo as palavras do Apóstolo (Rom 1, 20): “As coisas invisíveis de Deus se vêem consideradas pelas obras que foram feitas“. Ora, como diz Damasceno, pelo mistério da Encarnação se manifesta ao mesmo tempo a bondade, a sabedoria, a justiça e o poder ou virtude de Deus. A bondade, pois não desprezou a fraqueza da sua própria criatura; a justiça porque não deu a outrem senão ao homem o poder de vencer o tirano, nem livrou o homem da morte pela violência; a sabedoria, porque deu a mais cabal solução a um problema dificilimo; o poder enfim ou a virtude infinita, pois nada há de maior ao fato de Deus ter-se feito homem. Logo, foi conveniente Deus ter-se encarnado.

II. – A cada coisa é conveniente o que lhe cabe segundo à essência da sua própria natureza; assim, convém ao homem raciocinar por ser de natureza racional. Ora, a natureza mesma de Deus é a bondade, como está claro em Dionísio. Por onde, tudo o que pertence essencialmente ao bem convém a Deus. Ora pertence essencialmente ao bem o comunicar-se aos outros, como está claro em Dionísio. Por onde, pertence à essência do sumo bem comunicar-se de maneira suma à criatura. O que sobretudo se realiza por ter-se a si mesmo unido a natureza criada, de modo a fazer uma só pessoa dos três, o Verbo, a alma e a carne, como diz Agostinho. Por onde, é manifesto que foi conveniente que Deus se tivesse encarnado.

III. – Ser unida a Deus, na unidade de pessoa, não era conveniente à carne humana, pela condição da sua natureza, porque isso lhe sobrepujava a dignidade dela. Mas, foi conveniente a Deus, pela infinita excelência da sua bondade uní-la a si, para a salvação humana.

Diz Agostinho: “Deus é grande, não como uma mole, mas, pela sua virtude. Por isso, a grandeza da sua virtude não se comprimiu com a exiguidade local. Não é, portanto, incrível ao passo que o verbo transitório do homem, seja total e simultaneamente ouvido por muitos e por cada um, que o Verbo Deus, permanente, esteja total e simultaneamente em toda parte. Por onde, nenhum inconveniente resulta para eus encarnado.

IIIa., q. 1, a. 1

Meditações tiradas da obra de S. Tomás – Pe. D. Mézard

TEMPO DO ADVENTO: A IMENSIDÃO DO AMOR DE DEUS

tomasPorque Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu seu filho Unigênito, para que todo o que crê nele, não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16)

A causa de todos nosso bens é o Senhor e o amor divino. Amar, propriamente, é querer o bem a alguém. Portanto, por ser a vontade de Deus causa das coisas, e porque Ele nos ama, sobrevem-nos o bem. 

O amor de Deus é causa do bem da natureza. Também o é do bem da graça: “Eu amei-te com amor eterno; por isso te atrai” (Jr 31), isto é, pela graça.

Mas, que seja também o que dá o bem da graça, resulta de grande caridade. Demonstra-se aqui ser máxima esta caridade de Deus, por quatro motivos:

  1. Pela pessoa que ama, pois é Deus quem ama e o faz imensamente. Por isso diz: Porque Deus amou.
       
  2. Pela condição de quem é amado, pois é ao homem que se ama, mundano, carnal, isto é, vivendo em pecado. “sendo nós inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu filho” (Rom 5, 10). Por isso diz: mundo
     
  3. Pela grandeza do dom, pois o amor prova-se pelo que se dá. Como diz Gregório, a prova do amor é a revelação da obra. Ora, de Deus recebemos o maior dos dons, pois deu seu filho Unigênito. Seu filho, isto é, natural, consubstancial a si, não adotivo. Unigênito, para demonstrar que Deus não dirigiu seu divino amor a múltiplos filhos, mas dirigiu-o todo ao Filho que nos deu como prova de seu imenso amor.
  1. Pela grandeza do fruto, pois por ele temos a vida eterna. Por isso diz: Para que todo o que crê nele, não pereça, mas tenha a vida eterna, que conquistou para nós morrendo na cruz.

Diz-se de alguém que pereceu porque foi impedido de alcançar o fim ao qual estava ordenado. O homem está ordenado a vida eterna e, quando peca, desvia-se deste mesmo fim. Enquanto vive, não perece de todo, pois pode restaurar; quando morre em pecado, então perece de todo.

Com estas palavras, “tenha a vida eterna”, verifica-se a imensidão do amor divino; pois, ao dar a vida eterna, da-se a si mesmo. Ora, a vida eterna nada mais é do que o gozo de Deus. Dar-se a si mesmo é indício de grande amor.

(In Joan. 3)

Meditações tiradas da obra de S. Tomás – Pe. D. Mézard

ESPECIAIS DO BLOG: A AVE MARIA

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Em mais uma “Operação Memória” de nosso blog, trazemos novamente os links para as explicações da Ave Maria, segundo São Tomás de Aquino:

OBS: Como é perceptível, há apenas a primeira parte da Ave Maria. Lembramos que a segunda parte da Oração foi acrescentada apenas nos séculos XV e XVI.

ESPECIAIS DO BLOG: O PAI NOSSO

Resultado de imagem para jesus ensinando pai nossoEm mais uma “Operação Memória” de nosso blog, trazemos novamente os links para as explicações do Pai Nosso, segundo São Tomás de Aquino:

06 DE AGOSTO: TRANSFIGURAÇÃO DE NOSSO SENHOR

Resultado de imagem para transfigurationHoje comemoramos a Transfiguração de Nosso Senhor.

Tratando desse assunto, São Tomás discute 4 artigos:

Uma Meditação de Santo Afonso de Ligório em relação ao tema pode ser lido clicando aqui.

PANGE LINGUA GLORIOSI

Canta, minha língua
Este mistério do corpo glorioso,
E do sangue precioso,
Que, do fruto de um ventre generoso
O rei das nações derramou
Como preço da redenção do mundo.

Dado a nós, por nós nascido
De uma intacta virgem,
E no mundo vivendo,
Espalhando a semente da palavra,
O tempo certo da sua permanência
Encerrou no rito admirável.

Na ceia da última noite
Reclinando-se com seus irmãos
Tendo observado plenamente
A lei da festa prescrita,
Deu a si mesmo com as suas mãos
Somo alimento ao grupo de doze

O verbo encarnado, o pão real
Com sua palavra muda em carne:
O vinho torna-se o sangue de cristo,
E como os sentidos falham,
Para firmar um coração sincero
Apenas a fé é eficaz.

O sacramento tão grande
Veneremos curvados:
E a antiga lei
Dê lugar ao novo rito:
A fé venha suprir
A fraqueza dos sentidos.

Ao pai e ao filho
Saudemos com brados de alegria,
Louvando-os, honrando-os, dando-lhes
Graças e bendizendo-os:
Ao espírito que procede de ambos
Demos os mesmos louvores.

Amém. Continuar lendo

A AMIZADE

Resultado de imagem para sentados banco amigosUma das características mais notáveis da ciência moral que Santo Tomás de Aquino, seguindo aqui a Aristóteles, prescreve dever ser ensinada aos que se preparam para a contemplação, está no fato de que ela não se esgota com a aquisição das virtudes. Ao contrário, o Comentário ao VIII e IX da Ética afirma que mais ainda do que as virtudes, pertence à ciência moral mostrar o que seja a verdadeira amizade entre os homens.

Há várias razões, diz o Comentário à Ética, pelas quais a amizade pertence ao âmbito da ciência moral que deve formar o aluno para a contemplação.

Primeiro, porque pertence à ciência moral tratar das virtudes; ora, a amizade não é uma virtude, mas a verdadeira amizade tem a virtude como sua causa (149).

Em segundo lugar, pertence à ciência moral a consideração de todas as coisas que são necessárias à vida humana, entre as quais é maximamente necessária a amizade, pois ninguém corretamente disposto pelas virtudes escolheria viver possuindo todos os demais bens exteriores sem os amigos (150).

Em terceiro lugar, a amizade concorre para o bem civil, ao qual se ordena a ciência moral, pois as cidades parecem se conservar pela amizade, e por isso mesmo é que os bons legisladores preocupam-se em conservar a amizade entre as cidades mais até do que a justiça, acerca da qual, às vezes, deixam de aplicar as penas para não dar origem a discórdias (151). Continuar lendo

TRADIÇÃO CATÓLICA SEMPRE ENTENDEU QUE É JUSTO COMBATER A FALSA PAZ QUE O SENHOR “NÃO VEIO TRAZER À TERRA”

Os que fazem guerras justas procuram a paz. Consequentemente não se opõem à paz, a não ser à paz má que o Senhor “não veio trazer à terra”, segundo o Evangelho de Mateus (10, 34)

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Batalha de Lepanto. Convocada pelo Papa S. Pio V que, a duros esforços, coordenou os interesses das potências católicas e levou-as à vitória de Lepanto, em 7 de outubro de 1571. A importância desta vitória, para a defesa de uma Europa cristã, obtida em circunstâncias militares muito difíceis, levaram o Papa Pio V a instituir naquela data o dia de Nossa Senhora da Vitória, bem como a divulgar, em toda a cristandade a prática da oração do Rosário, cuja origem é tradicionalmente atribuida à aparição da Santa Virgem ao fundador da Ordem dos Pregadores, São Domingos de Gusmão

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Parece que guerrear é sempre um pecado, pois:

  1. Não se aplica uma pena a não ser para um pecado. Ora, no Evangelho de Mateus (26, 52) o Senhor notifica com uma pena os que fazem a guerra: “Todos os que tomam a espada, pela espada perecerão”. Logo, a guerra é sempre ilícita.
  2. Tudo o que é contrário a um preceito divino é pecado. Ora, guerrear é contrário a um preceito divino, pois no Evangelho de Mateus (5, 39) se diz: “Eu vos digo: não resistais ao homem mau”, e na Carta aos Romanos (12, 19): “Não vos defendais, meus amados; mas daí lugar à ira”. Logo, é sempre um pecado fazer a guerra.
  3. Somente o pecado se opõe a um ato de virtude. Ora, a guerra se opõe à paz. Logo, é sempre pecado.

No entanto, Agostinho escreve: “Se a moral cristã julgasse que a guerra é sempre culpável, quando no Evangelho soldados pedem um conselho para a sua salvação, dever-se-ia responder-lhes que jogassem fora as armas e abandonassem completamente o exército. Ora, se lhes diz: ‘Não molesteis a ninguém, contentai-vos com vosso soldo’. Prescrever-lhes que se contentem com seu soldo não os proíbe combater”. Continuar lendo

ADORO TE DEVOTE

Adóro te devóte, latens Déitas,
Quae sub his figúris vere látitas:
Tibi se cor meum totum súbiicit,
Quia te contémplans totum déficit.

Visus, tactus, gustus in te fállitur,
Sed audítu solo tuto créditur.
Credo, quidquid dixit Dei Fílius:
Nil hoc verbo Veritátis vérius. Continuar lendo

A FILIAÇÃO DIVINA

Deu-lhes poder de se tornarem filhos de Deus (Jo 1, 12) 

Os homens tornam-se filhos de Deus por assimilação a Deus, e assim, por uma tríplice assimilação, os homens são filhos de Deus: 

[1] Pela infusão da graça; donde, quem quer que tenha a graça santificante torna-se filho de Deus (Gl 4, 6): E porque vós sois filhos, Deus mandou aos vossos corações o Espírito de seu Filho.  

[2] Pela perfeição das obras, pois quem faz obra de justiça é filho (Mt 5, 44): Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem. Deste modo serei filhos do vosso Pai, que está nos céus. 

[3] Alcançando a glória, tanto quanto a alma, pela luz da glória (1 Jo 3, 2): Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; como quanto ao corpo (Fl 3, 21): transformará o nosso corpo de miséria. E de ambos modos fala o Apóstolo (Rm 8, 23): esperando a adoção de filhos de Deus.  Continuar lendo

O PARTO DA ALMA PENITENTE

nascEm sentido místico, podemos considerar que o parto da bem-aventurada Virgem Maria significa o parto da alma penitente, conforme a Escritura (Is 26, 17): Assim como a que concebeu, quando está próximo ao parto, confrangendo-se, dá gritos no meio das suas dores, assim somos nós, Senhor, diante da tua face.

A este parto convém místico convém o lugar do nascimento de Cristo, Belém. Diz São Bernardo: “Si também fores Belém pela contrição do coração, de modo que tuas lágrimas sejam teu pão de dia e de noite, e esta refeição te proporcione alegria contínua (Belém interpreta-se como a casa de pão), e se fores Judá pela confissão e cidade de David pelas obras de satisfação, nascera Cristo em ti, e encherá teu coração de alegria, hoje na graça, amanhã, na glória”. 

Deve-se advertir que, depois do parto da penitência, a alma penitente deve envolver-se com os panos da caridade contra a torpeza do pecado, que consiste na desordem interior da alma;   Continuar lendo

SÃO JOÃO EVANGELISTA

EvangelistaUm dos seus discípulos, ao qual Jesus amava, estava recostado sobre o seio de Jesus (Jo 13, 23) 

Este discípulo é são João Evangelista, que escreve sobre si mesmo como se falasse de outro, querendo com isso evitar a jactância, conforme o fizeram outros que escreveram as Escrituras. Moisés, nos livros que escreveu, fala de si como se de outro: Falou Deus a Moisés. Também o faz são Mateus: viu um homem que estava sentado no telônio, chamado Mateus. E são Paulo: Conheço um homem… 

São João diz três coisas de si mesmo: 

[1] O amor que lhe fazia repousar em Cristo: estava recostado, i. é, repousava. Diz a Escritura (Jó 22, 26): Então porás tuas delícias no Onipotente, e levantarás o teu rosto para Deus. E noutro lugar (Sl 22, 2), conduz-me junto das águas para descansar. 

[2] O conhecimento dos segredos que Cristo lhe revelava, especialmente na redação deste Evangelho. Por isso diz que recostava sobre o seio de Jesus; ora, por seio se significa o secreto: O Unigênito, que está no seio do Pai, ele mesmo é que o deu a conhecer (Jo 1, 18).  

[3] O amor especial com que Cristo o amava. Por isso diz: ao qual Jesus amava. Não que o amasse singularmente, mas como se Jesus lhe amasse de modo mais excelente, de algum modo.    Continuar lendo

CRISTO NASCEU PASSÍVEL E MORTAL

nascimentoEnviou Deus seu Filho em carne semelhante à do pecado (Rm 8, 3)

Não foi conveniente que Deus assumisse uma carne impassível e imortal, mas antes uma carne passível e mortal.

Primeiro porque foi necessário aos homens conhecerem o benefício da Encarnação para que, por esse motivo, se inflamassem do amor divino. E foi conveniente que assumisse uma carne semelhante à dos outros homens, passível e mortal, para manifestar a veracidade da Encarnação. Porém, se tivesse assumido uma carne impassível e imortal, aos homens, que desconheciam essa carne, pareceria que fosse um fantasma, e não verdadeira carne. 

Segundo, porque foi necessário que Deus assumisse a carne para satisfazer pelo pecado do gênero humano. Ora, um satisfaz pelo outro, quando um assume voluntariamente para si a pena devida ao pecado do outro, mas não devida a si. Ora, a pena devida ao pecado do gênero humano são a morte e os sofrimentos da presente vida. Por isso, foi conveniente que Deus assumisse a carne passível, mortal e sem pecado, para que, sofrendo e morrendo, satisfizesse por nós e afastasse o pecado.  Continuar lendo

A ENCARNAÇÃO, AUXÍLIO PARA O HOMEM QUE BUSCA A BEM-AVENTURANÇA

angeli119Se alguém atenta e piamente considera os mistérios da Encarnação, encontrará neles grande profundeza de sabedoria que excede o conhecimento humano. Por isso, a quem os considera com piedade, apresentam-se cada vez mais as suas razões admiráveis.

Ora, deve-se ver que a Encarnação de Deus foi um eficacíssimo auxílio para o homem que busca a bem-aventurança:

[1] A perfeita bem-aventurança humana consiste na imediata visão de Deus. No entanto, poderia parecer a alguém que o homem jamais atingirá esse estado, porque é imensa a distância das duas naturezas. Mas, como Deus quis unir pessoalmente a si a natureza humana, fica clarissimamente manifesto que o homem pode unir-se com Deus pelo intelecto, vendo-o imediatamente. Por isso, foi convenientíssimo que Deus assumisse a natureza humana para elevar a esperança do homem na bem-aventurança. Por conseguinte, depois da Encarnação de Cristo, os homens começaram a aspirar sempre mais a bem-aventurança celeste, segundo o que ele mesmo disse (Jo 10, 10): Vim, para que tenham a vida, e a tenham em abundância.

[2] Além disso, como a perfeita bem-aventurança do homem consiste em tal conhecimento de Deus, que excede a capacidade de todo intelecto criado, foi necessário que houvesse uma certa prelibação desse conhecimento, segundo a qual o homem fosse encaminhado para aquela plenitude do conhecimento bem-aventurado, o que se realiza pela fé. Ora, o conhecimento que leva o homem ao fim último deve ser certíssimo, porque é o princípio de todas as coisas que levam para este fim. Por conseguinte, foi conveniente ao homem ser instruído pelo próprio Deus feito homem, para que tivesse certeza das verdades da fé e para que recebesse de modo humano a doutrina divina. Por esse motivo, vemos que, após a Encarnação de Cristo, os homens são ensinados com maior clareza e certeza sobre o conhecimento de Deus, segundo o que está escrito (Is 11,9): A terra encheu-se do conhecimento de Deus.
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“…BENDITO É O FRUTO DE VOSSO VENTRE…”

5O pecador procura nas criaturas aquilo que não pode achar, mas o justo o obtém. A riqueza dos pecadores está reservada para os justos, dizem os Provérbios (13, 22). Assim Eva procurou o fruto, sem achar nele a satisfação de seus desejos. A Bem-aventurada Virgem, ao contrário, achou em seu fruto tudo o que Eva desejou.

Eva, com efeito, desejou de seu fruto três coisas:

Primeiro, a deificação de Adão e dela mesma e o conhecimento do bem e do mal, como lhe prometera falsamente o diabo: Sereis como deuses (Gn 3, 5), disse-lhes o mentiroso. O diabo mentiu, porque ele é mentiroso e o pai da mentira (cf. Jo 8, 44). E por ter comido do fruto, Eva, em vez de se tornar semelhante a Deus, tornou-se dessemelhante. Por seu pecado, afastou-se de Deus, sua salvação, e foi expulsa do paraíso.

A Bem-aventurada Virgem, ao contrário, achou sua deificação no fruto de suas entranhas. Por Cristo nos unimos a Deus e nos tornamos semelhantes a Ele. Diz-nos São João: (1 Jo 3, 2) Quando Deus se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque o veremos como Ele é.

Em segundo lugar, Eva desejava o deleite (cf. Gn 3, 6), mas não o encontrou no fruto e imediatamente conheceu que estava nua e a dor entrou em sua vida. Continuar lendo

“…BENDITA SOIS VÓS ENTRE AS MULHERES…”

4Três maldições foram proferidas por Deus contra os homens, por causa do pecado original.

A primeira foi contra a mulher, que traria seu filho no sofrimento e daria à luz com dores.

Mas a Bem-aventurada Virgem não está submetida a estas penas. Ela concebeu o Salvador sem corrupção, trouxe-o alegremente em seu seio e o teve na alegria. A Ela se aplica a palavra de Isaias: (35, 2) A terra germinará, exultará, cantará louvores.

A segunda maldição foi pronunciada contra o homem (Gn 3, 9): Comerás o teu pão com o suor de teu rosto.

A Bem-aventurada Virgem foi isenta desta pena. Como diz o Apóstolo (1 Cor 7, 32-34): Fiquem livres de cuidados as virgens e se ocupem só com o Senhor.

A terceira maldição foi comum ao homem e à mulher. Em razão dela devem ambos tornar ao pó. Continuar lendo

“…O SENHOR É CONVOSCO…”

3Em segundo lugar, a Virgem ultrapassa os Anjos em sua intimidade com o Senhor. O arcanjo Gabriel reconhece esta superioridade, quando lhe dirige estas palavras: O Senhor é convosco, isto é, venero-vos e confesso que estais mais próxima de Deus do que eu mesmo estou. O Senhor está, efetivamente, convosco.

O Senhor Pai está com Maria, pois Ele não se separa de maneira nenhuma de seu Filho e Maria possui este Filho, como nenhuma outra criatura, até mesmo angélica. Deus mandou dizer a Maria, pelo Arcanjo Gabriel (Lc 1, 35) Uma criança santa nascerá de ti e será chamada Filho de Deus.

O Senhor está com Maria, pois repousa em seu seio. Melhor do que a qualquer outra criatura se aplicam a Maria estas palavras de Isaias: (12, 6) Exulta e louva, casa de Sião, porque o Grande, o Santo de Israel está no meio de ti.

O Senhor não habita da mesma maneira com a Bem-aventurada Virgem e com os Anjos. Deus está com Maria, como seu Filho; com os Anjos, Deus habita como Senhor.

O Espírito Santo está em Maria, como em seu templo, onde opera. O arcanjo lhe anunciou: (Lc 1, 35) O Espírito Santo virá sobre ti. Assim, pois, Maria concebeu por efeito do Espírito Santo e nós a chamamos «Templo do Senhor», «Santuário do Espírito Santo». (cf. liturgia das festas de Nossa Senhora). Continuar lendo

“…CHEIA DE GRAÇA…”

2Primeiramente, a bem-aventurada Virgem ultrapassou todos os Anjos por sua plenitude de graça, e para manifestar esta preeminência o Arcanjo Gabriel inclinou-se diante dela, dizendo: cheia de graça; o que quer dizer: a vós venero, porque me ultrapassais por vossa plenitude de graça.

Diz-se também da Bem-aventurada Virgem que é cheia de graça, em três perspectivas:

Primeiro, sua alma possui toda a plenitude de graça. Deus dá a graça para fazer o bem e para evitar o mal. E sob esse duplo aspecto a Bem-aventurada Virgem possuía a graça perfeitissimamente, porque foi ela quem melhor evitou o pecado, depois de Cristo.

O pecado ou é original ou atual; mortal ou venial.

A Virgem foi preservada do pecado original, desde o primeiro instante de sua concepção e permaneceu sempre isenta de pecado mortal ou venial.

Também está escrito, no Cântico dos Cânticos: (4, 7) Tu és formosa, amiga minha, e em ti não há mácula. Continuar lendo

“AVE…”

1Na antiguidade, a aparição dos Anjos aos homens era um acontecimento de grande importância e os homens sentiam-se extremamente honrados em poder testemunhar sua veneração aos Anjos.

A Sagrada Escritura louva Abraão por ter dado hospitalidade aos Anjos e por tê-los reverenciado.

Mas um Anjo se inclinar diante de uma criatura humana, nunca se tinha ouvido dizer antes que o Anjo tivesse saudado à Santíssima Virgem, reverenciando-a e dizendo: Ave.

Sé na antiguidade o homem reverenciava o Anjo e o Anjo não reverenciava o homem, é porque o Anjo é maior que o homem e o é por três diferentes razões:

Primeiramente, o Anjo é superior ao homem por sua natureza espiritual.

Está escrito: Dos seres espirituais Deus fez seus Anjos. (Sl 103).

O homem tem uma natureza corrutível e por isso Abraão dizia a Deus: (Gn 18, 27) Falarei a meu Senhor, eu que sou cinza e pó.

Não convém que a criatura espiritual e incorruptível renda homenagem à criatura corruptível. Continuar lendo

02 DE OUTUBRO – DIA DOS SANTOS ANJOS DA GUARDA

guardian-angel-paintingPara um bom entendimento sobre questões referentes aos anjos colocamos abaixo alguns links sobre o assunto:

“…MAS LIVRAI-NOS DO MAL. AMÉM.”

pater9

  1. — Nos pedidos precedentes, o Senhor nos ensina a implorar o perdão dos pecados e nos mostra como escapar das tentações. Aqui nos ensina a pedir que sejamos preservados do mal.

Este é um pedido geral. Segundo Santo Agostinho, visa as diferentes espécies de males: pecados, doenças, aflições. Já falamos do pecado e da tentação; resta-nos tratar das outras categorias de males: todas as adversidades e aflições deste mundo. Deus nos livra delas de quatro maneiras.

  1. — Em primeiro lugar, Deus livra o homem das aflições, afastando-as dele; o que faz raramente. Neste mundo, os santos são afligidos. Todos os que quiserem viver piamente em Cristo Jesus, padecerão perseguição, diz São Paulo. (2 Tm 3, 12).

No entanto, às vezes, Deus concede a alguns não serem afligidos. Quando Deus sabe que uma pessoa não suporta a prova, age como um médico que evita dar remédios violentos a um doente muito mal. Eis, diz o Senhor, (Ap 3,8) que pus diante de ti uma porta aberta que ninguém pode fechar.

Na pátria celeste é lei geral que ninguém seja afligido. Está no Apocalipse: (7, 16-17) Já não terão fome nem sede, nem cairá sobre eles o sol nem calor algum. Porque o Cordeiro, que está no meio do trono, os guardará e os levará às fontes das águas da vida, e Deus enxugará toda lágrima dos seus olhos.
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“…E NÃO NOS DEIXEIS CAIR EM TENTAÇÃO…”

pater876 — Há pecadores que desejam obter o perdão de seus pecados; confessam-se e fazem penitência, mas não se aplicam como devem, para não recaírem no pecado. São inconseqüentes consigo mesmos, pois choram e se arrependem de seus pecados, para em seguida caírem novamente nos mesmos pecados e assim acumularem motivo para lágrimas futuras. A propósito disto, diz o Senhor em Isaias: (1, 16) Lavai-vos, purificai-vos, tirai de diante de meus olhos a malignidade de vossos pensamentos: deixai de fazer o mal.

É por isso que Cristo, como dissemos, nos ensina, no pedido anterior, a implorar o perdão de nossos pecados e neste, a graça de evitar o pecado dizendo: e não nos deixeis cair em tentação, pois é verdadeiramente a tentação que nos induz ao pecado.

  1. — Neste pedido três questões atraem nossa atenção:
  1. a) Que é a tentação?
  2. b) Como e por quem o homem é tentado?
  3. c) Como se livra da tentação?
  1. — a) Que é a tentação?

Tentar não quer dizer mais do que: por à prova. Assim, tentar o homem, é por à prova sua virtude. A tentação pode ser de duas maneiras, segundo as exigências da virtude humana. Uma, quanto à perfeição da obra e outra, que o homem se guarde de todo o mal. É o que diz o Salmista: (Sl 33, 15) Evita o mal e faze o bem.

A virtude do homem será pois provação, tanto do ponto de vista da excelência de se agir, quanto do seu afastamento do mal.

  1. — Se sois provados para saber, se estais prontos para praticar o bem, como, por exemplo, jejuar, e estais efetivamente prontos para o bem, grande é a vossa virtude.

Deste modo Deus prova o homem, não porque Ele não conhece sua virtude, mas para que assim todos a fiquem conhecendo e o tenham como exemplo. Deste modo Deus tentou Abraão (Gn 22) e Jó. Por isso Deus envia tribulações aos justos; se suportam com paciência, sua virtude é manifesta e progridem na virtude. O Senhor vosso Deus vos tenta, para se fazer manifesto se o amais ou não, dizia Moisés aos Hebreus (Dt 13, 3). Portanto Deus tenta o homem, provocando-o a fazer o bem. Continuar lendo

“…PERDOAI AS NOSSAS DÍVIDAS ASSIM COMO NÓS PERDOAMOS AOS NOSSOS DEVEDORES…”

pater664 — Encontramos homens de grande sabedoria e força, mas quem confia em sua própria força não trabalha com sabedoria nem conduz até o final aquilo que se propusera fazer. Parecem ignorar que os conselhos dão força às reflexões. Como ensinam os Provérbios (20, 18).

Mas notemos que o Espírito Santo que dá a força, dá também o conselho; pois qualquer bom conselho relativo à salvação do homem só pode vir do Espírito Santo.

O conselho é necessário ao homem, quando este sofre tribulações, assim como o conselho do médico, quando se está doente. Quando um homem está espiritualmente doente pelo pecado, deve pedir conselho. E Daniel mostra que o conselho é necessário ao pecador, quando diz ao rei Nabucodonosor (Dn 4, 24): Segue, ó rei, o conselho que te dou, redime os teus pecados com esmolas.

O conselho de dar esmolas e ser misericordioso é excelente para apagar os pecados. Por isso o Espírito Santo ensina aos pecadores esta oração pedindo: Perdoai as nossas dívidas, assim como nós perdoamos os nossos devedores.

Além disso devemos verdadeiramente a Deus aquilo a que Ele tem direito e que nós lhe recusamos. Ora, o direito de Deus exige que façamos Sua vontade, preferindo-a à nossa vontade. Ofendemos, portanto, seu direito, quando preferimos nossa vontade à sua, e isto é o pecado. Assim os pecados são nossas dívidas para com Deus. E o Espírito Santo nos aconselha que peçamos a Deus o perdão de nossos pecados e por isso dizemos: Perdoai as nossas dívidas. Continuar lendo

“O PÃO NOSSO DE CADA DIA NOS DAI HOJE…”

pater553 — Muitas vezes, a grandeza da ciência e da sabedoria tornam o homem tímido, e então é preciso ter força no coração, para que o homem não desanime diante das necessidades.

O Senhor, diz Isaías (40, 29), dá força aos cansados e vigor aos que são fracos. E Ezequiel (2, 2) também diz: Entrou em,mim o Espírito, e me firmou sobre os meus pés.

O Espírito Santo, de um lado, dá força para impedir que o homem desfaleça com o medo de não ter o necessário, e por outro lado, para que o homem creia firmemente que Deus o proverá de tudo que precisar.

Assim o Espírito Santo, dispensador desta força, nos ensina a dizer: O pão nosso de cada dia nos dai hoje. E o chamamos Espírito de força.

54 — É preciso saber, que nos três pedidos precedentes do «Pai Nosso», pedimos bens espirituais, cuja possessão começa neste mundo, mas só será perfeita na vida eterna.

Com efeito, quando pedimos a santificação do nome de Deus, pedimos que reconheçamos Sua santidade; pedindo a vinda de Seu reino, pedimos alcançar a vida eterna; pedir para que a vontade de Deus seja feita é pedir que Deus cumpra Sua vontade em nós. Todos esses bens, parcialmente realizados neste mundo, só o serão perfeitamente, na vida eterna.

Também é necessário pedir a Deus alguns bens indispensáveis, cuja possessão perfeita é possível na vida presente. Por isso, o Espírito Santo nos ensina a pedir estes bens, necessários à vida presente e perfeitamente possuídos aqui em baixo.
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“…SEJA FEITA A VOSSA VONTADE ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU…”

pater443. — O Espírito Santo produz em vós um terceiro dom, chamado dom de Ciência.

 O Espírito Santo não produz nos bons somente o dom do Temor e o dom da Piedade que, como vimos atrás (n° 34), é um amor delicado por Deus. O Espírito Santo torna o homem sábio.

Davi pedia o dom da ciência no Salmo 118, 66, dizendo: Ensinai-me a bondade, a doutrina e a ciência. E é esta ciência do bem viver, que nos ensina o Espírito Santo.

Entre as disposições que contribuem para a ciência e a sabedoria do homem, a mais importante é aquela que faz com que o homem não se apóie em si mesmo. Não te estribes em tua prudência, recomenda o livro dos Provérbios (3, 5). Com efeito, os que confiam em seu próprio julgamento, a ponto de não se fiarem senão em si mesmos e não nos outros, são considerados como insensatos, e verdadeiramente o são. Declara o livro dos Provérbios (26, 12): Mais se deve esperar de um ignorante do que de um homem que é sábio a seus próprios olhos. 

Um homem não confia em seu próprio julgamento se é humilde, pois, ensinam os Provérbios (11, 2): onde há humildade, aí há igualmente sabedoria. Os orgulhosos ao contrário, põem em si toda confiança.

  1. — Assim sendo, o Espírito Santo nos ensina, pelo dom de Ciência, a não fazer a nossa vontade, mas a vontade de Deus. E também quando pedimos a Deus, que Sua vontade se faça no céu, como na terra, manifesta-se O dom de Ciência.

Quando dizemos a Deus: Seja feita a vossa vontade, é como se fôssemos doentes que aceitam o remédio amargo, prescrito pelo médico. O doente não quer tal remédio, mas aceita a vontade do médico, do contrário, seguindo só sua vontade, seria um insensato. Da mesma maneira, não devemos pedir a Deus nada além do Seu querer, isto é, a realização de Sua vontade em nós.  Continuar lendo

“…VENHA A NÓS O VOSSO REINO…”

pater334. — Como foi dito, o Espírito Santo nos faz amar, desejar e pedir retamente o que nos convém amar, desejar e pedir (no. 3). Este Espírito produz em nós, primeiro, o temor que nos leva a procurar a santificação do nome de Deus, para, em seguida, nos dar o dom da piedade. A piedade é, propriamente, uma afeição terna e devotada por um pai e também por um homem caído na miséria.

Como Deus é nosso Pai, devemos não somente venerá-lo e temê-lo, mas também alimentarmos uma terna e delicada afeição por Ele. É esta afeição que nos faz pedir a vinda do reino de Deus. São Paulo declara em Tito, 2, 11-13: A graça de Deus apareceu a todos os homens, ensinando-nos que vivamos neste mundo sóbria, justa e piamente, aguardando a esperança bem-aventurada e a vinda gloriosa de nosso grande Deus.

  1. — Mas podemos perguntar: Se o reino de Deus sempre existiu, porque pedimos a sua vinda?

Devemos responder a esta pergunta de três maneiras:

  1. a) Primeiro: o reino de Deus, em sua forma acabada, supõe a perfeita submissão de todas as coisas a Deus. Um rei não será rei, efetivamente, antes de que todos os seus súditos lhe obedeçam.

Sem dúvida, Deus pelo que é e por sua natureza, é o Senhor do universo; e o Cristo, sendo Deus e sendo homem, tem, como Deus, o senhorio sobre todas as coisas. Diz Daniel (7, 14): No mais antigo dos dias foi lhe dado o poder, a honra e a realeza. É preciso que tudo lhe seja submetido. Mas isto ainda não é assim e se realizará no fim do mundo. Está escrito (1 Cor 15, 25): É necessário que ele reine, até que ponha todos os inimigos debaixo de seus pés. Eis porque pedimos: venha a nós o vosso reino.
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